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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A governança de IA ganha uma nova fronteira: a execução

Quando agentes passam a agir sozinhos, é preciso decidir, no ponto de execução, se a ação ainda está dentro da autoridade que foi concedida.

A governança da IA se torna um problema diferente quando a IA pode agir. Uma política diz o que um sistema pode fazer. Um mapa de permissões indica o que ele pode acessar. Uma auditoria diz o que ele fez, depois que já fez. Enquanto a máquina apenas recomendava, isso bastava. Quando ela executa por conta própria, falta uma peça. No instante em que a ação ocorrer, o sistema ainda tem autoridade legítima para realizá-la? Ainda mais porque essa autoridade não é fixa.

Um agente pode estar autorizado quando a tarefa começa e deixar de estar autorizado quando ela é executada, minutos depois. O dado mudou. O risco subiu. A autorização foi retirada. Outro agente já agiu. A credencial continua válida, e a ação já não é admissível. E esse descompasso tende a crescer, não a diminuir, à medida que as empresas passam de um assistente que sugere para frotas de agentes que operam sozinhos e acionam outros agentes.

Um exemplo torna o problema concreto. Às 10h, um agente de compras recebe autorização para fechar pedidos de até R$ 100 mil. Às 10h15, o orçamento da área é congelado, ou o fornecedor entra em revisão, ou outro agente já executou a mesma ordem. A credencial do agente continua ativa e a política ainda permite compras de até R$ 100 mil. Mesmo assim, aquela compra deixou de ser cabível. Caber na regra e ser legítima naquele instante são coisas distintas. Autorização é uma propriedade técnica, e o agente a mantém. Legitimidade depende do contexto, e o contexto mudou.

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O que falta, portanto, é uma decisão tomada no ponto de execução, entre a intenção do agente e o efeito da ação. Isso não torna obsoletos a política, o compliance, o conselho ou a auditoria. Cada um segue necessário. Mas nenhum deles, sozinho, fecha o circuito quando a máquina age por conta própria. A política define o limite. O conselho define quem tem autoridade. A auditoria reconstitui o que houve. Se esta ação, deste agente, neste contexto, ainda é admissível, essa pergunta só pode ser respondida naquele ponto.

Em abril de 2026, a Coalition for Secure AI, projeto da OASIS que reúne empresas de tecnologia e segurança, publicou um documento sobre identidade e autoridade de agentes, com um princípio direto: credenciais podem estar corretas e os resultados, ainda assim, nocivos, nas palavras de Ian Molloy, co-líder de workstream e pesquisador da IBM. O NIST/NCCoE abriu, em fevereiro de 2026, uma iniciativa de padrões que trata da identidade e da autorização de agentes como um problema técnico a ser resolvido. Instituições públicas, indústria e academia estão chegando ao mesmo problema por caminhos diferentes: uma safra de trabalhos acadêmicos de 2025 e 2026 formaliza, sob o nome de governança em tempo de execução, a mesma lacuna: a decisão que precisa ocorrer antes da ação virar consequência. Um exemplo é o MI9 — Agent Intelligence Protocol, que propõe controles em tempo real, monitoramento contínuo de autorização e mecanismos de contenção.

Do lado regulatório, os mecanismos começam a tomar forma. O framework de governança de agentes que a agência de Singapura (IMDA) publicou em janeiro de 2026, revisado em maio com casos de bancos como DBS e OCBC, pede que cada agente carregue identidade digital verificável e uma trilha que registre qual agente agiu sob autorização de quem, e que ações de alto impacto ou irreversíveis passem por aprovação humana em pontos definidos. São documentos voluntários. Ainda assim, fixam um parâmetro que auditores e conselhos passarão a cobrar.

O custo de não ter essa camada também já apareceu. Em fevereiro de 2024, o Civil Resolution Tribunal da Colúmbia Britânica responsabilizou a Air Canada por uma informação incorreta fornecida por seu chatbot sobre tarifas de luto. A empresa alegou que o chatbot seria “uma entidade legal separada, responsável por seus próprios atos”, e o tribunal rejeitou a tese. Em outubro de 2025, a Deloitte Austrália devolveu parte de um contrato de A$ 440 mil com o governo depois que um relatório entregue trazia citações acadêmicas inexistentes e uma frase forjada atribuída a um juiz, produzidas com IA Generativa e reveladas só depois. Em ambos os casos, o problema apareceu na distância entre o que a organização pretendia que o sistema fizesse e o que ele efetivamente fez antes que alguém interviesse.

E a responsabilidade subiu. O EU AI Act (Regulamento UE 2024/1689) estabelece requisitos de supervisão humana para sistemas de IA de alto risco, cuja violação pode custar até € 15 milhões ou 3% do faturamento global. O teto do regime, de € 35 milhões ou 7%, fica reservado às práticas expressamente proibidas. No conselho, há precedente. Em 2021, a Corte de Chancelaria de Delaware autorizou acionistas a processar os diretores da Boeing por falha no dever de supervisionar a segurança do 737 MAX após dois acidentes fatais, num acordo de US$ 237,5 milhões, que tratou a segurança como responsabilidade de supervisão crítica do conselho. É o raciocínio que começa a alcançar sistemas de IA capazes de causar dano.

A maioria das empresas está descoberta justamente onde a exposição cresce. Pesquisa da EY de julho de 2026 indica que 76% dos executivos de tecnologia planejam ampliar o investimento em IA em pelo menos 20% no próximo ano, enquanto apenas 25% dizem ter governança corporativa e supervisão ética para IA agêntica. Levantamento do MSCI Institute, com mais de 1.100 empresas, aponta que apenas 14% integraram de fato a expertise de IA à governança. A supervisão existe no organograma. Funciona em uma minoria de casos.

Os limites do momento são conhecidos. Os frameworks de Singapura e do NIST são voluntários e recentes, sem histórico de aplicação. Jeffrey Saviano, professor da MIT Sloan School of Management e autor de um livro sobre governança ética de IA previsto para outubro de 2026, estima que as práticas de ética e governança estão pelo menos dois anos atrás da adoção. A distância entre o que os sistemas já executam e o que as empresas conseguem supervisionar tende a se alargar antes de estreitar, à medida que agentes passam a coordenar outros agentes.

A rodada de casos reais que Singapura incorporou em maio de 2026 mostra o que os grandes bancos já testam, e a velocidade com que esses frameworks voluntários virarão exigência contratual em setores regulados dirá quanto tempo resta às demais empresas. Afinal, na era dos agentes, a governança se decide no intervalo entre autorizar e agir.

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