Almocei com um advogado essas semanas e perguntei o que ele achava das empresas de Tecnologia Jurídica que estão surgindo, as LawTechs, e que impacto isso teria no mercado dele. A resposta veio rápida. Nenhum impacto. As pessoas não vão entender os trâmites. Cliente que usa essas ferramentas só fica mais chato.
Ele não é um advogado qualquer. É sócio de um escritório grande, com décadas de casos difíceis nas costas. Alguém com muito a perder se estiver errado. E foi justamente esse alguém, o mais capacitado da mesa, quem primeiro deixou de ver a ameaça chegando.
Reconheço esse comportamento porque ele se repete.
Quanto mais especialista alguém é, mais confia no próprio julgamento e menos aceita que um processo diferente, ou uma máquina, resolva parte do que ele resolvia sozinho. O taco dele funcionou por 20 anos. Confiar nisso virou reflexo.
A pergunta mudou. Hoje importa menos se a Inteligência Artificial (IA) substitui alguém. Importa mais quem supervisiona o agente que já faz parte do trabalho, e se essa pessoa sabe, de fato, onde olhar.
Um paper recente testou exatamente isso, com pesquisa científica automatizada de ponta a ponta. Chama-se AutoResearchClaw. Um agente gera a hipótese, roda o experimento e escreve o artigo, e o time por trás construiu sete modos diferentes de intervenção humana no meio do caminho: do “faz tudo sozinho” ao “aprova cada etapa”.
O resultado incomoda quem acha que mais controle é sempre mais seguro.
O modo com intervenção apenas nos pontos certos teve 87,5% de aceitação dos resultados. Autonomia total, 25%. A supervisão em cada etapa, que exigiu muito mais esforço humano, ficou em 50%, pior que o modo pontual. Aprovar uma etapa que não precisava de aprovação, escrevem os autores, adiciona ruído, não informação.
Vale o adendo de sempre com paper de quem inventou o próprio produto. Os números favorecem o sistema que os autores construíram, e as intervenções testadas nesse experimento foram simuladas e roteirizadas, não por um pesquisador de verdade sentado na cadeira decidindo em tempo real. É uma hipótese de laboratório. Boa hipótese. Ainda assim, laboratório.
Penso então numa empresa que testou essa ideia no mundo real, com gente de verdade, por um ano inteiro. É a Trail of Bits, consultoria de segurança digital americana. O fundador, Dan Guido, contou a história num post publicado no primeiro trimestre de 2026.
Um ano atrás, 5% da empresa estava a favor da iniciativa de IA.
Os outros 95% iam do cético passivo ao resistente ativo. Guido não distribuiu ferramenta e torceu. Construiu um sistema. Uma régua de maturidade com níveis visíveis para tirar a conversa do campo da opinião. Um manual de risco que explica o porquê de cada regra, não só o que é proibido. Um ambiente seguro pra errar sem que o erro vire história de corredor. Um hackathon interno, um sprint curto de dois ou três dias, focado em uma única entrega, para forçar todo mundo a usar de verdade, não só instalar e esquecer.
Hoje, 20% dos problemas que a Trail of Bits reporta ao cliente são achados primeiro pela IA. Sempre validados por um humano depois. Os auditores foram de 15 achados por semana para 200 nos projetos onde o método se aplica melhor.
Guido escreveu uma frase que resume o ponto inteiro: “Consultoria cobra por hora, e hora sempre correlacionou com experiência. Mas quando uma pessoa passa a render em ordem de grandeza acima da outra, com o setup certo de agentes, essa correlação quebra. A pergunta deixa de ser quantas horas o auditor trabalhou. Vira se ele sabia onde apontar o agente, e quais achados eram reais.”
Volto ao almoço com o advogado.
O que travou o advogado tem nome: Identidade Profissional. Vinte anos de carreira construídos em cima de uma mesa tem forma específica de cobrar, de ser reconhecido e de valer mais que o júnior ao lado da sala. Defender aquilo, pra ele, valia mais que enxergar a ameaça chegando.
E é aqui que a liderança entra, porque essa conta não fecha sozinha. Ninguém troca de forma voluntária a régua que o fez sênior. Se aquele escritório quiser fazer o que a Trail of Bits fez, alguém vai ter que sentar com o sócio mais experiente, o camisa 10 do time, e admitir que a forma de medir e pagar por aquele trabalho vai mudar. É uma conversa difícil de ter. E se ninguém tiver essa conversa, cedo e de propósito, o mesmo talento que hoje é o maior ativo da empresa vira o maior obstáculo dela.
Trate isso como projeto de RH para rodar quando sobrar orçamento e você já perdeu tempo demais. É mitigação de risco de continuidade de negócio, do tipo que decide quem sobrevive à próxima década.
Todo escritório grande tem gente boa. A vantagem mora em outro lugar. Ter gente boa disposta a aceitar que o jogo mudou antes que o jogo mude sem ela.
Enquanto fornecedores disputam a agenda de quem assina, uma pessoa fora do radar pode estar fazendo os testes que vão definir a decisão.
Quanto mais experiente o profissional, mais forte o reflexo de defender a régua que o fez sênior. Todo escritório grande tem gente boa. A vantagem está em quem enxerga a mudança antes de ser atropelado por ela.
Dependência tecnológica virou risco geopolítico — e planos de contingência podem apenas mudar esse risco de endereço.
Um teste de mesa com erros plantados de propósito revelou o defeito mais perigoso dos agentes: eles preferem concordar a checar.
Na era dos agentes autônomos, a vantagem competitiva migra da automação para a qualidade das decisões humanas.
Enquanto a tecnologia avança rapidamente, o verdadeiro gargalo continua sendo a disposição das lideranças para mudar a forma de decidir, experimentar e assumir riscos.
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