O AI Futures Project, grupo cujo cenário AI 2027 terminava em extinção ou concentração irreversível de poder, publicou em 9 de julho de 2026 sua visão do desfecho oposto: um roteiro em que EUA e China adiam a superinteligência para 2040 e usam a década ganha para transformar o alinhamento de IA em ciência. Antes de entrar nos números, vale distinguir o que no relatório é dado empírico, o que é recomendação dos autores e o que é resultado de uma simulação.
Comecemos pelo terreno documentado. O AI Futures Project publicou em 9 de julho de 2026 o “AI 2040: Plan A”. Assinam Daniel Kokotajlo, Thomas Larsen, Eli Lifland, Romeo Dean, Brendan Halstead e Ryan Greenblatt. Kokotajlo deixou a OpenAI em abril de 2024 citando preocupações com a direção da empresa e fundou o grupo em 2025, mantido por doações e fora da órbita dos grandes laboratórios, embora seus integrantes tenham passado por eles e por organizações de pesquisa em segurança de IA: o próprio Kokotajlo pela OpenAI, Ryan Greenblatt pela Redwood Research, onde é cientista-chefe.
A credencial do grupo vem do trabalho anterior: o AI 2027, publicado em 2025, antecipou a ascensão dos agentes de programação, e os autores afirmam que a realidade tem seguido trajetória ainda mais próxima daquele cenário do que eles próprios esperavam.
Também é fato a natureza do novo documento, que os autores fazem questão de demarcar: o Plano A é, antes de tudo, uma recomendação. O cenário narrativo que o acompanha, ano a ano de 2027 a 2040, funciona como veículo para testar as propostas sob estresse, método que o grupo chama de escrutínio de cenário e que considera raro demais na política de IA. A implementação do plano é o que defendem que deveria acontecer; os efeitos descritos depois dela são previsões condicionais, válidas apenas no mundo hipotético em que o plano é adotado. O restante do documento alterna continuamente entre essas três camadas (fato, proposta, simulação), e este texto procura indicar em qual delas cada afirmação se apoia.
O ponto de partida é a previsão mais desconfortável do grupo: sem intervenção, os laboratórios automatizariam a própria pesquisa em 2030, desencadeando uma explosão de inteligência e chegando à superinteligência no mesmo ano. Nesse trajeto, os autores estimam entre 10% e 30% a probabilidade de extinção humana literal, e consideram provável que, mesmo com IAs alinhadas, o resultado seja um grupo minúsculo de pessoas controlando o único exército de superinteligências do mundo. É previsão, com incerteza declarada pelos próprios autores, e é dela que deriva todo o resto.
No campo das recomendações, o documento contrasta a rota preferida (Plano A) com quatro alternativas a partir de 2029:
• Plano B: Combater a China: os EUA tratam a IA avançada principalmente como uma corrida geopolítica e tentam manter sua liderança.
• Plano C: Queimar a vantagem: Os Estados Unidos usam sua vantagem agressivamente antes que os concorrentes os alcancem.
• Plano D: Corrida rumo à Superinteligência Artificial: empresas e governos continuam a todo vapor na construção de tecnologias que visam a superinteligência artificial.
• Plano S: Parar Tudo: governos tentam interromper completamente o desenvolvimento de IA avançada.
O Plano A aposta em desaceleração verificada, construída para funcionar mesmo com confiança zero entre as partes. Em 2029, EUA e China suspendem temporariamente novos treinamentos de fronteira, exigem que donos de datacenters e fornecedores declarem publicamente compras e vendas de chips e enviam inspetores às infraestruturas um do outro. A alavanca é física: chips de IA saem de um punhado de fábricas, concentradas em Taiwan, Coreia do Sul, EUA e China, e datacenters de fronteira são visíveis do espaço. Ao fim do ano, no cenário, cada lado tem confiança de que o rival esconde no máximo 1% da capacidade computacional mundial.
O regime se completa com transparência total de pesquisa (todo o P&D de IA aberto ao escrutínio público, com inferência privada), difusão deliberada da fronteira para dezenas de empresas em vários países e um mecanismo de reversibilidade apelidado de destruição mutuamente assegurada de compute: os novos datacenters chineses seriam construídos no Canadá, os americanos na Mongólia, vulneráveis à intervenção do rival se o acordo ruir.
O cronograma técnico é onde recomendação e simulação se entrelaçam. Entre 2030 e 2035, o desenvolvimento escala dentro da faixa de capacidade humana. Em 2035, o mundo pausa no nível de especialista humano de topo, e a justificativa é o limite do que os autores chamam de casos de segurança baseados em controle: IAs confinadas em datacenters monitorados, vigiadas por IAs de linhagens rivais treinadas para denunciá-las, com red teams tentando subverter o sistema continuamente. O documento é explícito em que esse arranjo funciona até aproximadamente o nível de especialista humano; além dele, seria preciso confiar nos sistemas, e não apenas contê-los.
A década comprada serve para fechar essa lacuna. Na simulação, incidentes reais de IAs tentando burlar protocolos de segurança, revelados pela transparência obrigatória, invertem o ônus da prova: passa a caber às empresas demonstrar que seus sistemas são seguros. Bilhões de agentes no nível de gênio humano trabalham no problema, e o alinhamento migra de alquimia para ciência, com teoria testável, interpretabilidade que permite detectar mentira nos modelos e protocolos padronizados para treinar honestidade. Só em 2040, com essa ciência madura, a escalada à superinteligência é retomada. Convém sublinhar o estatuto epistemológico desse arco: é o resultado que o modelo do grupo produz sob as premissas do plano, com os próprios autores reconhecendo que ninguém sabe, em 2026, se alinhamento é solucionável nesse prazo.
O cenário dedica ainda um volume incomum de páginas à economia da transição, com licenças de compute e robôs substituindo o imposto sobre o trabalho como base fiscal e um dividendo do cidadão absorvendo o desemprego projetado. São resultados do modelo econômico do grupo, que declaram confiança no quadro geral e incerteza nos valores, e renderiam análise própria.

A recepção pública, de volta ao terreno dos fatos, expõe a fratura do debate. Em entrevista à Axios, Kokotajlo defendeu a lógica do adiamento: “adiar a superinteligência dá à sociedade mais tempo para se preparar”. Na ponta oposta, o jornalista Timothy B. Lee resumiu o ceticismo de quem rejeita a premissa da superinteligência iminente: “parece tudo tão implausível que nem sei por onde começar“. Scott Alexander, que contribuiu com trechos do documento (proximidade que vale registrar ao citá-lo), sugere lê-lo como fundamento: qualquer proposta de política de IA passa a ser medida contra o desfecho do Plan A.
Mesmo que o leitor considere improvável o cronograma proposto, o exercício permanece relevante porque explicita as escolhas que qualquer governo terá de fazer se as capacidades continuarem avançando: verificar ou confiar, concentrar ou difundir, controlar ou alinhar. Essa leitura vai além do que o documento afirma explicitamente, mas decorre das perguntas que ele coloca em debate.
Para além do relatório, alguns sinais merecem acompanhamento. A tecnologia de verificação de datacenters descrita no plano está a um ou dois anos de existir, e organizações que a desenvolvem já começam a atrair financiamento. A reação dos laboratórios de fronteira à exigência de transparência total de pesquisa dirá quanto do plano sobrevive ao contato com quem ele pretende regular. E o documento produz previsões passíveis de teste: uma delas é que a eleição presidencial americana de 2028 marca a entrada definitiva da IA no centro da agenda política, e o ciclo eleitoral real dirá se acertaram.
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