Fui a uma palestra sobre Geração Z e fintechs no segundo trimestre de 2026. Eram quatro líderes de empresas financeiras digitais, entusiastas, articulados, com produtos reais e usuários reais.
Saí com incredulidade. Não porque eram incompetentes. Mas porque eram inteligentes, bem-intencionados e aparentemente não estavam vendo o efeito colateral do que estavam construindo.
Os palestrantes foram unânimes em um diagnóstico: o jovem não quer parar para lidar com dinheiro. Ele quer que o sistema entenda o que ele precisa e resolva. A comparação que um deles fez foi direta: o app bancário precisa ser tão fluido quanto o TikTok. Sem atrito. Sem esforço. Sem ter que pensar muito.
A solução proposta, igualmente unânime: remover o atrito. Interfaces conversacionais. Agentes que conhecem seu perfil. Decisões tomadas por Inteligência Artificial (IA) com base no seu histórico. O banco que desaparece na experiência – presente mas invisível.
Nenhum deles dizia isso com má intenção. Acredito que cada um acredita genuinamente que está construindo algo melhor para o consumidor.
Mas um livro de cem anos me veio à cabeça: “O Homem Mais Rico da Babilônia”, escrito em 1926. O argumento central não mudou em um século: dinheiro exige atenção deliberada. Quem não aprende a guardar uma parte do que ganha, a entender para onde o dinheiro vai, a tomar decisões conscientes sobre ele, vai trabalhar para o dinheiro, não o contrário. O quanto se ganha pouco importa. O que importa é o que se faz com ele.
O problema não é que os jovens não querem lidar com dinheiro. O problema é que lidar com dinheiro de verdade exige o que Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia, chamou de Sistema 2 em seu livro Rápido e Devagar: o pensamento lento, deliberado e analítico. O que entra em cena quando há atrito suficiente para interromper o modo automático.
Sem esse atrito, o cérebro opera no piloto automático. Rápido, eficiente e superficial. Ótimo para sobreviver, mas péssimo para construir patrimônio.
Quando o sistema remove todo o atrito, ele não está facilitando a vida financeira do jovem. Está removendo o andaime que tornaria possível aprender a gerenciá-la.
Esse padrão já aconteceu antes. Não com dinheiro. Com atenção.
As plataformas de redes sociais foram construídas com a convicção sincera de que estavam conectando pessoas, democratizando informação e dando voz a quem não tinha. As métricas que guiavam as decisões de produto eram engajamento, tempo de sessão e retenção. Cada feature otimizava essas métricas. Cada algoritmo aprendia a maximizá-las.
O resultado não foi intencional. Foi sistêmico. A lógica do negócio, não a maldade dos fundadores, puxou tudo em uma direção. E só anos depois vieram as pesquisas documentando o impacto no desenvolvimento cognitivo, na saúde mental, na capacidade de atenção sustentada. Especialmente em jovens.
Em janeiro de 2026, o neurocientista Jared Cooney Horvath testemunhou perante o Senado americano que a Geração Z é a primeira geração a apresentar declínio cognitivo em relação à geração anterior. Memória, atenção, raciocínio e função executiva. A correlação com o tempo de exposição a telas era direta. A frase que ele usou foi esta: “Nossos filhos são menos capazes cognitivamente do que éramos na idade deles”.
Os palestrantes que ouvi não falavam em engajamento e retenção abertamente. Mas o argumento central era esse: fazer exatamente o que o usuário quer, da forma mais fluida possível, comparável à experiência do TikTok. Essa é a lógica de produto que guia as decisões.
Não estou dizendo que as fintechs vão deliberadamente viciar seus usuários. Estou dizendo que um sistema otimizado para remover todo o atrito tem uma gravidade própria. E essa gravidade puxa para o mesmo lugar, independentemente da intenção de quem o construiu.
O mercado de atenção já percorreu esse caminho. O mercado financeiro está começando.
Daqui a dez anos, uma parte significativa das decisões financeiras de uma geração inteira será mediada por agentes que conhecem o histórico do usuário melhor do que ele mesmo. Que sabem quando ele está vulnerável a um impulso de consumo. Que sabem quando oferecer crédito. Que sabem, com precisão estatística, o que o mantém dentro do aplicativo.
A pergunta que fica não é sobre tecnologia.
É sobre o que resta da capacidade de julgamento financeiro de alguém que nunca precisou exercê-la.
Um sistema que pensa por você pode ser uma ferramenta poderosa. Ou pode ser o motivo pelo qual você nunca precisou aprender a pensar.
A diferença entre os dois não está no produto. Está na intenção de quem o constrói — e na clareza sobre o que está sendo otimizado.
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