A maioria das organizações que adota IA está contratando mais profissionais de nível inicial, não menos. Essa é a conclusão central de uma pesquisa do Strada Institute for the Future of Work conduzida entre março e abril de 2026 com 1.498 executivos e líderes sênior de gestão de talentos nos EUA: 46% dos empregadores reportam que a IA aumentou contratações de entrada em 2025, contra 13% que reportam redução. Para 2026, a relação continua positiva: 46% contra 17%.


O dado contraria a narrativa de substituição em massa. Mas esconde um risco que o volume não revela: as tarefas que a IA está automatizando são exatamente aquelas pelas quais profissionais juniores aprendiam a pensar. “A IA está mudando a experiência de primeiro emprego de uma geração inteira de trabalhadores de colarinho branco”, declarou Peter Cappelli, professor de gestão e diretor do Center for Human Resources da Wharton School da Universidade da Pensilvânia.
Pesquisa, documentação, limpeza de dados, codificação básica, análise preliminar, produção de rascunhos: essas funções historicamente concentradas nos primeiros anos de carreira não eram incidentais ao desenvolvimento. Eram o mecanismo. Através da repetição supervisionada nessas tarefas, profissionais aprendiam a detectar anomalias, testar hipóteses, aplicar contexto e reconhecer quando escalar um problema.
O próprio Strada registra o movimento em três tempos. Em 2026, 42% dos empregadores reportam que a IA aumentou as responsabilidades analíticas atribuídas a profissionais de entrada. Em paralelo, 41% confirmam que tarefas rotineiras e administrativas foram reduzidas. Até aqui, o quadro parece de qualificação do trabalho. O terceiro número desfaz a leitura simples: 33% afirmam que a IA reduziu tarefas consideradas fundacionais para o desenvolvimento de competências, as tarefas pelas quais se aprendia, não apenas as que se executava.
A McKinsey, em artigo publicado em maio de 2026, nomeia a assimetria estrutural subjacente: a IA consegue automatizar uma parcela substancialmente maior do trabalho júnior do que do trabalho gerencial. O mesmo conjunto de ferramentas que torna um analista de primeiro ano aparentemente mais produtivo remove as condições que o preparariam para se tornar gestor. “Os funcionários aprendiam por repetição. Agora as empresas precisam projetar o desenvolvimento intencionalmente”, declarou ao McKinsey um diretor de RH de empresa Fortune 500.
O Strada oferece uma distinção que evita uma leitura excessivamente pessimista e é provavelmente o dado mais relevante para líderes que estão decidindo como adotar IA agora.
Empresas com integração estratégica de IA, definidas no levantamento como aquelas com plano abrangente de uso em todas as equipes (22% do total pesquisado), são justamente as que mais aumentam contratações de entrada e as que mais atribuem tarefas analíticas e de julgamento a profissionais juniores. Empresas que reduziram contratações de entrada devido à IA, por contraste, tendem a ter adoção parcial e a usar a tecnologia principalmente para automatizar tarefas rotineiras.
Casos concretos ilustram o padrão. A MetLife aumentou a contratação de estagiários e recém-formados em quase 30% em 2025 e projeta novo crescimento em 2026. Bill Pappas, chefe global de tecnologia e operações da empresa, descreveu cargos de entrada como os “principais mecanismos” para o desenvolvimento de liderança. A IBM está triplicando suas contratações de entrada em 2026, com o argumento explícito de que não investir nessa camada agora significa pipeline vazio em três a cinco anos. A Nominal, startup de software para engenharia industrial avaliada em US$ 1 bilhão após levantar US$ 80 milhões, dobrou sua turma de recém-formados de 5 para 10 em 2026. “O retorno sobre o investimento é absurdamente alto”, afirmou Bryce Strauss, cofundador da empresa, ao The Wall Street Journal.
O padrão sugere que o problema pode não ser a IA em si, mas o modo como é implementada. Empresas que usam IA para ampliar o escopo do trabalho júnior parecem contratar mais. Empresas que usam IA para remover tarefas parecem contratar menos. Essa distinção, porém, não elimina uma evidência observada no próprio levantamento: 33% dos empregadores afirmam que a IA reduziu tarefas fundacionais para o desenvolvimento de competências. O que permanece sem dado verificável até maio de 2026 é se o aumento de responsabilidades analíticas está sendo acompanhado de estruturas deliberadas de desenvolvimento, ou se está apenas deslocando a demanda sem substituir o mecanismo de formação.
A dissonância com indicadores externos reforça a cautela. Pesquisa da McKinsey de 2025 registrou que 51% das organizações já declaravam que a IA Generativa estava reduzindo sua necessidade por cargos de nível inicial. Em março de 2026, o desemprego entre recém-formados atingiu 5,6%, 2 pontos percentuais acima do registrado em 2019, enquanto a taxa geral de desemprego subiu apenas uma fração desse valor no mesmo período, segundo dados citados pelo The Wall Street Journal.
Pesquisa da Stanford University com registros de folha de pagamento da ADP, publicada em novembro de 2025, identificou queda relativa de 13% no emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações mais expostas à IA Generativa, com deterioração mais aguda a partir de novembro de 2022. O Strada mede intenção declarada de contratação; esses indicadores medem o que aconteceu. Os dois conjuntos de dados são compatíveis e juntos descrevem um mercado em transição seletiva, não em colapso uniforme.
A IA não está apenas reduzindo ou ampliando o volume de contratações de entrada: está redistribuindo quais funções existem. Entre os empregadores que expandiram contratações de entrada em 2025 devido à IA, 57% apontam crescimento em cargos de tecnologia: ciência de dados, IA e machine learning, desenvolvimento de software, cibersegurança. Entre os que cortaram, as maiores reduções concentram-se em funções administrativas e entrada de dados (46%), suporte ao cliente (41%) e análise de dados (44%).
O detalhe relevante é a sobreposição: análise de dados e desenvolvimento de software aparecem simultaneamente nas listas de funções que crescem em algumas empresas e que são cortadas em outras. O conteúdo da vaga está sendo redefinido, não apenas o volume. Em empresas com adoção estratégica, essas funções evoluem para maior complexidade. Em empresas com adoção parcial focada em automação, as versões mais rotineiras dessas mesmas funções desaparecem.
Bruce Buchanan, cofundador e CEO da Rokt, empresa de tecnologia de comércio eletrônico que contratou 160 profissionais de entrada em 2025 e projeta volume similar em 2026, descreve o novo modelo com precisão: funcionários juniores trabalharão em estreita colaboração com agentes de IA, dedicando mais tempo à resolução de problemas enquanto a tecnologia absorve o trabalho operacional.
O dado sobre graduados em STEM com foco em matemática ilustra a tensão de outro ângulo: 44% dos empregadores os classificam como excelentes em pensamento crítico, a maior avaliação entre todos os perfis de formação. Ao mesmo tempo, 29% dos recrutadores os apontam como o perfil mais difícil de atrair, tanto para cargos generalistas quanto especialistas. O mercado valoriza mais o que encontra com mais dificuldade.
Pesquisa da IDC, patrocinada pela Microsoft, mapeia o gap nas próprias organizações: 58% das empresas investem em ferramentas de aprendizagem com IA, mas apenas 44% oferecem treinamento em competências humanas essenciais: liderança, colaboração e tomada de decisão sob ambiguidade.
O dado converge com um dos achados mais contraintuitivos do Strada: entre os oito critérios avaliados pelos empregadores na contratação de recém-formados, letramento em IA ocupa o último lugar em importância. É também a única habilidade na qual os empregadores avaliam o desempenho dos jovens como superior à sua própria necessidade: desempenho médio de 3,6 contra importância declarada de 3,5, numa escala de 5. Pensamento crítico e comunicação lideram de longe. As empresas estão investindo em ferramentas de IA e contratando prioritariamente por capacidades que a IA não desenvolve, e que o próprio processo de automação está, em parte, colocando sob pressão.
Quando avalia perfis de candidatos, o Strada registra que empregadores valorizam acima de tudo experiência prática: estágio na mesma indústria, trabalho direto em função similar, projetos aplicados ao setor. O perfil menos desejado, em último lugar entre sete opções, é o do candidato com GPA 4.0 e premiações acadêmicas, sem histórico profissional. O dado quantitativo reforça a hierarquia: 39% dos empregadores classificam experiência de trabalho prévia como “criticamente importante”, a maior pontuação entre todos os fatores avaliados, superando o próprio diploma de bacharelado, citado por 25%.
Um aspecto que o ciclo de hype da IA tende a obscurecer: a hierarquia das habilidades que os empregadores realmente buscam não mudou de forma significativa. Pensar, comunicar, colaborar e trabalhar bem continuam sendo os critérios centrais de seleção, independentemente das ferramentas disponíveis. O que mudou é o contexto em que essas habilidades precisam ser construídas, e os mecanismos tradicionais que as construíam estão sob pressão.
Jeff LeBlanc, professor de gestão da Bentley University, formula o risco com precisão: “Se cada e-mail, cada ideia, cada decisão passa pelo filtro da IA, as pessoas correm o risco de nunca desenvolver plenamente seus próprios instintos. O crescimento no início da carreira pressupõe incerteza, erros e descobertas. É nesse desconforto que a confiança se constrói.” Andrew McAfee, pesquisador do MIT Initiative on the Digital Economy, enquadra o problema do ponto de vista organizacional: “Como as pessoas vão aprender a fazer o trabalho senão pelo aprendizado e treinamento no próprio trabalho? É assim que se aprende a fazer trabalho de conhecimento complexo: ajudando alguém experiente com as tarefas rotineiras. Quando colocamos automação demais nisso, rápido demais, perdemos essa escada de aprendizado”, disse ao Harvard Business Review em abril de 2026.
As empresas continuam contratando principalmente por experiência prática, no exato momento em que as tarefas pelas quais essa experiência se construía estão sendo reduzidas. Como alguém ganha experiência se as condições que a geravam estão desaparecendo? A primeira geração de profissionais formada integralmente na era da IA começará a responder essa pergunta nos próximos anos. Até lá, o mercado está conduzindo um experimento em larga escala: tentar formar profissionais experientes sem parte das experiências que tradicionalmente os formavam.
Empresas com IA integrada estão contratando mais profissionais juniores, enquanto as tarefas que formavam esses profissionais estão desaparecendo ao mesmo tempo.
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