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Gavin Day, COO da SAS, fala sobre o "verão de decepções" com IA no enterprise, o lançamento do AI Navigator e os planos de crescimento em mercados que pulam etapas de transformação digital (Crédito: Divulgação)
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O que a IA, educação e talentos representam para a SAS, segundo o COO Gavin Day

A empresa, que investe em educação de colaboradores e clientes sobre IA, se apoia em uma cultura construída ao longo de cinco décadas para se tornar diferencial num mercado em consolidação.

Por Soraia Yoshida 08/05/2026

A presença do COO da SAS Gavin Day em várias visitas a São Paulo, Cidade do México e Medellín ao longo de 2026 não é casual. A chamada região das Américas (que engloba do Canadá à ponta do Brasil) representa cerca de 50% da receita global da SAS, e a América Latina, sozinha, já responde por mais de 20%. Detalhe: está crescendo. Para a SAS, os setores mais relevantes na região são Serviços Financeiros, Setor Público, Saúde e Life Sciences, e Telecomunicações. 

“A América Latina é uma região de importância crítica para a SAS”, disse Gavin Day, em entrevista à The Shift durante a SAS Innovate 2026. Segundo ele, a empresa continua investindo na região, amadurecendo sua rede de parceiros, até por uma questão de escala. “Temos metas significativas, tanto de receita quanto de aquisição de clientes em toda a América Latina. É um mercado crítico para nós.”

Na visão do executivo, alguns países da América Latina, incluindo aí o Brasil, apresentam peculiaridades, como o padrão de adoção tecnológica. “São mercados que estão pulando algumas etapas. Enquanto os EUA passam por cada fase de adoção tecnológica, há mercados que vão direto do ponto em que estão da transformação digital para a adoção de IA Agêntica”, explicou ele. Esse pulo é interessante porque faz com que as empresas não “percam tempo com sistemas legados on-premise”. Para a SAS, esse movimento representa uma vantagem competitiva real.

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O problema do ROI e onde a SAS se diferencia

Como acontece em todos os setores, é impossível não falar de Inteligência Artificial. Mesmo com a corrida para adoção e implementação, o cenário é desafiador. Em 2025, o próprio Day descreveu o momento da IA no enterprise como um “verão de decepções”: as organizações fizeram investimentos consideráveis e não estão vendo o retorno de investimento (ROI) esperado. Em relatórios de consultorias como a Deloitte e a McKinsey, estima-se que o ROI em IA Generativa pode levar de cinco a dez anos, conforme o contexto.

Questionado sobre como enxerga as coisas a partir de agora, Day foca em dois eixos. O primeiro é a mudança de postura dos fornecedores: “Os dias de uma implementação que vai durar 24 meses acabaram. Quem não adaptar seu modelo de negócio para tempo de valor vai sair do mercado.” O segundo é a orientação aos clientes: “Quando converso com eles, o padrão é querer usar uma nova tecnologia para resolver o maior, o mais difícil, o mais antigo problema da empresa. E esse não é um bom uso de tecnologia nova”, disse. A recomendação é começar por problemas específicos, com escopo definido e patrocínio executivo claro.

É aqui que ele situa a diferença competitiva da SAS num mercado que ele avalia em cerca de US$ 500 bilhões. “Resolver um problema em laboratório é relativamente fácil. Colocar isso em produção, em ambientes complexos e regulados, de forma governada, monitorada e repetível, é aí que a SAS se diferencia.” A empresa investe entre 20% e 30% da receita em P&D anualmente, uma proporção que o vice-presidente executivo e CTO Bryan Harris indicou que será mantida.

A SAS coloca muito de sua energia olhando para tendências tecnológicas e tecnologias disponíveis no mercado. Gavin Day diz que não perde muito tempo preocupado com o que os concorrentes estão fazendo. “Há espaço suficiente para todo mundo. Não preciso que meus concorrentes percam para que a SAS ganhe.” Ele brincou que não se incomoda quando a concorrência perde, mas reforçou que o foco da SAS está em crescer. “Um dos fundamentos que o Dr. Goodnight trouxe para a empresa é resolver problemas difíceis para nossos clientes. É isso que precisamos fazer e no que precisamos ser excelentes. Se fizermos isso e proporcionarmos uma ótima experiência ao cliente, o restante se resolve sozinho.”

Day acrescentou que a SAS coloca energia também em “pensar em talentos”. “Quem estamos contratando, quem estamos formando, de onde estamos contratando. A forma como penso em talentos no mundo da IA é que estamos chegando a um ponto em que não é IA ou pessoas: é a diferença entre os colaboradores que usam IA e os que não usam. E, como empregador que se importa profundamente com educação, é aí que precisamos investir tempo. Precisamos educar nossos clientes e nossos colaboradores sobre o uso responsável da IA e da tecnologia.”

Para o executivo, o cenário de analytics, dados e IA será muito diferente no próximo ano, pois há muitos processos em consolidação e, ao mesmo tempo, muita pressão sobre alguns dos concorrentes. “Nós vemos isso com clareza: somos rentáveis há 50 anos, não temos dívidas, não temos investidores para pagar. É uma posição invejável.”

O anúncio mais importante do evento

Em uma semana marcada por lançamentos e demonstrações, Gavin Day não hesitou ao responder qual considera o anúncio mais relevante da SAS Innovate 2026: o AI Navigator. Trata-se de uma aplicação SaaS leve, desenhada para funcionar de forma independente, sem exigir toda a plataforma Viya ou o stack completo da SAS. “A explicabilidade das nossas tecnologias sempre foi importante para executivos, para membros de conselho, para reguladores. O AI Navigator é o próximo nível disso”, explicou.

O produto chega ao mercado num momento em que a pressão regulatória sobre o uso de IA está crescendo rapidamente, puxada principalmente pelo bloco europeu com o EU AI Act e com reflexos que alcançam empresas globais. Por fora, o AI Navigator é simples e acessível. Por dentro, é alimentado continuamente com regulações de todo o mundo e com diferentes versões de LLMs. “O que mais gostamos é que é um lugar onde nossos clientes podem entender sua adoção. E o ambiente regulatório está mudando tão rapidamente que precisamos acompanhar isso em tempo real”, disse o COO da SAS.

O próprio processo de construção do AI Navigator foi um experimento interno: a equipe de engenharia liderada pelo CTO Bryan Harris utilizou intensamente IA Agêntica no desenvolvimento, encurtando o ciclo de criação do produto. “Foi também uma grande experiência de aprendizado sobre como continuar equipando nossa organização de engenharia com ferramentas modernas, o mesmo que nossos clientes estão fazendo.”

Operação como empresa pública, sem abrir o capital (por enquanto)

Uma das transformações mais silenciosas dentro da SAS no último ano foi justamente a modernização operacional. Novos sistemas financeiros, adequação ao padrão GAAP e às auditorias PCAOB, revisão dos sistemas de CPQ – mudanças que não são visíveis no produto, mas que reposicionam a empresa internamente. “Não havia nada de errado na forma como estávamos operando. Era adequado para uma empresa privada do nosso tamanho. Mas precisávamos de padronização, repetibilidade e rigor”, explicou Gavin Day.

O objetivo declarado é garantir que Jim Goodnight, cofundador da SAS ao lado de John Sall a partir de um projeto na North Carolina State University em 1976, tenha o maior número possível de opções sobre o futuro da empresa, seja um IPO quando as condições de mercado melhorarem (as ações de SaaS recuaram em 2026 com as preocupações sobre o impacto da IA nas receitas), seja outra rota. Por ora, a vantagem da SAS é estrutural: empresa sem dívida, sem investidores a satisfazer. “Temos a paciência de esperar”, disse Day ao ser nomeado. Essa frase continua valendo.

Quando a conversa chegou ao horizonte de cinco anos e o que Gavin Day gostaria de ver realizado, ele foi direto. “Gostaria de ver a SAS tenha em sua jornada para reduzir a barreira de entrada para a tomada de decisões críticas. E que esteja disponível para todos, sejam estudantes, empresas, indivíduos.” A visão para 2030 é de uma plataforma em que diferentes perfis – programadores SAS, desenvolvedores open source, analistas de negócio, cientistas de dados – colaboram dentro do mesmo ambiente tecnológico, sem que seja necessário ser especialista para tomar boas decisões.

Há uma dimensão pessoal que permeia essa visão. Day tem filhos, assim como o CEO Jim Goodnight, que há décadas investe em educação matemática e científica desde as séries iniciais. “Temos a obrigação de empoderar jovens para entender como tomar decisões críticas e como usar a tecnologia para ajudá-los e também como saber quando não usá-la.” Para uma empresa que nasceu de um projeto acadêmico e nunca abriu mão de reinvestir em pesquisa, esse compromisso faz parte da mesma lógica que a manteve privada, rentável e relevante por meio século.

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