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ENTRE DADOS E RESULTADOS

Tokenmaxxing: quando a ferramenta vira métrica e a métrica vira problema

Quando tokens viraram moeda de status nas big techs, o debate sobre o que a IA realmente entrega volta à mesa.

Vi circular nas redes um fenômeno que diz mais… Ele está acontecendo no Vale do Silício. O nome é estranho, mas o comportamento é familiar: Tokenmaxxing.

Engenheiros de empresas como OpenAI, Meta e Anthropic passaram a competir para ver quem consome mais tokens por semana. Existe leaderboard, existe ranking e existe impacto direto em promoção, bônus e até oferta de emprego.

No segundo trimestre de 2026, um engenheiro da OpenAI registrou 210 bilhões de tokens em uma única semana. Um número que, sozinho, seria suficiente para preencher a Wikipedia 33 vezes.

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Esse número virou símbolo de status. E quando um número vira símbolo de status dentro de uma organização, ele deixa de ser métrica. Vira comportamento.

Gastos corporativos com tokens

O gasto corporativo com tokens cresceu 13 vezes desde janeiro de 2025.  Não é crescimento orgânico, de uso. É corrida armamentista. E como toda corrida armamentista, não importa quem começou. Importa que ninguém queira ser o último.

Existe um detalhe que torna isso ainda mais desconfortável. Alguns desses engenheiros já são milionários. Vários relatam não ter tido tempo de gastar o que ganharam. Vale reler isso com calma.

Onde está o tempo livre?

A tecnologia que prometia liberar tempo humano está sendo usada para intensificar ainda mais o uso desse tempo. A promessa da Inteligência Artificial sempre foi simples: automatizar o repetitivo para liberar as pessoas para o que só pessoas conseguem fazer.

Mas o que está acontecendo na prática é outra coisa. A ferramenta que deveria dar folga virou régua. E quem está abaixo da régua começa a parecer ineficiente.

E é aqui que entra a pergunta que realmente importa: se conseguimos desacoplar produção intelectual de horas de trabalho, por que escolhemos produzir mais em vez de viver melhor?

Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta estrutural.

Vamos às possibilidades. Duas hipóteses possíveis.

A primeira é a mais óbvia: ganância. A lógica clássica da corrida do ouro. Todo mundo sabe que existe uma janela. Todo mundo sabe que ela vai fechar. E ninguém quer ficar de fora. No Vale do Silício de hoje, a prova de pertencimento mudou. Não é mais quem você conhece. É quantos tokens você consome.

Já a segunda é mais difícil de aceitar: talvez a gente simplesmente não saiba mais parar. Profissionais de tecnologia já operam há anos no limite. Sacrificam vida social, tempo com família e saúde. Agora, com IA, ganharam uma ferramenta que amplifica essa capacidade de produção em uma escala que não existia antes. E quando você amplifica algo sem questionar o sistema, você não resolve o problema. Você só o acelera.

Existe uma imagem que não sai da cabeça. O “dolce far niente” da Calábria nunca esteve tão distante. E nunca foi tão necessário.

Mais uma vez, a história se repete

Para quem já viveu outros ciclos de tecnologia, essa história não é nova. Ela só mudou de forma.

Entre 2012 e 2013, quando comecei a dar mentorias para startups, havia uma obsessão coletiva por métricas de vaidade: seguidores, curtidas, engajamento e alcance. Enquanto isso, o caixa estava sangrando.

Foi nessa época que a frase virou “Like does not pay the bills” (“Curtida não paga contas” – em tradução livre). Virou meme e quase um mantra. Era preciso repetir toda semana, porque o erro era sempre o mesmo: confundir atividade com resultado.

Tokenmaxxing é exatamente isso: o mesmo erro, com uma interface nova.

A solução

Consumo de token não tem relação comprovada de causa e efeito com resultado de negócio. É um número que cresce, impressiona no ranking, mas não diz o que foi entregue.

Andrew Grove já tinha resolvido esse problema em 1983. Em “High Output Management, ele resume de forma simples o que ainda hoje é ignorado: meça output, não atividade. Leve em conta o que você produziu, não quanto você se movimentou para produzir.

A ferramenta mudou, mas a armadilha continua a mesma.

O que realmente importa

Talvez esse seja o ponto mais importante de todos. A tecnologia não cria esse tipo de distorção. Ela só torna mais visível — e mais rápida — uma tendência que já existia.

Se a empresa mede errado, escala errado. Se o sistema recompensa atividade, vai produzir atividade. Mesmo que isso não leve a lugar nenhum.

Tokenmaxxing é o que acontece quando você transforma meio em fim. E esse tipo de erro nunca termina bem.

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