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Com menos euforia e mais disciplina financeira, investidores buscam oportunidades em IA aplicada, fintechs e deeptech, enquanto a escassez de exits continua sendo o principal desafio do ecossistema (Crédito: Freepik)
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

IA Aplicada, fintechs e deeptech: o que deve guiar o próximo ciclo de VC na América Latina

Apesar da escassez de exits e da instabilidade política, quase metade dos investidores planeja ampliar aportes. O foco agora está na digitalização de setores tradicionais da economia

O mercado de venture capital na América Latina vive um momento marcado por otimismo moderado, maior disciplina financeira e novas prioridades tecnológicas. Ao mesmo tempo em que investidores reconhecem desafios estruturais, principalmente a escassez de saídas e a instabilidade política, a maior parte planeja ampliar o ritmo de investimento nos próximos meses, segundo levantamento da Cuantico e Startuplinks.

Os dados do relatório “Latin America Venture Capital Report 2026” mostram que existe um enorme potencial de digitalização de setores tradicionais da economia latino-americana. Agricultura, Mineração, Construção, Logística e Varejo, entre outros setores, ainda apresentam baixa penetração tecnológica. Isso cria oportunidades para startups que aplicam tecnologia para melhorar produtividade, eficiência e transparência nesses segmentos. Em outras palavras, ainda existe um oceano azul a ser explorado.

Segundo o LatAm VC Confidence Index, um barômetro criado pelo estudo para medir o sentimento do mercado:

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  • 58% dos investidores atribuem níveis elevados de confiança (notas 4 ou 5) ao ecossistema de venture capital na região para os próximos 6 a 18 meses.
  • 47,2% dos investidores pretendem aumentar seus investimentos nos próximos 12 a 18 meses
  • 7,2% planejam aumentar significativamente o ritmo de aportes

Isso indica que, embora o ambiente esteja longe da euforia, muitos fundos ainda possuem capital disponível, o chamado “dry powder”, e procuram oportunidades em um ambiente de valuations mais razoáveis. A leitura geral é de um mercado em transição, ainda sem sinais claros de retomada acelerada.

Quando questionados sobre o ambiente de captação de fundos na região, em comparação com 12 meses atrás

  • 49,2% dos investidores classificaram o cenário como neutro
  • 25,4% consideram favorável
  • 22,2% o veem como desfavorável

O capital está mais seletivo e as rodadas demoram mais

Um efeito visível do novo cenário é o aumento do tempo necessário para fechar rodadas de investimento. A pesquisa, que ouviu 126 investidores e 49 fundadores do ecossistema de venture capital latino-americano, aponta a ideia de um mercado mais disciplinado, no qual métricas de eficiência e sustentabilidade ganharam importância.

Entre os fundadores entrevistados:

  • 24,5% levaram entre 6 e 12 meses para concluir sua última rodada
  • 18,4% fecharam entre 3 e 6 meses
  • 30,6% ainda estavam no processo de captação no momento da pesquisa

Além disso, o interesse dos investidores é percebido como mais contido:

  • 42,9% dos fundadores dizem que não houve mudança no cenário
  • 34,7% percebem aumento no interesse (30,6% maior + 4,1% muito maior)
  • 14,3% afirmam que o interesse caiu
  • 8,2% dos fundadores percebem um interesse muito menor

O maior problema do ecossistema está na falta de liquidez. Entre os principais riscos apontados pelos investidores para 2026 estão:

  1. Falta de oportunidades de exit – 73,8%
  2. Instabilidade política – 57,1%
  3. Retração de LPs (investidores institucionais) – 44,4%
  4. Baixa participação de instituições locais – 34,9%

Essa preocupação é compartilhada pelos fundadores de startups. Entre eles, 49% também apontam a escassez de saídas como o principal risco do ecossistema. A dificuldade de gerar liquidez, seja por IPOs ou aquisições (M&A), tem impacto direto no ciclo do capital de risco. Sem saídas, investidores têm menos recursos para reinvestir capital em novas empresas. Por isso, o relatório aponta que a maturidade do mercado dependerá da criação de mais eventos de liquidez, incluindo vendas estratégicas e operações secundárias.

 

Brasil segue como principal polo de investimento (e as fintechs também)

Mesmo com a diversificação crescente do ecossistema latino-americano, o Brasil continua sendo o principal mercado da região. Em 2025, os dados mostram

  • Brasil: US$ 2 bilhões investidos em 363 rodadas
  • México: US$ 980 milhões em 86 rodadas
  • Colômbia: US$ 224 milhões em 62 rodadas
  • Argentina: US$ 172 milhões em 34 rodadas
  • Chile: US$ 249 milhões em 53 rodadas

O protagonismo brasileiro reflete tanto o tamanho do mercado quanto a maturidade do ecossistema. O país representa quase metade do PIB da América Latina, possui um dos sistemas financeiros mais sofisticados do Sul Global e abriga um mercado consumidor de mais de 215 milhões de pessoas, fatores frequentemente citados por investidores como razões para apostar na região.

Olhando para a análise dos setores, as fintechs seguem sendo o principal destino do capital de risco na região. Em 2025, 29% das rodadas foram em fintechs. O setor concentrou 61% do capital investido. Outros segmentos relevantes incluem SaaS, Healthtech, Foodtech, Logística e Energia.

Esse domínio das fintechs reflete uma característica da América Latina: a enorme lacuna histórica em infraestrutura financeira, que abre espaço para inovação. Mesmo em países com sistemas financeiros mais sofisticados, como o Brasil, ainda existem lacunas que continuam abrindo espaço para inovação. Ao mesmo tempo, o relatório destaca que as fintechs estão entrando em uma nova fase.

Em vez de aplicativos voltados diretamente ao consumidor, o foco agora se desloca para infraestrutura financeira embutida, como:

  • Embedded finance
  • Tokenização de ativos do mundo real
  • infraestrutura B2B para pagamentos e crédito

 

O próximo ciclo será liderado por IA Aplicada

Se as fintechs ainda dominam o presente, a Inteligência Artificial aparece como a tecnologia mais promissora para o futuro. Entre os especialistas consultados no relatório, 13 de 20 apontaram a IA Aplicada como a principal tendência para os próximos anos. Mas a lógica na América Latina será diferente da observada nos Estados Unidos.

Em vez de criar modelos fundacionais, a oportunidade está na camada de aplicação da IA, especialmente em setores tradicionais. As principais oportunidades incluem:

  • IA Vertical para empresas
  • Agentes de IA para pequenas e médias empresas
  • Automação de processos em setores tradicionais
  • IA Aplicada a Logística, Agricultura e Manufatura

Na prática, isso significa usar IA para resolver problemas da economia real. Um exemplo citado no estudo envolve agentes de IA capazes de transformar mensagens de WhatsApp, notas de voz e documentos em orçamentos, faturas e registros financeiros automatizados, sem exigir mudanças radicais na forma como pequenas empresas trabalham.

 

Deeptech entra no radar dos investidores

Outra tendência apontada pelo relatório é o avanço do deeptech, especialmente em áreas ligadas às vantagens naturais da região. Entre os setores citados estão:

  • Biotecnologia
  • Novos materiais
  • Mineração e minerais críticos
  • Energia limpa
  • Foodtech avançado

Segundo especialistas entrevistados, o próximo ciclo de inovação pode não ser “software-first”, mas sim tecnologia ancorada em ativos reais, como recursos naturais, infraestrutura energética e biodiversidade.

Nesse contexto, a América Latina apresenta vantagens únicas. A região possui:

  • Algumas das maiores reservas de lítio do mundo
  • Uma das maiores biodiversidades do planeta
  • Grande produção global de alimentos
  • Abundância de recursos naturais estratégicos

Esses fatores podem transformar o deeptech em um novo motor de inovação regional.

 

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