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Estudo publicado na MIT Sloan Management Review mostra por que a inovação incremental não garante crescimento no longo prazo (Crédito: Freepik)
INOVAÇÃO

Inovação estratégica: como empresas maduras podem voltar a crescer

Pesquisa revela como empresas podem construir uma capacidade permanente de inovação estratégica, criando novos negócios e evitando a armadilha da inovação apenas incremental

Por Soraia Yoshida 05/03/2026

A inovação é o grande motor da criação de valor, mas ninguém nega que é um dos mais difíceis de sustentar no longo prazo. O problema não está na falta de ideias e sim na dificuldade das organizações em construírem uma uma capacidade sistemática de inovação estratégica, capaz de gerar novos negócios e não apenas melhorias incrementais. 

As empresas capazes de fazer isso são poucas. E foi exatamente ao analisar como conseguiram manter um fluxo consistente de inovação, os pesquisadores deste estudo identificaram oito práticas que, quando combinadas, criam uma capacidade sustentável de inovação estratégica e novas plataformas de crescimento.

O estudo, assinado por Gina O’Connor (Babson College) e Christopher R. Meyer (Baruch College), analisa empresas maduras que conseguiram manter um fluxo consistente de inovação. A conclusão da pesquisa é que organizações que dependem apenas de inovação incremental (melhorias em produtos existentes, eficiência operacional ou aquisições pontuais) dificilmente conseguem garantir crescimento sustentável no longo prazo. Para sobreviver em um ambiente de mudanças tecnológicas rápidas, elas precisam desenvolver uma estrutura dedicada à inovação estratégica, com processos, métricas e talentos próprios.

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Grande parte das empresas nasce de uma inovação disruptiva, seja um produto, serviço ou modelo de negócios que redefine um mercado. Entretanto, com o crescimento das organizações, a atenção se desloca gradualmente para proteger e otimizar o negócio existente. O mesmo sistema que torna a empresa eficiente para operar o presente frequentemente a torna ineficiente para criar o futuro.

Segundo os autores, a maioria das empresas passa a inovar apenas de forma incremental:

  • melhorando processos para reduzir custos;
  • adicionando recursos a produtos existentes;
  • respondendo a movimentos de concorrentes.

Essas iniciativas são importantes, mas raramente geram novas plataformas de crescimento.

 

O que diferencia inovação incremental e estratégica

O estudo também mostra que inovação estratégica exige sistemas de gestão completamente diferentes daqueles usados no negócio atual.

Inovação incremental é caracterizada por:

  • foco em eficiência operacional
  • estruturas organizadas por unidades de negócio
  • decisões hierárquicas
  • métricas baseadas em custo, prazo e retorno.

Já inovação estratégica é orientada por:

  • aprendizado e experimentação
  • estruturas corporativas dedicadas
  • governança baseada em aconselhamento estratégico
  • métricas relacionadas ao portfólio de oportunidades e criação de novos negócios.

 

8 princípios fundamentais da inovação estratégica

Esses princípios estão organizados em três grandes dimensões:

    1. Direção e compromisso
    2. Construção de capacidades
    3. Gestão do sistema de inovação ao longo do tempo

Veja a seguir as práticas que a pesquisa aponta como capazes de criar inovação sustentada dentro da empresa.

 

1. Criar uma linguagem comum para inovação

O primeiro passo para construir inovação estratégica é estabelecer uma linguagem compartilhada para discutir diferentes tipos de inovação dentro da organização. Um dos modelos mais conhecidos é o framework dos três horizontes de crescimento, popularizado pela McKinsey:

  • Horizonte 1 – inovação incremental no negócio atual
  • Horizonte 2 – expansão para novos mercados adjacentes
  • Horizonte 3 – apostas em oportunidades futuras ainda incertas

Sem essa distinção, empresas tendem a avaliar todos os projetos pelos mesmos critérios financeiros e operacionais, o que acaba eliminando iniciativas mais ambiciosas antes mesmo que tenham tempo de amadurecer.

 

2. Definir domínios estratégicos de inovação

Outro princípio essencial é definir domínios de intenção de inovação, áreas nas quais a empresa pretende explorar oportunidades futuras. Esse processo envolve:

  • Análise de tendências tecnológicas
  • Mudanças sociais e demográficas
  • Transformações geopolíticas
  • Evolução regulatória e cultural

Em vez de simplesmente extrapolar tendências atuais, líderes precisam imaginar cenários futuros plausíveis.

 

3. Transformar inovação estratégica em função permanente

Um erro comum é tratar inovação como programa temporário, e não como função organizacional permanente. Muitas companhias tentam estimular inovação por meio de:

  • hackathons
  • concursos de ideias
  • programas temporários de inovação

Essas iniciativas podem gerar entusiasmo momentâneo, mas raramente criam capacidade estrutural. Quando as empresas abandonam seus programas de inovação corporativa quatro ou cinco anos depois, perde-se o entusiasmo e a capacidade de desenvolver competências.

 

4. Construir portfólios de oportunidades

Organizar inovação em portfólios de oportunidades, e não em pipelines lineares de projetos permite à empresa tratar cada iniciativa como experimento dentro de um portfólio maior. Nesse modelo:

  • falhas geram aprendizado
  • oportunidades podem se combinar em projetos maiores
  • alguns caminhos são abandonados rapidamente

 

5. Desenvolver três competências organizacionais

Empresas que dominam inovação estratégica constroem três capacidades distintas:

  • Descoberta (discovery). Identificação de oportunidades por meio de pesquisa tecnológica, scouting em universidades e startups, contato com clientes e especialistas.
  • Incubação. Transformação das oportunidades em conceitos de negócio testáveis. Essa fase envolve validação de mercado, definição de modelos de negócio, testes de tecnologias, desenvolvimento de propostas de valor. O resultado final costuma ser um plano de entrada no mercado para uma nova família de produtos ou serviços.
  • Aceleração. Consiste em escalar o negócio até que ele possa operar como unidade independente dentro da empresa. Essa fase inclui crescimento de receita, expansão operacional e integração com unidades existentes.

 

6. Criar papéis claros para inovação

Outro desafio frequente é a falta de carreiras estruturadas para inovadores corporativos. Para afastar o receio de prejudicar a carreira em caso de falha do projeto, as organizações inovadoras criam papéis formais, como

  • líderes de domínio
  • especialistas em incubação
  • responsáveis pela aceleração de novos negócios

Esses profissionais desenvolvem competências específicas na criação de novos negócios, diferentes das habilidades tradicionais de gestão operacional.

 

7. Gerenciar quatro tipos de incerteza

Inovação estratégica envolve lidar com múltiplos níveis de incerteza. Os autores identificam quatro dimensões principais:

  1. Tecnológica
  2. Mercado
  3. Recursos
  4. Organizacional

A última costuma ser a mais crítica. Ideias promissoras frequentemente fracassam por resistência interna, disputas políticas ou falta de alinhamento estratégico. Por isso, a liderança precisa garantir apoio institucional e comunicação clara sobre o papel das novas iniciativas.

 

8. Ajustar continuamente o sistema de inovação

Manter o sistema de inovação ativo ao longo do tempo, mesmo em períodos de pressão financeira, requer das empresas ajustes no ritmo do portfólio. Isso significa:

  • Reduzir o número de projetos
  • Desacelerar investimentos
  • Preservar equipes e capacidades

Interrupções completas fazem com que empresas percam conhecimento acumulado e tenham que recomeçar do zero anos depois.

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