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‘Should I Stay or Should I Go?’ O dilema silencioso de carreira

Saber qual é a hora de deixar uma posição na empresa é uma tarefa tão difícil quanto necessária e é preciso saber navegar por suas complexidades.

Por Sergio Lozinsky 13/02/2026

Saber a hora de parar ou de fazer uma mudança é sempre uma decisão delicada em qualquer esfera da vida. Na carreira corporativa, há geralmente o temor de interromper uma jornada precocemente, ou de iniciar um movimento que comprometerá escolhas futuras. Então, como saber e tomar a melhor decisão? Ou, como o título deste artigo propõe… “Should I stay or should I go?”

Idealmente, o caminho a seguir deveria ser aquele que oferece mais oportunidades de aprendizagem. No entanto, sabemos que o mundo ideal não existe, e que tal inclinação não corresponde ao perfil e ao momento de todo profissional. É importante, portanto, examinar as motivações para a mudança — ou a permanência onde se está.

O primeiro ponto a se considerar é que a maioria das pessoas, acredito eu, veem no emprego um ponto de estabilidade, sendo o trabalho, prioritariamente, uma ferramenta para aumentar ou manter determinado padrão de vida, e não um crescimento intelectual e pessoal. Já outras enxergam o trabalho como um veículo de realização e evolução individual, para além do desenvolvimento profissional. Nesse caso, a remuneração é apenas um dos critérios para ficar ou ir embora.

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Seja como for, existe o medo de perder o emprego, de se aventurar, de trocar um lugar seguro por outro onde será preciso recomeçar, firmar seu espaço e ser respeitado. Uma hora ou outra, o questionamento sobre permanecer onde se está ou dar um salto em direção ao novo vai se apresentar. Pensando nisso, trago uma reflexão sobre o que deveria orientar essa escolha, usando algumas passagens da minha própria carreira para examinar pontos sensíveis.

Para além da bifurcação

Desde garoto eu queria trabalhar com tecnologia. Passei por grandes empresas do setor e, em dado momento, comecei a carreira como consultor de TI em uma empresa que, na época, era uma das maiores do segmento no Brasil. Ali, o “esperado” era fazer uma carreira até se tornar sócio – ou, na hipótese de não ingressar na sociedade, sair para tornar-se diretor em um cliente. Ou seja: havia dois bons caminhos assegurados, ao menos do ponto de vista financeiro.

Porém, aos meus 26 anos, veio o boom da microinformática. Embora eu já atuasse como gerente de projetos naquele momento, estudei com afinco a novidade, e percebi que a maneira de gerir as empresas iria mudar, pois estávamos diante da chegada de um ferramental impensável até então. Adicionalmente, havia um complicador no País, a Lei de Reserva Nacional, instituída pelos militares e que ainda estava vigente, impedindo a importação dos mais variados produtos. Implementar um projeto nessa nova área, no Brasil daquela época, seria desafiador.

Diante do novo mundo que se formava, vi uma oportunidade, e ela pareceu ainda mais promissora quando me dei conta de que a maioria dos meus pares não entendia nada daquilo: o nascimento da computação no Brasil, com a chegada dos mainframes, foi um divisor de águas para a informática e para como as empresas passaram a existir e operar, e os projetos nessa área eram altamente rentáveis.

Um futuro se desenhou diante de mim. Inicialmente, tentei criar uma área nova de microinformática na consultoria em que atuava e assumir a liderança dela, mas não chegamos a um acordo.

Pedi demissão. No “should I stay or should I go?”, optei pelo “go” — a alternativa que eu viria a escolher novamente em outras ocasiões. Então, me associei a um amigo igualmente empreendedor e montamos nossa própria consultoria.

Abraçando o imprevisível

Rapidamente percebemos o timing correto da decisão: ao mostrar nosso domínio de microinformática, encontramos muitas empresas motivadas a entender se aquela novidade seria boa para os negócios. Tivemos um grande crescimento em pouco tempo, e acabamos tendo que enfrentar outra decisão de carreira: uma grande consultoria internacional mostrou interesse em adquirir nossa companhia. Vender implicaria em perder aquela liberdade total, tendo que se adequar a uma gigante multinacional. Optamos pela venda.

Após a aquisição, assumi uma posição alta na empresa que nos comprou. Foi uma decisão de prós e contras, como toda escolha impõe, embora eu não tivesse plena ciência deles, na época, como tenho hoje. Obviamente, ninguém tem controle absoluto sobre os rumos que o mundo toma a partir de uma escolha — o máximo que você consegue controlar são suas atitudes diante do que começa a se desenrolar. Mas o ponto principal dessa história é que a mudança — seja para abrir uma empresa, ou para aceitar outra posição em uma companhia diferente — abre possibilidades que você nem pode imaginar enquanto continua pensando no que fazer.

Quando empreendi em microinformática com meu sócio, por exemplo, nunca executamos o plano de negócios original que havíamos desenhado, tantas foram as possibilidades que descobrimos a partir do nosso movimento inicial. E foram esses caminhos imponderáveis que levaram a multinacional a comprar nossa criação.

Ou seja: por mais antecipada que seja, a mudança sempre terá um caráter de aventura. E isso precisa ser considerado nesses tempos em que as pessoas mostram tão pouca tolerância à frustração. O caminho rumo ao novo exige algum grau de persistência, e ele é essencial para que você não se torne refém de um eterno arrependimento daquilo que não aconteceu.

Persistência não é sinônimo de obsessão, vale dizer. Ajustes serão necessários. Não é uma derrota descobrir que você não está vivendo exatamente aquilo que havia idealizado. O importante, para quem opta pelo risco, é recusar a acomodação. “Estou bem onde estou” é um pensamento legítimo — mas não pode calar as oportunidades que se apresentam.

Renúncias inevitáveis
Obviamente, existem momentos de estabilidade na carreira: se você percebe que está construindo algo que faz sentido com seus valores, está vivenciando crescimento em um ou mais aspectos pessoais, ou profissionais, o chamado pelo novo, mesmo que atraente, pode ser entendido como um risco desnecessário. Nesse caso, me parece essencial se perguntar se essa curva ascendente do presente tende a se manter no futuro. Se a resposta for não, talvez seja oportuno aproveitar a chance de mudar antes da situação se estagnar.

Uma coisa é certa: quando você se questiona repetidamente se faz sentido permanecer onde está, acredite, já passou da hora de sair.

Muitas vezes, gastamos mais energia em nos convencer de que algo insatisfatório está “bom” do que em buscar uma saída da situação desconfortável. É preciso ter em mente que qualquer um dos caminhos — sair ou permanecer — vai exigir alguma renúncia. E por mais que pareça óbvio, é algo que precisa ser lembrado. Há quem se empolgue tanto com a perspectiva de uma mudança que acabe formando uma visão idealizada dela. O entusiasmo é bem-vindo, e um ótimo sinal de que a hora de mudar realmente chegou, mas não pode ser tamanho a ponto de atropelar o pensamento reflexivo.

Outro ponto que precisa ser considerado é que, quanto menor for a empresa onde se está, maior a percepção de como os nossos pares enxergam nosso desejo de mudar. Isso é particularmente delicado se a companhia em questão é uma sociedade com poucos sócios. Naquela primeira empresa que montei, vivenciei isso em um dos pontos de virada — meu sócio tinha outros interesses, e seguimos caminhos separados. Hoje, entendo melhor as razões dele, mas na época foi algo que me incomodou.

O melhor é sempre agir com transparência. Uma mudança feita honestamente não é traição. Claro, quem sai precisa entender que vai afetar quem ficou. Porém, isso não é impeditivo de realizar a mudança, mas sim um lembrete de que é preciso gerir essa transição com sabedoria, coerência e um pouco de altruísmo.

Decisões de carreira são decisões de vida. E mesmo para aqueles que defendem que “o trabalho não é minha vida”, é impossível ignorar o enorme impacto que movimentos profissionais trazem para o nosso bem-estar. E ainda que tenhamos a tendência a preferir o “stay”, precisamos saber que a vida, eventualmente, vai nos exigir um “go”.

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