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Julio Ramundo, diretor de negócios de carbono e corporate venture da Suzano Imagem: Divulgação
ENTREVISTA

“Tudo que fazemos em inovação é para a agenda de sustentabilidade”

Com o lançamento de um fundo de corporate venture capital de US$ 70 milhões, a Suzano sai em busca das Deep Techs para acelerar sua estratégia de "inovabilidade", explica Julio Ramundo.

Por Silvia Bassi 26/08/2022

Uma empresa centenária, como a Suzano, só se mantém no topo se investir muito em ciência e tecnologia de ponta, seja para o cultivo dos 1,4 milhão de hectares de floresta de eucalipto, dos quais 1 milhão são preservados pela companhia, seja para encontrar novos processos na produção de celulose e papel que a coloquem como protagonista da bioeconomia, em um momento da humanidade que Julio Ramundo, diretor de negócios de carbono e corporate venture da Suzano, chama de quarta transformação econômica.

A empresa sabe que a velocidade da mudança conspira, daí o lançamento da Suzano Ventures, uma operação de corporate venture capital (CVC) que já sai com US$ 70 milhões para investir em startups de deep tech do Brasil e de outros lugares do planeta, que acelerem o desenvolvimento de novas soluções em áreas como tecnologia climática, produtos de base biológica, agrofloresta e embalagens sustentáveis. Ou na monetização do carbono, que no caso da Suzano não é gerado, mas sim sequestrado da natureza.

Nessa entrevista à The Shift, Ramundo explica a singularidade do investimento em startups científicas, que pedem um “capital paciente”, uma vez que muitas descobertas levam anos para sair do laboratório para o mercado. E conta como a Suzano pretende colocar na mesa muito mais do que dinheiro na jogada. “Essa é a beleza, na minha opinião, da corporate venture. Há dinheiro e há estabilidade. Eu não vou fugir na primeira crise, meu dinheiro não vai sumir. Estamos falando de uma empresa centenária que, além disso, tem uma base de competência e de atributos para testar dentro de casa”.  Confira

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Falando de inovabilidade

Na Suzano, colocamos a questão da sustentabilidade como parte integrante do negócio. É um negócio de base florestal construído ao longo de muitas e muitas décadas, no qual a Suzano conseguiu se posicionar de uma maneira invejável. Somos o maior produtor mundial de base florestal com floresta plantada – temos 1,4 milhão de hectares de floresta de eucalipto, de floresta plantada pela companhia, e 1 milhão de hectares são preservados por nós. Isso foi construído ao longo de muitas décadas e, para que a gente atingisse a posição de ser a empresa mais competitiva de celulose de mercado do mundo, teve muita inovação, muita pesquisa, sobretudo, na área de de melhoramento da planta. Mas também do lado de operação florestal, de logística, de fábrica…

A Suzano já tem um DNA muito grande de inovação e, ao mesmo tempo, colocamos a sustentabilidade como parte integrante do negócio. Até na área de finanças, a gente incorpora o elemento da sustentabilidade. Daí a palavra inovabilidade. Não é inovação de um lado e sustentabilidade do outro É tudo junto.

Essa urgência é uma exigência dos consumidores – tem mudanças geracionais aí – e é um requisito corporativo. Acreditamos que podemos ser um player relevante em mais uma transformação econômica, que é a bioeconomia, porque temos um histórico, uma competência, construídos nessa área. A Suzano Ventures entra como um elemento muito importante no nosso processo de inovação aberta, que envolve basicamente contratar ou adquirir participações minoritárias e incentivar startups.

Onde entra a deep tech

Quando estamos usando soluções de deep tech, a base da startup é diferente. Nos últimos 20 anos, a base foi “leve”- é uma base digital (software) apoiada na revolução da microeletrônica. Em deep tech estamos falando de pesquisa mais próxima da ciência. É um conceito de regeneração, de economia circular, que se apoia na biotecnologia e na natureza, e isso é o que chamamos de bioeconomia.

Definimos 4 verticais muito claras para o projeto e duas são “bioeconomia na veia”. A primeira é o que a gente chama de novos produtos e novos materiais a partir da biomassa de eucalipto. Queremos criar novos produtos e novas aplicações a partir de algumas rotas tecnológicas que os nossos laboratórios já pesquisam – Biocompositos, Biocombustíveis, Lignina e Nanomateriais. Tudo está ligado à questão da química renovável.

A segunda vertical está ligada a embalagens com base no papel, na fibra de celulose. Esse movimento é global e acontece em vários países por força, inclusive, de regulação. O plástico de uso único (single use plastics) está sendo banido e há uma pressão enorme para substituir o plástico por materiais que sejam notadamente biodegradáveis. Nossa meta com essa segunda vertical é desenvolver propriedades ou atributos para o nosso papel e a nossa fibra de celulose que faça com que possamos substituir essa gama enorme de packaging (embalagens) feita com produtos de origem fóssil.

A terceira vertical está em uma área muito forte para o Brasil, que é a AgTech. Estamos falando de coisas muito próximas desse movimento de inovação digital que empreendemos nos últimos 30, 40 anos, que é levar a digitalização para as nossas florestas. O que é isso exatamente? A atividade ao longo dessas décadas, em que a Suzano desenvolveu essa competência florestal, envolve um processo que vai do viveiro, onde estão as mudas do nosso eucalipto, até o pátio de madeira dentro da nossa planta de celulose. Esse é o nosso sistema florestal.

Esse sistema contempla alguns elementos, como a seleção da melhor planta para o melhor clima e para o melhor solo. Para você ter uma ideia, hoje temos 18 mil peças, ou 18 mil clones, que a gente chama calibre, no nosso banco. E fazemos a seleção usando genômica. Nessa área vamos precisar muito desenvolver soluções de genômica e tecnologias ligadas a genômica para entrar na seleção. Depois ainda tem a parte de plantio, manutenção, monitoramento, corte, transporte da madeira para uma fábrica de celulose. Temos muito a fazer para tirar vantagem dessas tecnologias, que vão da base digital até supervisão por drone na gestão florestal.

A última vertical é a de carbono. A Suzano é uma empresa que não emite carbono. A gente sequestra carbono da natureza. Aí tem uma oportunidade enorme, na medida que avançamos na nossa base florestal e também nas tecnologias que eu citei, para gerar valor a partir do carbono, e isso é muito importante para a transição para a nova economia. Estamos falando do processo de inventário de carbono de todas as fazendas que temos e, a partir dessa contabilização, eventualmente utilizar sistemas digitais de tokenização para chegar na parte de comercialização. Tem uma série de tecnologias que podemos desenvolver nessa quarta vertical para transformar o carbono não emitido, ou o carbono capturado, em valor e monetizar isso. E desenvolver tecnologia para captura de carbono. Podemos ter tecnologias na área de energia ou operação logística, que implementadas geram valor a partir do carbono não emitido ou do carbono sequestrado.

Estamos falando de um novo modelo de produção, de criar novos produtos que possam substituir uma série de coisas que estão há 100 anos. É um desafio enorme da humanidade, mas a gente tem essa urgência e tem uma competência de inovação dentro da companhia.

O investimento em Deep Tech é paciente

Tem critérios que valem para corporate ventures em geral, mas na Suzano tem alguns elementos que eu acho que são particulares para o setor de deep tech. Entendemos que esse tipo de capital é um capital paciente. Se tem alguém para bancar um venture capital mais paciente, que é típico de deep techs, na minha opinião são as corporações, porque o dinheiro do VC tradicional é muito mais volátil.

Veja, por exemplo, que nesse momento de aumento de taxas de juros a captação ficou mais difícil em muitos fundos, então é muito instável. O setor de Venture Capial é muito mais ágil, muito mais rápido, porque ele se desenvolveu nos últimos 20 e 30 anos em um ambiente de taxas de juros extremamente baixas, com grande liquidez e trabalhando com startups de base tecnológica digital, que é uma base tecnológica leve. Então é muito mais rápido você colocar dinheiro e fazer disrupção a partir de um modelo de negócio que é favorecido pela digitalização.

Quando você está fala de bioeconomia de base biotecnológica, tem que ter mais paciência, portanto tem mais “a cara” do corporate capital. Porque você fica mais próximo da ciência, e aí tem elementos que são típicos da Suzano, e é onde a gente se diferencia.

Dinheiro é importante, todo mundo pensa nele quando está falando de venture capital. Só que a gente quer oferecer uma coisa muito além do dinheiro. São todas as conexões, a infraestrutura, a oportunidade de testar produtos e serviços, de usar o nosso nome e a presença internacional da Suzano. Temos aquela base florestal que eu mencionei, mais doze fábricas, cinco portos, dezenas de centros de distribuição, um sistema logístico… Chegamos a 100 países, com 2 bilhões de pessoas. Temos clientes em todas as geografias, desde muito grandes a pequenos, com requisitos e exigências para testar produtos também. Nas conexões estamos próximos do mercado financeiro…

Temos uma base de pesquisa e desenvolvimento em deep tech espalhada no mundo. Temos três laboratórios no mundo – no Brasil, Israel e Canadá, e estamos montando um na China. Vamos usar essa base de pesquisa e ciência aplicada dos nossos laboratórios para desenvolver produtos e serviços com as startups. Essa é a beleza, na minha opinião, da corporate venture. Há dinheiro e há estabilidade. Eu não vou fugir na primeira crise, meu dinheiro não vai sumir. Estamos falando de uma empresa centenária que, além disso, tem essa base de competência, de atributos que eu mencionei, para testar dentro de casa.

A escolha tem outros critérios

A gente tem um comitê técnico na primeira abordagem da seleção, que inclui as lideranças dos nossos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento com assento permanente. O primeiro, screening de tudo o que a gente foi investir. No primeiro passo, como é deep tech, a gente tem os nossos techies fazendo fazendo a seleção. Não vai passar uma deep tech sem que a gente tenha o aval desse comitê. Isso faz muito sentido também na parte de pré seed, early stage, porque a gente tem a sensibilidade de saber que aí tem muita incerteza. Nesses casos, com valores até US$ 500 mil, a gente nem leva para o comitê de investimento. Esse comitê técnico tem alçada para liberar. É uma decisão “pure deep tech” .

Como manter os cérebros no país

Não temos um programa para isso. Mas aqui vai a minha opinião pessoal. O que mais vai fazer os cérebros científicos ficarem aqui é ter um sistema de inovação completo que alimente os desejos e os planos desses cientistas. Na medida em que isso vai se fortalecendo, os cientistas vão ficar.  aqui hoje, na apresentação do senai. O Diretor de Inovação e Tecnologia do SENAI, Jefferson de Oliveira Gomes, comentou no nosso evento que visitou a Noruega e viu pessoas lá desenvolvendo componentes ligados à indústria alimentícia a partir do eucalipto. Fui ver quem estava nesse grupo de pesquisas e descobri que tinha 15 brasileiros! E ele perguntou a mesma coisa, como fazemos para segurar essa turma aqui no país?

Temos que oferecer condições de desenvolverem os negócios deles. Quando fortalecemos o sistema de inovação, agregamos mais oportunidades e alternativas em empresas como a Suzano. Hoje temos muito venture capital disponível, mas grande parte dele está sendo aplicada em startups digitais, por que é mais fácil. Eu adoraria, como brasileiro, ver 10, 15, 30 empresas fazendo igual à Suzano. As empresas precisam encontrar esse novo caminho de gerar valor.

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