A disputa tecnológica entre grandes blocos econômicos mira em quatro tecnologias para acertar nas estratégias nacionais de segurança e competitividade. Ao colocar Semicondutores Avançados, Computação Quântica, Inteligência Artificial e Biotecnologia no centro da arena, Estados Unidos, China e Europa buscam liderar ou participar da definição dessas novas arquiteturas tecnológicas. Ao mapear tecnologias emergentes em estágios iniciais no relatório “Tech Report 2026”, o European Innovation Council (EIC) quer ocupar esse espaço de decisão.
O relatório identifica 25 sinais tecnológicos emergentes de deep tech com potencial de impacto econômico, científico e geopolítico nos próximos anos. Produzido no âmbito do programa Horizon Europe, o estudo se baseia na análise de dados de projetos financiados e propostas submetidas ao EIC entre o segundo trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2025, combinando mineração de dados, análises cientométricas e avaliação de especialistas para identificar tecnologias ainda em estágio inicial, mas com potencial de escalar rapidamente.
O levantamento faz parte do esforço europeu para fortalecer sua soberania tecnológica, reduzir dependências externas e garantir competitividade em áreas estratégicas como inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e energia limpa. Ao todo, o programa European Innovation Council conta com orçamento superior a €10 bilhões para o período 2021-2027, destinado a apoiar desde pesquisa científica inicial até a comercialização e escalabilidade de tecnologias disruptivas.
Antes de se tornarem tendências consolidadas, muitas tecnologias surgem inicialmente como “signals”, sinais fracos de inovação. Esses sinais são detectados por meio da análise de projetos científicos, patentes, propostas de financiamento e redes de pesquisa. Identificar essas tecnologias cedo é fundamental porque quando se tornam amplamente conhecidas, muitas das decisões que moldam sua trajetória já foram tomadas. Em outras palavras, quem investe primeiro, define padrões e constrói ecossistemas industriais ao redor dessas inovações.
Como seria de se esperar, o relatório reflete uma realidade geopolítica: a disputa tecnológica entre grandes blocos econômicos. As tecnologias para desenvolvimento e produção de semicondutores avançados, Computação Quântica, Inteligência Artificial e Biotecnologia estão no centro de estratégias nacionais de segurança e competitividade. Ao mapear tecnologias emergentes em estágios iniciais, o European Innovation Council busca garantir que a Europa participe da definição dessas novas arquiteturas tecnológicas e não apenas as adote depois de consolidadas em outros países.
Mais do que prever o futuro, o objetivo do relatório é criar um radar tecnológico, capaz de identificar tendências antes que elas se consolidem. O estudo deixa claro que essas tecnologias ainda estão em estágios iniciais, muitas delas com baixo ou médio nível de maturidade tecnológica.
Isso significa que:
Mesmo assim, identificar esses sinais precocemente permite orientar:
As 25 tecnologias identificadas no relatório foram agrupadas em três grandes domínios:
A seguir estão os principais insights e tendências revelados pelo estudo.
Um dos blocos centrais do relatório analisa tecnologias digitais avançadas e infraestruturas espaciais, consideradas essenciais para a autonomia estratégica da Europa. Entre as áreas identificadas estão novos materiais semicondutores, redes quânticas seguras, arquiteturas de segurança para inteligência artificial e sistemas robóticos para manutenção de infraestrutura orbital.
Uma das tecnologias analisadas são os materiais bidimensionais para memórias avançadas e dispositivos memristivos, que podem revolucionar a arquitetura dos computadores. Materiais com espessura atômica – como grafeno, dissulfeto de molibdênio e heteroestruturas de van der Waals – apresentam propriedades eletrônicas e magnéticas únicas. Esses materiais permitem:
Avanços recentes já demonstraram memristores com alta relação liga/desliga, baixa tensão de operação e alta durabilidade, características essenciais para aplicações em computação de próxima geração. Essas tecnologias são particularmente relevantes para os setores automotivo, de automação industrial e IoT (Internet das Coisas). Além disso, dispositivos de memória mais eficientes podem reduzir significativamente o consumo energético de data centers.
Outra inovação destacada são os MXenes, uma família de nanomateriais bidimensionais composta por carbides e nitrides de metais de transição. Esses materiais apresentam propriedades extraordinárias:
Mais de 50 composições já foram sintetizadas experimentalmente, enquanto centenas ainda são previstas teoricamente. Os MXenes podem ser usados em aplicações como:
Um avanço importante citado no relatório do EIC é a produção em escala de quilogramas em poucas horas, indicando que a tecnologia está saindo dos laboratórios rumo à industrialização.
O relatório também destaca os repetidores quânticos, considerados essenciais para a construção de redes de Comunicação Quântica seguras. Hoje, muitos sistemas de Comunicação Quântica dependem de “nós confiáveis”, que retransmitem informações criptografadas. Esses pontos intermediários representam potenciais vulnerabilidades. Os repetidores quânticos permitem superar essa limitação usando emaranhamento quântico distribuído, possibilitando comunicação segura em distâncias de centenas ou milhares de quilômetros.
Alguns avanços recentes incluem:
Esses progressos aproximam os repetidores quânticos de aplicações reais em redes de comunicação seguras.
Com o avanço na distribuição dos sistemas de Inteligência Artificial – operando em múltiplos dispositivos, nuvens e redes –, cresce a preocupação com segurança e proteção de dados. Uma das tecnologias emergentes identificadas pelo relatório é a arquitetura “Zero Trust” incorporada a sistemas de IA distribuídos. Nesse modelo, nenhum componente do sistema é considerado confiável por padrão. Cada interação precisa ser continuamente verificada. Essas arquiteturas permitem:
Além disso, novas implementações estão integrando segurança diretamente no hardware de aceleradores de IA e chips especializados.
Outra área promissora é a chamada “bio-inspired AI” ou a IA inspirada na Biologia, que busca inspiração em mecanismos biológicos para criar sistemas mais eficientes. Enquanto muitos modelos atuais dependem de grande volume de dados e energia computacional, abordagens inspiradas no cérebro humano buscam:
Segundo o relatório, essas abordagens podem reduzir a dependência de modelos gigantescos e altamente intensivos em energia, dominados por empresas fora da Europa.
O segundo bloco do relatório aborda tecnologias destinadas a reduzir o impacto ambiental da economia e melhorar a eficiência no uso de recursos. Entre as áreas destacadas estão:
Uma das tecnologias emergentes é a Biomineração Microbiana, que utiliza microrganismos para recuperar metais de resíduos industriais e mineração. Essa tecnologia pode:
Isso é especialmente relevante para a Europa, que depende fortemente de importações de minerais estratégicos.
O relatório também destaca sistemas de “capacitive deionization” ou “desionização capacitiva”, um processo capaz de remover sais da água com menor consumo energético que métodos tradicionais. Essas tecnologias verdes podem ampliar o acesso à água potável em regiões com escassez hídrica.
Grande parte da energia utilizada pela indústria é perdida como calor. As tecnologias termoelétricas podem recuperar parte dessa energia, aumentando a eficiência energética de processos industriais.
Aqui entramos no campo das tecnologias que podem transformar a Medicina, a Agricultura e a produção de alimentos. Entre os avanços destacados estão:
Uma das áreas mais promissoras é o design computacional de proteínas, que utiliza IA para criar novas enzimas e medicamentos. Esse campo pode acelerar dramaticamente a descoberta de novos medicamentos, enzimas industriais e biomateriais.
Outra tecnologia emergente são os “biohybrid microrobots” ou microrobôs biohíbridos, capazes de operar em escala celular dentro do corpo humano. Esses sistemas podem permitir intervenções médicas altamente precisas, como:
O relatório também aponta avanços em interfaces cerebrais não invasivas ou minimamente invasivas. Essas tecnologias podem permitir:
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