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APRENDIZAGEM HACKEADA

Quebrando a barreira do apego ao status quo para promover inovação

Uma das dicas mais importantes — ligada a desaprender e reaprender — é que se procure entender que tudo funciona melhor se primeiro agirmos diferente

Se tem algo que está presente em quase todos os cenários de inovação ou transformação é a barreira natural e comportamental das pessoas ante mudanças e reconstruções inerentes a esse processo.

Posso dizer que encontro isso em todos os projetos, mesmo com times que estejam buscando a inovação. No esquenta pré-partida, a ânsia por inovação brilha e as pessoas se empolgam, mas, na hora em que o jogo começa, o time não consegue ultrapassar as barreiras e entraves da defesa do rival status-quo.

Que se considere apego a práticas vigentes, ao “sempre foi assim e dá certo”, aquela constante olhadinha pra trás, aquele receio ao se perceber obrigado ou obrigada a esquecer o que já passou pra poder focar no que ainda será, ou se será, naquilo que não sabemos se pode dar certo. No geral, o que mais chama a atenção nesse processo é justamente essa dificuldade que as pessoas têm de desapegar, a dificuldade que muitas têm de entender que, se não houver desapego, pode não haver amanhã para o valor que elas possuem no hoje. Até existem cenários nos quais as pessoas já entendem que precisam desapegar e abraçar mudanças, mas no fluxo do dia a dia, essas mesmas pessoas se dedicam a executar o hoje, responder a questões críticas e pontuais também do hoje, que podem melhorar a eficiência em curto período de tempo, mas acabam perdendo na visão de futuro e oportunidades estratégicas.

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Algo que percebo na minha própria rotina, não somente dentro das equipes que lidero, mas nas equipes das empresas com as quais atuo em diferentes projetos, é que o processo de desapegar é tão polêmico e emocional, transcendendo o lado prático das coisas, que é muito comum as pessoas terem dificuldade de entendimento de contexto e tangibilização e começarem a patinar, tornando o processo da mudança ainda mais difícil e cheio de mitos e ruídos, com aquela pesada sensação de sombra do fracasso.

O interessante aqui é o quanto desapegar, largar o passado para abraçar a mudança para o futuro, se conecta totalmente aos conceitos de aprender, desaprender e reaprender, que lifelong learning tanto prega.

Uma de minhas referências surgiu lendo “Unlearn, do Barry O’reilly, que reforça que um dos grandes problemas de se mudar das velhas formas para as novas é que os caminhos neurais das pessoas envolvidas se tornaram fixos e rígidos ao longo do tempo. Outra ótima referência é o profundo estudo realizado por Nassim Taleb, relatado em seu livro “Antifragilidade e Como ela se Beneficia do Caos. Nele, Taleb expõe que é de se entender a nossa dificuldade em inovar como uma questão fisiológica, pois nosso cérebro está programado para nos direcionar a decisões que ele, através de incontáveis filtros e vieses pré-estabelecidos, já decidiu serem as melhores. Então, essa luta contra a inovação é inerente ao ser humano, que vai sempre buscar caminhos conhecidos antes de resolver qualquer questão, mas é um tipo de resistência que se coloca como um entrave muito sério ao pensamento criativo no mundo em que vivemos.

Para deixar tudo mais difícil, líderes acreditam só precisam dizer para as pessoas pensarem diferente, e todas elas vão, automaticamente, agir diferente. Só que não…

É preciso haver entendimento e acolhimento porque todo cenário de mudança dói, causa ansiedade, tendemos a pensar que o nosso valor está somente no que entregamos ou fizemos até aquele momento, e parece injusto termos de nos provar novamente como se o ontem não contasse. E se as coisas derem errado? Como fica? O ponto é que o valor profissional da pessoa, mesmo enquanto realizadora, vai além desses aspectos mais tangíveis. Porque o novo, que ainda ninguém conhece, ainda não tem valor. E apostar nisso é complicado.

Por mais que abordemos o tema dentro de um cenário de mercado, seu impacto é muito maior do que isso. A própria sociedade, ao avançar para o futuro, historicamente se desprende de antigos paradigmas básicos de existência para adotar outros em decisões que podem, ou não, ser doloridas ou difíceis de serem tomadas. É como uma pessoa que opta por vender o carro e se livrar de IPVA, seguro e custos de manutenção para circular somente por aplicativos de transporte. Ou um casal que desiste da festa de casamento para 300 pessoas e vai curtir seis meses de viagem de mochila pela Europa. A Economia Comportamental estuda isso, desenvolvimentos teóricos e descobertas empíricas no campo da psicologia, da neurociência e de outras ciências sociais que forçam redirecionamentos que ganham escala no comportamento humano e têm o poder de mudar cenários sociais, econômicos e culturais consistentemente.

Desapegar não se trata de apagar identidades, ignorar o passado, o conhecimento que adquirimos e está sedimentado, as experiências anteriores, e muito menos as conquistas que tivemos, porque essas coisas nos trouxeram até aqui e são extremamente válidas no todo de quem somos, mas é necessário entender que estamos trilhando novos caminhos, dos quais essas experiências passadas não fazem mais parte. A dor do desapego “pega” bem neste sentido. Como bem disse Daniel Kahneman no livro “Rápido e Devagar“, em que defende a percepção do eu experiencial e recordativo e diz como eles afetam nossas decisões, “o que aprendemos com o passado é maximizar as qualidades de nossas futuras lembranças, não necessariamente de nossa futura experiência. Esta é a tirania do eu recordativo.”

Desaprender não é um evento único – é um sistema: um sistema de deixar ir e se adaptar à realidade situacional do presente enquanto olhamos para o futuro. De reconhecer que tudo o que fizemos anteriormente pode não mais ser útil neste momento. De desenvolver a capacidade de saber quando se afastar de informações desatualizadas, receber novas informações para revisar o pensamento e adaptar comportamentos como resultado.

OK. Conceitualmente fica fácil, mas, na prática, continuamos com pessoas em times diversos criando barreiras, não compreendendo contextos ou neutralizando o novo, impedindo a inovação. O que fazer?

Uma das dicas mais importantes — ligada a desaprender e reaprender — é que se procure entender que tudo funciona melhor se primeiro AGIRMOS diferente, pois é isso que nos permite PERCEBER o mundo de nova forma, o que impacta na nossa MENTALIDADE, fechando, assim, um ciclo ideal para inovação.

Nem preciso falar da essencialidade do cuidado e transparência na comunicação, que não são suficientes, mas são básicos.

Em Unlearn, são indicadas condições ou um pequeno modelo que ajuda a gente — ou os nossos times — a fazer a virada de chave:

  • Comece por identificar o desafio, o obstáculo a ser removido ou a oportunidade a ser aproveitada, procure saber onde — no que — e por que — vale colocar energia e foco. E se encontrar esses desafios e oportunidades, não viva a utopia de achar melhor momento ou condição ideal para lidar com eles. Isso não existe. Só comece.
  • Defina evidências de sucesso: o que se espera dissolvido, superado ou conquistado lá na frente. E estabeleça restrições — prazo, esforço ou investimento — para se responsabilizar por isso tudo e se engajar à medida que desaprende o velho e aprende o novo.
  • Canalize a coragem em vez da busca por conforto. Não existe conforto em meio à mudança.
  • Consuma novos dados, informações e perspectivas, pois só de considerarmos isso já desafiamos nossos modelos mentais a respeito de tudo. O que se precisa buscar é aprender a ver, sentir e escutar de forma diferente, para poder responder e agir diferente.
  • Pense grande, mas comece experimentando pequeno. Ao operar fora da área de conforto, mas experimentando aos poucos, será possível entender melhor os impactos no contexto e sem tanta possibilidade de gerar alguma consequência desastrosa se as coisas não acontecerem como se havia pensado.

Para todas as pessoas que, como eu, fazem parte de times ligados a transformação, também para as que não fazem, mas estão envolvidas até a cabeça nisso, mesmo sem saberem: não adianta adotar processos lean, implantações de sistemas ou profissionais com funções super recentes como scrum master, product owner, PM, sem considerar essas barreiras humanas, neurais e emocionais – e cuidar disso. Se não for assim, os resultados vão demorar para aparecer e os projetos podem patinar muito mais.

Inovar exige um monte de coisas. Porém, para que as portas das experiências futuras se abram para nós, antes de mais nada a inovação exige acolhimento, comunicação e direcionamento para desapego ao pré-estabelecido com grande entendimento de contexto.

 

Texto de Barbara Olivier, diretora executiva de Inovação e Tecnologia da Afferolab.

 

Referências

Mais Daniela Libâneo e Bárbara Olivier