s
Dileep Thazhmon, founder da Jeeves, fintech focada em gestão financeira para startups Foto: Jeeves; Edição: The Shift
ENTREVISTA

Jeeves, um unicórnio latino-americano que ruge

Em menos de 18 meses, a Jeeves captou US$ 368 milhões, tem mais de 3 mil clientes e atua em 24 países. Chega ao Brasil para apoiar startups com crédito sem burocracia

Por Silvia Bassi 18/10/2022

Nome de mordomo, cara de leão, porte de unicórnio. O crescimento acelerado da mexicana Jeeves, uma fintech que nasceu no meio da pandemia – iniciou operações em março de 2021 – e que já captou US$ 368 milhões em quatro rodadas de investimento praticamente consecutivas, prova que o mercado de cartões corporativos e gestão de despesas para startups é altamente competitivo e lucrativo. E que o Open Finance pode sim, dar muito certo. Especialmente na América Latina.

Entre o período de incubação, como uma das participantes do cohort de verão (2020) da aceleradora Y Combinator, até agora, a Jeeves já movimentou mais de US$ 1,3 bilhão em volume bruto de transações (GTV), está atuando em 25 países, tem mais de 4 mil clientes e espera atingir a marca de US$ 4 bilhões em transações até o final do ano. Ah, e é um unicórnio, avaliada em US$ 2,1 bilhões, que faz parte da lista de 100 Startups to Watch 2022, da Founders Beta.

No Brasil, o 24º país da lista, a Jeeves chegou em março deste ano e iniciou as operações em junho, primeiro com a oferta de duas linhas de crédito rápido (capital de giro ou de crescimento), sem exigência das garantias de bancos tradicionais, para startups com faturamento anual de pelo menos R$ 1,2 milhão. No final de setembro começou a ofertar no país seu cartão de crédito corporativo internacional, com bandeira MasterCard.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

A Jeeves é um caso interessante de BaaS (Banking as a Service) que nasceu para atuar de founder para founder, digamos assim, para resolver uma dor do mercado empreendedor internacional: apesar de ter clientes e movimentar grandes (ou razoáveis) somas de dinheiro, as startups sofrem com a dificuldade de conseguir crédito, e até mesmo um cartão de crédito, junto aos bancos e empresas do mercado financeiro tradicional.

“Não somos um banco e não trabalhamos com consumidores”, reforça Dileep Thazhmon, founder da Jeeves, em conversa com a The Shift. “A idéia da Jeeves é construir uma plataforma de gestão de despesas para empresas internacionais que estão crescendo muito rapidamente. Temos as linhas de crédito e temos os cartões, para as startups que crescem e não conseguem ter acesso a capital por meio de seus parceiros bancários locais, com velocidade. Vimos que havia um lacuna de mercado aí.”

Como uma grande parte das startups, a Jeeves nasceu de uma dor interna dos founders. “Antes de criar a Jeeves, eu dirigia outra empresa que estava sediada nos EUA e tinha um escritório em Israel. Uma das situações recorrentes no final do mês, com dois países, duas moedas e dois cartões diferentes, é que era muito difícil saber a posição de caixa da empresa e era complicado gerir os gastos em diferentes regiões.”

“Quando veio a COVID, vimos muitas empresas se internacionalizarem rapidamente e passarem a ter pessoas remotas em locais diferentes. As startups agora têm que ser capazes de suportar mais de um país, porque a empresa está baseada em um local, mas tem funcionários em outros países e também fornecedores e contratos internacionais. Havia uma lacuna aí”, explica Dileep.

A companhia atua hoje em quatro regiões: mercado de língua espanhola (América Latina e México), América do Norte (EUA e Canadá), Europa e, agora, o Brasil, que ganhou status de quarta região para a Jeeves, conta Dileep. “Vemos o Brasil com perspectivas de ter, nos próximos seis meses, o mesmo volume de transações e receitas que estamos gerando no México. E nos próximos 12 meses pode vir a ser nossa maior região na América Latina, ultrapassando o México. É uma grande economia. Os mercados de crédito estão mudando, as taxas de juros estão subindo e está mais difícil para as empresas ter acesso ao capital de risco e aos cartões internacionais.”

No final do dia, o pulo do gato da Jeeves é estar presente na hora certa, em um cenário em que o digital não tem fronteiras. O crédito facilitado (em tese) chega mais rápido e com menos burocracia e custos que o dos bancos ou mesmo dos VCs tradicionais. As startups são empresas digitais, em sua maioria, e seu produto (software) é fluido, para clientes em qualquer lugar do planeta. Os times são globais, muitas vezes, por conta da mudança de paradigma que foi reforçada com a pandemia.

A oferta de dinheiro em seis moedas diferentes e com canais de pagamento e transferência internacional é uma das vantagens atraentes da Jeeves que, como várias outras fintechs globais, está tirando proveito da Open Economy e o do Open Finance. Em uma entrevista à TechCrunch, Dileep comenta sobre o crescimento das oportunidades, apontando que o alvo é a oferta de infraetrutura de pagamentos sem fronteiras, em um modelo que tem os benefícios de ser banco sem o ônus de ser um.

“O que estamos tentando fazer é construir um relacionamento do tipo banco com o usuário final para que, se você precisar de pagamentos, possamos fazer isso. Se você precisar de empréstimo, nós podemos fazer isso. Se você precisar de depósitos, podemos dar a você. Se você deseja iniciar uma empresa, pode abrir uma conta conosco e ir para qualquer país com qualquer moeda que precisar”, disse Thazhmon ao TechCrunch. “O que separa o que fornecemos, de muitos players, é que temos nossa própria camada de infraestrutura, e esse é o produto real que se conecta às diferentes entidades bancárias em diferentes países.”

No final da conversa, fica a pergunta: por que uma empresa com nome de mordomo e logotipo de leão? “O nome que estava buscando era menos banking e mais humano. Jeeves é um ajudante financeiro para seu negócio, e eu tenho a teoria de que há cada 20 anos nomes de startups antigas se reciclam [referindo-se à startup Ask Jeeves, fundada em 1996, que depois mudou seu nome para Ask.com]”, explica. “Sobre o leão estilizado, ele veio quando fizemos nossa última rodada. Eu queria algo que fosse memorável, que fosse fácil de reconhecer e lembrar. E ele olha direto para você. É um rosto, em oposição a símbolos ou como círculos etc. Jeeves não é apenas o cartão. Não é apenas os pagamentos. É basicamente uma marca focada em ajudar você a administrar melhor seu negócio. Você se concentra em seu negócio e não tem que se preocupar com todas as coisas financeiras atrás”, finaliza.

Chega de embromação:

Entrevista

Chega de embromação: "temos que colocar dinheiro nas mãos das mulhe...

Para a CEO da socialtech B2Mamy, Dani Junco, só o dinheiro liberta. Por isso, as startups e as iniciativas de apoio ao empreendedorismo feminino devem receber mais cheques.

Inteligência Artificial

"Temos o dever de nos preocupar"

Em entrevista à The Shift, Reggie Townsend, diretor da prática de ética em dados do SAS, fala sobre o imperativo da ética para a IA e sobre ter um "viés positivo" nas aplicações de impacto.

Habilidades socioemocionais preparam as empresas para o futuro

Entrevista

Habilidades socioemocionais preparam as empresas para o futuro

Filip De Fruyt, Professor da Universidade de Ghent, na Bélgica e membro do conselho científico do eduLab 21, do Instituto Ayrton Senna, explica, em entrevista exclusiva à THE SHIFT, que perfis profissionais estão mais aptos a enfrentar...

Jeeves, um unicórnio latino-americano que ruge

Entrevista

Jeeves, um unicórnio latino-americano que ruge

Em menos de 18 meses, a Jeeves captou US$ 368 milhões, tem mais de 3 mil clientes e atua em 24 países. Chega ao Brasil para apoiar startups com crédito sem burocracia

O futuro através da cidadania climática

Entrevista

O futuro através da cidadania climática

Paulo Moutinho, cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - organização não governamental com 30 anos de atividade na Amazônia e no Cerrado - defende que o protagonismo do Brasil na solução climática mundial ocorra a...

Pete Flint:

Entrevista

Pete Flint: "Leve sua empresa para as corredeiras"

Para o investidor de risco Pete Flint, general manager da NFX, as empresas tradicionais e startups precisam seguir os trechos de água rápida do mercado, porque lá estão as tendências de futuro