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O setor de água e energia possui a maior parte das startups do tipo Unsplash/@chelseadeeyo

INOVAÇÃO

Startups ESG Enablers captam mais de US$ 1 bi na última década

Ao todo, 30 setores possuem startups com soluções em ESG. A maior parte delas está aglomerada no segmento de "água e energia", que possui 144 empresas

Por Marina Hortélio 20/07/2021

iFood e Hering se juntaram à climate tech brasileira MOSS para neutralizar suas emissões de carbono. As compensações são feitas por meio do MCO2, um token que usa tecnologia blockchain e é lastreado em crédito de carbono. A solução auxilia as empresas a atingirem metas de preservação ambiental. A MOSS é uma das 802 startups ESG Enablers nacionais mapeadas pelo Inside ESG Tech Report #2, do Distrito em parceria com a KPMG. Segundo o relatório, esse grupo de empresas captou mais de US$ 1 bilhão em investimentos na última década.

No primeiro semestre de 2021, as startups ESG Enablers receberam investimentos na ordem de US$ 89,8 milhões por meio de 34 aportes. A quantia é apenas ⅓ dos US$ 284,7 milhões captados em todo 2020. O ano recorde de investimento no segmento é 2019, que se destaca com seus US$ 391,3 milhões investidos. A tendência é que a quantidade de startups voltadas para implementação de práticas ESG cresça no Brasil e no mundo, segundo análise da sócia-líder de ESG da KPMG, Nelmara Arbex. Daqui para a frente, o mercado também tende a se reacomodar.

“Estamos em um momento em que vemos pela primeira vez esse universo de soluções das startups. Daqui a pouco, vamos começar a perceber quais realmente têm futuro porque é preciso estar muito conectado com uma questão concreta para crescer. As startups que conseguirem ligar duas pontas que estavam desconectadas ou oferecer uma solução bem específica, devem começar a ter um crescimento mais rápido”, afirma Nelmara.

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O tipo de funding recebido pelo ecossistema de startups com soluções ESG corrobora esse argumento. Existe uma predominância de rodadas Pre-seed, Seed e Series A. Em 2021, foram 12 investimentos Seed e apenas um Series C.

É preciso maior apoio por parte de grandes empresas, investidores e políticas governamentais para fomentar um crescimento mais acelerado desse mercado. O Brasil ainda está em um momento inicial do movimento das empresas de tecnologia ligadas às práticas ESG. A expectativa de Nelmara Arbex é que hubs para startups atuantes no segmento apareçam em várias regiões do país com o passar do tempo.

O Brasil tem um grande potencial para o setor, mas é preciso criar uma sinergia entre os players já atuantes no mercado. “Faltam escolas no país. Não necessariamente escolas de negócios e formação universitária, mas centros para criar gente que saiba falar de carbono, economia circular, diversidade, inclusão e discriminação. Precisamos ter mais gente preparada porque quando você está preparado e entende os problemas, começa a ter ideias para as soluções com uso tecnologia”, pontua a sócia-líder de ESG da KPMG.

Especificamente no mercado de carbono, o Brasil está atrás de outros países. Entretanto, o potencial nacional para certificação dos créditos é enorme, segundo a General Manager da MOSS, Fernanda Castilho. “É um mercado ainda muito incipiente no país. Acho que principalmente quando a gente compara com mercados regulados como o europeu, que por ser regulado tem muitas empresas e soluções que já existem há tempos. Por aqui, as oportunidades são gigantes e esse setor só tende a se desenvolver cada vez mais”.

Para a MOSS, o grande desafio é a falta de conhecimento sobre o mercado de carbono. “A gente passou boa parte do ano passado se apresentando e educando as pessoas porque é um assunto muito novo no país”, explica Fernanda.

As neutralizações de carbono da MOSS são feitas pelo Token MCO2, que foi lançado em 2020. O processo começa com a startup obtendo créditos de carbono de quatro projetos na Amazônia. Esses créditos são transformados em token com a tecnologia blockchain e, então, os ativos podem ser comprados na plataforma da climate tech ou em Crypto Exchanges nacionais e internacionais.

“O mercado de crédito carbono era bem analógico e a gente trouxe a tecnologia. Com os ativos, a gente também possibilitou o fracionamento e isso é interessante porque um crédito de carbono equivale a uma tonelada de CO2. Isso é muita coisa. Ao fracionar, a gente abriu a porta para diversas soluções para empresas e pessoas físicas compensassem as suas pegadas”, explica Fernanda Castilho.

Pressão do mercado

Qualquer pessoa pode usar o Token MCO2 para compensar suas emissões. O site da empresa possui uma calculadora que analisa a rotina de cada indivíduo e aponta o valor que deve ser desembolsado para reduzir a pegada de carbono. Na visão da General Manager da MOSS, o interesse das pessoas físicas pela compra de créditos de carbono é crescente no Brasil, especialmente entre os mais jovens.

A sócia-líder de ESG da KPMG concorda que a preocupação com os critérios ESG é mais efervescente entre os Millennials e a Geração Z, mas ela percebe que também existe uma penetração dessa agenda entre pessoas mais velhas. Essa atenção com a governança, o meio ambiente e a sociedade interfere nas escolhas individuais de consumo e investimento.

“Não se pode dizer que é um movimento só de jovens. Acho que a gente está em um momento muito interessante. Os jovens estão dando um puxão único, mas não são só eles. Temos esse tipo de tendência em vários grupos sociais e diferentes faixas etárias”, explica Nelmara Arbex.

Apesar de oferecer uma solução para pessoas físicas, as empresas ainda são o grande foco da MOSS. No ano passado, a startup viu a demanda empresarial pelas suas soluções aumentar. Castilho credita o movimento à pandemia e a pressão social.

“É uma pressão que as empresas já vinham sofrendo e a pandemia só acelerou. As pessoas perceberam que essa questão das mudanças climáticas não dá mais para ser ignorada, soluções precisam ser criadas e as pessoas precisam de fato começar a se preocupar com isso”, pontua.

A crise climática também é ruim para os negócios. Um estudo divulgado pela resseguradora Swiss Re aponta que o mundo pode perder até 18% da produção econômica até 2050 se nenhuma ação for tomada para barrar mudanças climáticas. Já se a temperatura global ficar dentro dos 2ºC determinados pelo Acordo de Paris, o PIB global deve reduzir em apenas 4%. Sendo assim, é natural que os investidores também estejam preocupados com os critérios de sustentabilidade.

Quando se trata da construção de mudança climática, a tecnologia é uma grande aliada. Por isso, também é importante que as startups do setor recebam apoio. “No momento que estamos, para encontrar as soluções na velocidade que precisamos, temos que combinar o entendimento de que estamos intrinsecamente ligados ao meio ambiente com soluções tecnológicas”, afirma Arbex.

A própria criação da MOSS segue o mesmo princípio de que a tecnologia é fundamental para atingir as metas de redução das emissões. “Para reduzir as emissões, é preciso investir em novas tecnologias e processos, isso leva tempo e dinheiro. As empresas não conseguem fazer isso de uma hora pra outra. Em compensação, elas podem compensar as suas pegadas com crédito de carbono. Então, a gente viu aí uma oportunidade gigante de contribuir de fato para essa questão da redução das emissões”, explica Fernanda Castilho.

Soluções por categoria

As startups ESG Enablers são bem divididas entre as categorias. O destaque vai para o setor ambiental, com 289 empresas ou 35,99% do total. Outras 272 companhias de tecnologia oferecem soluções sociais e 241 focam na governança corporativa.

Em termos de investimento, a categoria social sai na frente por ter abocanhado US$ 710,4 milhões nos últimos dez anos. As startups do setor de governança corporativa captaram US$ 156,6 milhões no período. Com apenas 14,68% dos aportes, o segmento ambiental recebeu apenas US$ 149,1 milhões entre 2011 e 2021.

Ao todo, 30 setores possuem startups com soluções em ESG. A maior parte delas está aglomerada no segmento de “água e energia”, que possui 144 empresas. Neste grupo, as soluções variam de gestão e otimização de energia ou água até a geração de energia limpa.

gráfico mostra divisão de startups de práticas ESG por setor

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