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À frente do Negócio de Carbono na América Latina, Marina Menin explica por que a agricultura regenerativa deixou de ser agenda ambiental e passou a ser pilar de competitividade, Escopo 3 e escala industrial (Crédito: Divulgação)
ENTREVISTA

Agricultura regenerativa e carbono como vantagem competitiva

Marina Menin detalha como a plataforma PRO Carbono da Bayer conecta ciência, dados primários e mercado para tornar a agricultura regenerativa um motor de produtividade, renda e descarbonização na América Latina

Por Soraia Yoshida 11/02/2026

A agenda climática global costuma apontar o campo como parte do problema. Marina Menin prefere inverter a lógica: a agricultura pode – e deve – ser parte central da solução. À frente do Negócio de Carbono da Bayer para a América Latina, ela lidera as iniciativas da plataforma PRO Carbono, que reúne soluções regenerativas e conecta produtores, indústria e mercado em torno de um objetivo comum: tornar a descarbonização um vetor de competitividade e renda.

“A agricultura é uma indústria a céu aberto. No final do dia, quem é mais impactado por aquilo que está acontecendo com o clima é o próprio agricultor”, diz Marina. Para ela, discutir carbono no Brasil e na América Latina sem olhar para a agricultura é ignorar o elo mais estratégico das cadeias produtivas. Foi a partir dessa visão que a Bayer decidiu usar seu “know-how de pesquisa e desenvolvimento” – que somou quase 3 bilhões de euros investidos apenas no último ano – para escalar a agricultura regenerativa.

A jornada começou há cinco anos, com a construção de um ecossistema robusto: mais de 45 especialistas, 19 instituições de pesquisa, entre elas a Embrapa, e cerca de 2 mil agricultores que abriram suas áreas para aprofundar o conhecimento técnico sobre carbono na agricultura tropical. “Quando olhava para carbono, muito do que tinha de padrão, de metodologia, não traduzia a forma como a agricultura tropical era realizada”, explica Marina. O desafio, então, foi desenvolver ferramentas capazes de medir e comprovar resultados com base na realidade local.

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Hoje, a plataforma reúne mais de 3 mil agricultores e quase 3 milhões de hectares monitorados na região. Nas áreas participantes, a adoção de práticas regenerativas como plantio direto, rotação de culturas e uso de plantas de cobertura resultou, em média, em 11% de aumento na produtividade anual e 9% de ganho em estabilidade produtiva. Em soja, a pegada de carbono registrada é cerca de 50% menor do que a média nacional, podendo superar 70% com melhorias adicionais de manejo.

Mas, para Marina Menin, o ponto central nunca foi vender sustentabilidade como obrigação. “A conversa é sobre sustentabilidade do negócio”, diz. “Não é sobre uma obrigação, do tipo ‘Você precisa fazer isso porque precisa reduzir suas emissões’. É uma conversa relacionada ao solo, que é um organismo vivo.” O que move o produtor, segundo ela, é a longevidade da atividade, a produtividade adicional, a estabilidade em um cenário de instabilidade climática crescente. E, só depois, o carbono como camada adicional de valor.

“O carbono entra na conversa como algo que vai somar a tudo o que ele já faz.” E esse “já faz” não é pouco. “O agricultor brasileiro, em média, já adota 10 práticas de agricultura regenerativa em comparação com 7 práticas de agricultores no restante do mundo”, ressalta. O desafio, portanto, é reconhecer, medir e rentabilizar esse esforço, conectando-o às metas de Escopo 3 da indústria e às exigências de rastreabilidade dos mercados globais.

Para os próximos anos, a ambição é clara: consolidar a posição da Bayer como plataforma de soluções regenerativas para a América Latina, ampliando a base atual e evoluindo para projetos de crédito de carbono e integração com novas cadeias, como a de biocombustíveis. No curto prazo, o foco está em dois pilares que, segundo Marina, determinam o sucesso nesse mercado: “Primeiro, credibilidade. Segundo, a questão da escalabilidade.”

“Não é apenas sobre viabilizar um acesso ao mercado de carbono, é mais do que isso, é sobre garantir o futuro da atividade deles.” Em um país que tem na agricultura uma de suas principais vocações, a executiva acredita que há espaço para co-construção e protagonismo. “A agricultura é uma das principais atividades do nosso país. É uma vocação do Brasil.” E, se depender da convergência entre ciência, dados primários e colaboração, o campo brasileiro pode deixar de ser visto apenas como emissor para se afirmar como motor da transição verde.

 

Agricultura no centro da agenda climática

A Bayer enxerga a questão da mudança climática não só pelo aspecto biológico, de oportunidade agronômica, mas justamente porque a agricultura faz parte da cadeia produtiva de uma série de outras indústrias. Pensando na redução de emissão de gases, não se pode falar disso globalmente, principalmente aqui na nossa região, sem  olhar com um pouquinho mais de carinho e cuidado para a agricultura. 

A agricultura é uma indústria a céu aberto. No final do dia quem é mais impactado por aquilo que está acontecendo com o clima é o próprio agricultor.

Eu acho que é dever da indústria que se relaciona com esse agricultor entender como colaborar para minimizar o impacto da mudança climática e da instabilidade que vem com ela. Foi por conta disso que a Bayer viu uma oportunidade de usar todo o know-how de pesquisa e desenvolvimento. Só no último ano foram quase 3 bilhões de euros investidos para trazer inovações para o mercado. A Bayer entendeu que a grande chave era escalar a agricultura regenerativa.

Na Bayer, nós acreditamos que é muito menos sobre o negócio e muito mais sobre práticas para avançar esse potencial transformador, de olhar para o sistema como um todo e entender como as coisas evoluem a partir disso.

 

Da ciência à plataforma: cinco anos de construção

Começamos essa jornada cinco anos atrás usando a nossa base de conhecimento, nos conectando com uma rede muito forte e muito capacitada no Brasil e na Argentina.

São mais de 45 especialistas, 19 instituições de pesquisa, entre elas a Embrapa no Brasil, mais de 90 consultores que são as pessoas que conhecem de fato a agricultura localmente no aspecto micro. A gente olhou para um plano com quase 2 mil agricultores para entender qual é a realidade do carbono. 

Quando formamos esse ecossistema na fase inicial, o propósito era contribuir e atuar para representar a agricultura tropical. O padrão, a metodologia aplicada ao carbono era global, faltava esse olhar local. Então, com base nos conhecimentos gerados dentro desse ecossistema de pesquisa, nos saberes dos 2 mil agricultores que cederam suas áreas para que a gente pudesse aprofundar esse conhecimento técnico, foi que chegamos ao desenvolvimento de ferramentas capazes de olhar para carbono, traduzindo a agricultura tropical.

Em 2024, ficou claro que tínhamos uma base muito robusta, muito preparada, com conhecimento e ferramentas concretas que traduziam toda essa ciência para a agricultura tropical em algo palpável. E aí começamos a transição da iniciativa que visava entender melhor o negócio do carbono para uma unidade de negócio que acelerou em 2025, que foi um ano de virada de chave, em que consolidamos o histórico que vinha sendo construído em algo tangível, capaz de escalar a agricultura regenerativa como um negócio rentável para o agricultor e a indústria.

 

Ferramentas para medir, comprovar e escalar

Um exemplo de ferramenta desenvolvida é a Calculadora de Footprint (Calculadora de Carbono), desenvolvida juntamente com a Embrapa, e que é uma fonte de um orgulho enorme. Hoje temos muitos projetos em que utilizamos a calculadora, usando dado primário e que nos mostram como é realizada a agricultura no nosso país.

Outro exemplo é o PRO-CS, um modelo que também foi desenvolvido junto com a Embrapa Agricultura Digital para ajudar a prever a dinâmica de carbono no solo. Vai ser uma ferramenta super importante para baratear custos desses projetos e garantir escalabilidade e aplicabilidade.

A plataforma PRO Carbono olha tanto para o agricultor que tem interesse em fazer parte desse mercado, se adequar, entender agronomicamente onde estão as oportunidades dele na perspectiva de agricultura regenerativa, quanto para indústrias que têm metas de redução de emissões ou que gostariam de colocar em prática iniciativas de agricultura regenerativa para causar um impacto real.

 

Engajar o produtor: longevidade antes de carbono

Quando a gente senta para conversar com o agricultor sobre o que estamos fazendo, não é sobre uma obrigação, do tipo “Você precisa fazer isso porque precisa reduzir suas emissões”. É uma conversa relacionada ao solo, que é um organismo vivo.

Os agricultores querem que seu negócio perdure e que suas famílias possam se beneficiar por mais gerações. Para viabilizar a longevidade do negócio, é preciso mostrar que o caminho é adotar as práticas de agricultura regenerativa. 

Quando a gente aborda o tema da agricultura regenerativa como parte da solução para os efeitos da mudança climática, muitas vezes a gente não está traduzindo a realidade. O agricultor brasileiro, em média, já adota 10 práticas de agricultura regenerativa em comparação com 7 práticas de agricultores no restante do mundo. Plantio direto, plantio biológico, eles já fazem isso. O nosso olhar, portanto, é como ele pode melhorar aquilo que já faz.

Pela prática, mostramos como esse agricultor pode ter um crescimento de 11% na produtividade anual, um aumento em torno de 9% de estabilidade produtiva. Essa é a chave para falar com essa indústria a céu aberto. E mostramos que, ao fazer parte do ecossistema e usar a plataforma, ele pode participar de um mercado que reconhece esse esforço de intensificar a prática da agricultura regenerativa. A gente viu aqui nas nossas áreas uma redução em torno de 50% quando comparada com a média nacional. Pegada de carbono em torno de 55% menor frente à média nacional. O carbono entra na conversa como algo que vai somar a tudo o que ele já faz.

O grande sucesso que temos com essa jornada vai além da construção colaborativa: está em reconhecer a importância de cada uma das etapas do processo. Não é apenas sobre viabilizar um acesso ao mercado de carbono, é mais do que isso, é sobre garantir o futuro da atividade dos agricultores.

 

2026 em diante: credibilidade e escala

No curtíssimo prazo, a primeira coisa é consolidar nossa posição como plataforma de soluções regenerativas para a América Latina. Comprovamos de forma muito consistente que é possível escalar. O grande desafio está relacionado a dois elementos: credibilidade e escalabilidade.

Muitas empresas têm credibilidade, mas não conseguem escalar. Ou então têm escalabilidade, mas não contam com a credibilidade que o mercado exige. Nesse segmento de Sustentabilidade, existe uma preocupação muito grande com o impacto mensurável das iniciativas. Como Bayer, a gente tem os dois.

Somente na área de Carbono, somos em torno de 70 pessoas olhando única e exclusivamente para esse negócio. Todos os movimentos são feitos após muito estudo, para garantir consistência com a nossa história e com quem a gente é como companhia.

Para 2026, o objetivo é consolidar essa visão, ampliar essa área de quase 3 milhões de hectares mensurados pela plataforma e ter mais indústrias desenvolvendo projetos com a gente. No Brasil, existe uma grande oportunidade em recuperação de áreas degradadas e acreditamos que combinar recuperação e agricultura regenerativa sob o foco do carbono é uma baita oportunidade para nossa atividade crescer, sem necessariamente crescer em área monitorada.

 

O papel do Brasil na descarbonização

A agricultura é uma das principais atividades do nosso país. É uma vocação do Brasil.

A partir do momento que a gente consegue unir essa cadeia como um todo para intensificar essa transformação verde, ao invés de sustentar a posição do “nós contra eles”, eu entendo que o potencial é muito grande.

Quando se entende que para ter mudanças significativas é preciso atuar em conjunto e ser criativo, aí é uma coisa que a gente aqui no Brasil sabe fazer muito bem. Se tem um povo que é resiliente, criativo e entende como seguir em frente, é o brasileiro. O brasileiro tem muito em vista o problema a ser resolvido e ele não tem um caminho único para chegar lá. A gente consegue vislumbrar vários rumos. E essa é a grande oportunidade para trazer impacto real.

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