s
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A corrida da IA é vencida (ou perdida) na camada de dados

Relatórios da IBM e da Deloitte apontam na mesma direção: empresas só extraem valor de IA quando CDOs garantem governança, integração e métricas consistentes para os dados.

Sua estratégia de IA é tão forte quanto sua base de dados. Então, por que os dados essenciais para sua estratégia de IA ainda residem em silos funcionais — finanças, RH, vendas, cadeia de suprimentos, jurídico — cada um com seus próprios padrões, taxonomias e ferramentas? E por que sua capacidade de disponibilizar dados de alto valor continuamente para pessoas e sistemas de IA, de forma confiável e controlada, é tão baixa?

Essas questões permeiam o “Chief Data Officer Study 2025“, do IBM Institute for Business Value. Dos 1,7 mil Diretores de Dados (CDOs) ouvidos — de 19 setores e 27 regiões — só 26% estão confiantes de que suas capacidades de dados podem suportar novos fluxos de receita habilitados por IA. Outro número igualmente preocupante: apenas 29% dizem ter métricas claras para medir o valor gerado por iniciativas de dados e IA. O diagnóstico é: as empresas querem IA, mas não têm dados prontos para IA. E, sobretudo, não sabem medir valor.

O que isso significa, na prática? Que a governança de dados precisa ser, de fato, a prioridade em 2026 — e não somente parte do discurso — como mostra o “2025 CDO Survey“, da Deloitte. No relatório, 51% dos CDOs afirmam que governança é prioridade máxima, e 73% estão investindo em tecnologias de gestão e governança. Mas a mesma pesquisa mostra os obstáculos: 47% dizem que prioridades concorrentes impedem extrair valor dos dados, 48% citam limitações de orçamento e recursos como gargalo na adoção de IA, e 35% apontam que o déficit de competências freia a implementação da estratégia de dados.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

Esses achados ajudam a explicar por que a IA tem avançado de forma tão desigual entre organizações — e por que o conceito de “efeito multiplicador da IA” se tornou central no estudo da IBM. A expressão não é metafórica: refere-se à constatação empírica de que a IA multiplica tudo aquilo que encontra — valor, velocidade, produtividade, eficiência, inovação — mas também caos, inconsistências, vieses, riscos e custos. E essa multiplicação é proporcional ao estado da arquitetura de dados.

1. Multiplicador de velocidade
A IA reduz drasticamente o tempo entre dados → insight → ação.
Exemplos citados:

  • Agentes de IA capazes de acessar dados de múltiplos sistemas sem centralização.
  • Automatização de tarefas intensivas, como matching de documentos na Medtronic (de 20 minutos para 8 segundos) .

Síntese: quanto melhor o acesso a dados, mais rápido a IA entrega valor.

2. Multiplicador de escala
A capacidade de escalar IA depende da capacidade de escalar acesso a dados de alta qualidade.

No relatório:

  • 75% dizem já possuir plataformas capazes de integrar dados entre silos.
  • 81% afirmam que agora “levam a IA aos dados”, e não o contrário.
  • 74% já operam com atualização contínua/near real time.

Esses movimentos ampliam o alcance da IA para múltiplos fluxos de trabalho, multiplicando impacto.

3. Multiplicador de resiliência
A IBM descreve que IA amplifica tanto o valor quanto o risco dos dados.
O “efeito multiplicador” ocorre quando:

  • agentes de IA passam a monitorar qualidade, detectar anomalias e reforçar governança
  • data lineage, contratos de dados e políticas de uso se tornam automáticos

Resultado: fluxos de dados mais confiáveis → IA mais confiável → decisões melhores.

4. Multiplicador de inovação
Com dados acessíveis e combináveis:

  • a IA revela padrões invisíveis a humanos
  • permite criar data products e novos serviços baseados em dados proprietários
  • destrava o uso de dados não estruturados, que carregam contexto e nuance

Isso multiplica o número de novos casos de uso possíveis.

5. Multiplicador de crescimento
Empresas que organizam seus dados para IA conseguem:

  • criar novos fluxos de receita
  • monetizar dados proprietários
  • gerar ROI maior em IA e em dados (p.32–35)

Ao contrário, empresas sem essa base veem a IA gerar pouco impacto — não por falha da IA, mas por falta de dados utilizáveis.

Em resumo…

Se a arquitetura é sólida — acessível, íntegra, governada, integrada — a IA multiplica impacto.

Se a arquitetura é frágil — fragmentada, redundante, inconsistente — a IA multiplica problemas.

Esse é o ponto de maior convergência entre IBM e Deloitte: IA não cria valor de forma isolada; ela apenas amplifica o valor dos dados que encontra. É um multiplicador — positivo ou negativo. E isso coloca o CDO no centro da equação.

A partir desse ponto, os dois estudos tratam a função do CDO como o principal determinante do grau de aproveitamento da IA. Ambos descrevem uma relação direta entre maturidade de dados e impacto da IA. A variação entre empresas não deriva de diferenças tecnológicas, e sim de diferenças na capacidade de estruturar, padronizar e disponibilizar dados de forma contínua.

O relatório da IBM organiza esse diagnóstico em cinco eixos: estratégia, escala, resiliência, inovação e crescimento. Em estratégia, destaca a necessidade de alinhar o plano de dados ao roadmap tecnológico. 81% dos CDOs afirmam que esse alinhamento passou a ser essencial para habilitar IA em larga escala. Em escala, o estudo registra que 75% já possuem plataformas capazes de integrar dados entre silos quando necessário. Em resiliência, 83% avaliam que os benefícios de agentes de IA superam os riscos, desde que haja governança consistente. Em inovação, somente 26% afirmam conseguir extrair valor de dados não estruturados. Em crescimento, 78% colocam o uso estratégico de dados proprietários como prioridade competitiva.

A Deloitte apresenta outra estrutura, baseada em três dimensões — visão, controle e influência — e mostra que o impacto do CDO depende da capacidade de atuar nesses três eixos simultaneamente. Em visão, o estudo registra necessidade de alinhar estratégia de dados aos objetivos corporativos. Em controle, detalha restrições relativas à distribuição de orçamento e lacunas de competências. Em influência, 54% dos CDOs se percebem menos influentes que outros executivos do C-level, o que reduz a capacidade de coordenar esforços de transformação.

Os dois estudos convergem ao mostrar que a qualidade da arquitetura de dados define o potencial de impacto da IA. Organizações com baixa maturidade concentram seus esforços em governança, estratégia e qualidade, enquanto organizações de alta maturidade priorizam IA/GenAI e data products. A diferença entre esses dois grupos não é tecnológica; é organizacional.

Ambos os relatórios indicam também que mensuração de valor é ponto crítico. A IBM registra que apenas 29% possuem métricas claras de valor. A Deloitte mostra dependência de métricas indiretas, como eficiência operacional, compliance e uso ampliado de analytics. A ausência de métricas objetivas limita o efeito multiplicador porque impede priorização e avaliação de retorno.

Outro elemento comum é o papel da cultura. A Deloitte registra cultura como principal barreira à adoção da estratégia de dados em diversos setores. A IBM indica resistência a mudanças como barreira relevante à inovação. Quando a cultura não sustenta práticas de uso de dados, a IA opera sobre base instável, o que afeta qualidade e consistência dos resultados.

Esse conjunto de evidências posiciona o CDO como responsável direto por criar condições para a IA entregar resultados mensuráveis. A função passa a ser avaliada pela capacidade de estabelecer padrões, garantir continuidade e apoiar fluxos de dados consistentes.

A conclusão dos dois relatórios é objetiva: o efeito multiplicador da IA depende da estruturação de dados conduzida pelo CDO. Quando arquitetura, governança, qualidade, acesso e segurança estão estabelecidos, a IA amplia o valor. Quando essas condições não existem, a IA amplia limitações existentes.

“Poderíamos acelerar pelo menos 10 vezes antes de chegar nos limites”, diz Jon Aniano da Zendesk

Inteligência Artificial

“Poderíamos acelerar pelo menos 10 vezes antes de chegar nos limite...

Com 2.000 pessoas em desenvolvimento de produto e a meta de ter 100% do time focado em IA até o fim do ano, ele fala sobre o que ainda não foi desmontado e o que mudou para sempre

“A estratégia importa, mas a execução vence”: o COO da Zendesk sobre IA e atendimento ao cliente

Inteligência Artificial

“A estratégia importa, mas a execução vence”: o COO da Zendesk...

Craig Flower, recém-nomeado COO da Zendesk, explica como a empresa saiu de 20% para 65% de auto-resolução no próprio atendimento — e o que isso significa para qualquer empresa que queira usar IA de verdade

A IA quer um corpo

Inteligência Artificial

A IA quer um corpo

A indústria aposta que a próxima interface computacional é o espaço físico. Os dados de investimento sustentam a tese. Os casos de uso, ainda não.

Zendesk aposta na IA Agêntica para levar CX ao próximo nível

Inteligência Artificial

Zendesk aposta na IA Agêntica para levar CX ao próximo nível

Na conferência anual em Denver, a Zendesk apresentou soluções que integram agentes e copilotos em uma força autônoma que deixa para os humanos as decisões mais complexas

Tom Eggemeier: “Isso é maior do que a revolução industrial”

Inteligência Artificial

Tom Eggemeier: “Isso é maior do que a revolução industrial”

Tom Eggemeier percorreu Milão, Madri e Atenas e encontrou executivos pedindo mais velocidade, não menos. Na conferência anual da empresa, ele explica por que 80% de suas conversas com clientes já não são sobre atendimento ao cliente �...

IA, a colega que isola

Inteligência Artificial

IA, a colega que isola

O lançamento dos interaction models pela Thinking Machines redefine a fronteira entre homem e máquina. Mas cuidado: a tecnologia que resolve o gargalo técnico pode ser a mesma que atrofia as habilidades sociais do seu time.