Desde 2000, mais de 30 mil deep techs foram criadas globalmente e juntas valem hoje US$ 7,6 trilhões, uma valorização de 23% sobre os números de 2024. No ano passado, essas startups que focam em deep science atraíram US$ 122 bilhões em venture capital e chegaram a 16% de todas as startups apoiadas por VC, a maior fatia em 15 anos. No grande esquema global, o Brasil aparece na 53ª posição entre 139 economias, segundo o recém-publicado “Global Innovation Index 2026” (GII) da WIPO (Organização Mundial da Propriedade Intelectual), que destaca um país que faz mais do que sua renda sugere, mas que ainda não consegue transformar a melhor base científica da região em empresas de fronteira capazes de escalar.A publicação traz boas e más notícias para o Brasil. Vamos começar por três pontos positivos:
Entre os pontos fortes, aparecem o tamanho do mercado doméstico (8º), a atividade de registro de marcas (8º), os pagamentos por propriedade intelectual (13º), o venture capital em estágio avançado (16º), os investidores corporativos globais em P&D (23º) e os modelos de utilidade (24º). São Paulo se mantém como o 49º maior cluster de inovação do mundo, um dos dois da região no top 100. O outro é a Cidade do México, em 82º lugar.
Passando para as más notícias, o Brasil perdeu uma posição no ranking geral em relação ao ano passado. Na América Latina e Caribe, aparece em 2° lugar, atrás do Chile (51º) e à frente de México (65º), Uruguai (66º) e Costa Rica (70º). A Argentina aparece em 75º lugar. Outros freios também aparecem no relatório:
No conjunto, o país ocupa a 66ª posição em insumos de inovação e a 50ª posição em resultados. O relatório aponta que, das 39 economias que ficam abaixo do esperado, a maioria está na América Latina e Caribe.
Se o estoque de deep techs brasileiras é pequeno na comparação global, o ritmo chama atenção. Entre 2020 e 2025, o número de startups de deep science no Brasil cresceu 96,3%, o que coloca o país entre as economias de renda média que mais avançaram, ao lado da Turquia (118%), Índia (117%), Malásia (117%) e África do Sul (71%). A região da América Latina e Caribe como um todo cresceu 71% no período, mais do que a América do Norte e a Europa, embora a partir de uma base muito menor. Para efeito de comparação, a China cresceu 138%, e os Estados Unidos, 30%.
O relatório da WIPO destaca o desempenho de algumas startups da região. A brasileira New Wave, do setor de energia, fundada em 2019, é a deep tech mais valiosa entre as economias de renda média e baixa depois da indiana Laurus Labs (excluída a China), avaliada em US$ 480 milhões e com US$ 120 milhões captados. Em seguida vem a argentina Bioceres Crop Solutions (US$ 257 milhões). Em patentes, o top 5 regional é liderado pela chilena NotCo (21 famílias de patentes) e inclui as brasileiras HiLab (10), de dispositivos médicos e saúde digital, e Warp Drive Bio (9), de Ciências da Vida. A WIPO também cita a Biotimize, spinout da Unesp, como sinal do amadurecimento da base de pesquisa em Lifescience da região.
Metade das deep techs têm patentes, contra 15,4% das demais startups, de acordo com dados do GII. Nesse tipo de negócio, a patente costuma ser o único ativo verificável durante os anos que separam a invenção das primeiras vendas.
O diagnóstico da WIPO para a região é que a América Latina tem ativos importantes, mas “concentrados em poucas economias” e sem formar um “motor regional”. Pesquisa, empreendedorismo e acesso a mercados “ainda não estão conectados com força suficiente” para transformar ideias em tecnologia, exportações e produtividade. Chile (41º em insumos e 70º em resultados), Uruguai e Costa Rica investem mais do que conseguem converter.
O contexto global agrava o desafio. O VC mundial cresceu cerca de 28% em 2025, para US$ 510 bilhões, mas a Inteligência Artificial ficou com 53% do valor dos negócios, fatia que subiu para 77% no primeiro semestre de 2026. Em 2026, pelas estimativas da WIPO, a América do Norte deve concentrar 72,6% do valor global de VC, enquanto todo o “resto do mundo” fora da América do Norte, Europa e Ásia, o que inclui a América Latina, deve ficar com 1,6%.
O financiamento é o ponto crítico: citando o Latin American Dynamism Project (LADP), o Global Innovation Index informa que 72% das startups intensivas em Ciência da América Latina param na fase seed, apenas 19% chegam à Série A, e só 22 empresas na história da região avançaram para a Série B ou além. No Brasil, segundo os autores de duas contribuições especiais ao relatório, 70% do financiamento das startups de deep science vêm exclusivamente de fontes públicas.
O tracker da WIPO considera apenas empresas com apoio de venture capital. Já o “Radar Latam 2026” da Emerge, que inclui empresas apoiadas por fomento público, mapeia 1.746 deep techs em 12 países latino-americanos, das quais 1.269 (72,7%) são brasileiras, seguidas por Argentina (154), Chile (103), Colômbia (84) e México (77). A distância entre 53 que receberam aportes de VCs e 1.269 que ainda dependem de fomentos públicos é o próprio diagnóstico do cenário: a imensa maioria das deep techs brasileiras ainda não chegou ao radar do capital de risco. No Brasil, 77,8% das empresas captaram menos de US$ 500 mil, e apenas 13,3% passaram de US$ 1 milhão. O Radar também registra que a base brasileira cresceu 33,4% em relação a 2025 (de 952 para 1.269 empresas), o que, segundo a Emerge, pode refletir tanto a expansão de programas de fomento quanto melhorias na metodologia de mapeamento. São Paulo concentra 589 empresas (46,4%), e quatro estados reúnem 70,7% do total, o que conversa com a leitura do GII sobre a concentração em São Paulo.
Na América Latina, o recurso público alcança 54,2% das deep techs, e o privado, 35,6%. Mas o capital privado responde por 81,2% do volume investido (US$ 1,68 bilhão de um total de US$ 2,07 bilhões), com ticket médio 11,5 vezes maior que o público. Só 14,4% das empresas combinam as duas fontes, e 24,7% não receberam nenhuma. A Emerge observa ainda que o Brasil é o único país da região em que capital público e privado alcançam volumes relativamente equilibrados.
O Brasil tem 72,7% das deep techs latino-americanas, mas recebe 30,2% do capital, cerca de US$ 0,49 milhão por startup. O Chile, com 5,9% das empresas, capta 37,4% dos recursos (US$ 7,5 milhões por startup), com 73% concentrados em três empresas, sendo a NotCo responsável por US$ 466 milhões. Entre as fontes privadas no Brasil, venture capital (9,61%) e investimento-anjo (8,9%) chegam, cada um, a menos de 10% das deep techs. Entre as públicas, lideram Finep (30%) e Fapesp (23,3%).
As duas leituras convergem em um ponto: o Brasil não sofre de falta de ciência nem de empreendedores, mas da ausência de um caminho financiado entre o laboratório e a escala. A própria WIPO resume que, nas deep techs, a industrialização, e não a invenção, passou a ser a restrição decisiva. É exatamente nesse trecho que a América Latina ainda perde suas melhores apostas.
O relatório do GII aponta que o que limita o avanço atualmente é a industrialização, e não a invenção. Os riscos se concentram nas passagens da pesquisa para a prova de conceito, do piloto para a operação comercial e da tecnologia para a empresa lucrativa. O Radar confirma isso com dados latino-americanos. Cerca de 66% das deep techs da região já estão entre os níveis de maturidade tecnológica TRL 6 e 9, ou seja, superaram boa parte do risco técnico. Mesmo assim, 32,9% ainda não têm uma estratégia de propriedade intelectual definida, e, nos três ativos-âncora da região, há 24 publicações científicas para cada patente depositada.
A demanda é outro ponto em que os dois estudos se encontram. O GII cita o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI) brasileiro, que permite contratos de até US$ 1,5 milhão, como exemplo de instrumento para ativar o comprador. O Radar mostra o tamanho da distância entre a ferramenta e o uso: as compras públicas aparecem em apenas 0,3% das deep techs brasileiras.
O Radar propõe uma leitura complementar à da WIPO. A vantagem latino-americana estaria em ativos que “nenhum orçamento replica”: biodiversidade, agroecossistema tropical, biomassa, minerais críticos, água e território. O agroecossistema tropical (571 empresas) e a diversidade biológica (142) somam 48,3% das deep techs classificadas. Biotecnologia é a tecnologia dominante, com 801 empresas na região, e no Brasil Agro & Alimentos (427) e Saúde & Bem-estar (407) reúnem 65,7% da base.
A recomendação da WIPO é financiar toda a cadeia de tradução da ciência, com prova de conceito, plantas-piloto e capital paciente, e ativar a demanda por meio de compras públicas e clientes-âncora. A Emerge defende especializar em vez de pulverizar e levar as empresas que já existem ao ponto em que o capital privado consiga entrar. O Brasil tem ciência, escala e volume de empresas. Falta convertê-los em empresas com tecnologia protegida, capital de escala e clientes instalados.
O Global Innovation Index 2026, da WIPO, mostra que o Brasil inova acima do esperado para sua renda e tem a base científica mais profunda da região
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