A palavra que define o momento para startups é “seletivo”: serve tanto para investidores quanto para quem está tentando fazer sua empresa decolar. Para as agtechs, é a mesma coisa. Publicado há alguns dias, o relatório “Q2 2026 Agtech Report: Embedded AI Draws Capital and Delivers ROI”, do PitchBook, aponta que tanto fazendeiros quanto investidores estão cada vez mais seletivos sobre o que vale a pena pagar. Já o “CNH Farmer Pulse”, que funciona como um “termômetro” do setor, aponta que a tecnologia de precisão deixou de ser “adoção antecipada” (early adoption) e passou a fazer parte da rotina de muitas operações.
O relatório do Pitchbook organiza organiza o setor de agtech em sete segmentos:
O financiamento de venture capital em agtech seguiu em trajetória de queda no 2° trimestre de 2026. O setor captou US$ 1 bilhão em 143 negócios no trimestre, abaixo dos US$ 1,5 bilhão em 216 negócios do 1° trimestre, e dos US$ 2 bilhões em 215 negócios registrados um ano antes (2° trimestre de 2025). No primeiro semestre de 2026 como um todo, o setor de Agtech captou cerca de US$ 2,4 bilhões em 359 negócios, ante US$ 3,7 bilhões e 484 negócios no primeiro semestre de 2025, uma queda de aproximadamente 33% em valor e 26% em número de negócios na comparação anual. Como o valor caiu mais rápido que o volume, o tamanho médio dos cheques se comprimiu, mesmo com a frequência de negócios se mostrando relativamente resiliente, o que sugere que a retração foi puxada mais pela escassez de grandes rodadas em estágio avançado do que por um colapso amplo da atividade dos investidores.
Desde o pico do mercado de venture capital em 2021, o valor captado vem recuando ano a ano: US$ 8 bilhões em 2023, US$ 6,6 bilhões em 2024, e uma recuperação parcial para US$ 7,4 bilhões em 2025 (mesmo com o número de negócios caindo para 910, o mais baixo desde 2018). Em 2026 (dados até 30 de junho, portanto parciais), o setor já soma US$ 2,4 bilhões em 359 negócios.
A agricultura de precisão foi o maior segmento do trimestre, tanto em número de negócios (38) quanto em valor captado (US$ 338,6 milhões). Nos últimos 12 meses (TTM), o segmento somou 180 negócios e US$ 1,64 bilhão. A rodada Série F de US$ 210 milhões da Tomorrow.io, plataforma de Inteligência Climática, foi a maior rodada do trimestre e puxou boa parte desse total.
Animal e Aquicultura ficou em segundo lugar em número de negócios (33) e valor (US$ 275,7 milhões) no trimestre, somando 183 negócios e US$ 2,12 bilhões nos últimos 12 meses. Foi o único segmento cujo capital no primeiro semestre cresceu na comparação anual. As rodadas de destaque incluíram a scale-up francesa de ração à base de insetos InnovaFeed (US$ 59,5 milhões) e a empresa islandesa de aquicultura terrestre Laxey (US$ 54,4 milhões). A agricultura indoor teve um trimestre aparentemente forte: o total saltou de US$ 22,5 milhões no 1° trimestre para US$ 165,3 milhões no 2° trimestre, mas quase todo esse salto veio de uma única rodada: a Série C de US$ 151,7 milhões da Oishii, para suas fazendas verticais automatizadas de morango.
Os demais segmentos ficaram discretos: insumos e melhorias de cultivo (crop inputs & enhancement) recuaram para US$ 122,2 milhões, liderados pela rodada Série B de US$ 30 milhões da desenvolvedora de melhoramento genético via IA Avalo e pela rodada de US$ 23,2 milhões da empresa de biocontrole Agriodor. Automação e Equipamentos Agrícolas caíram para 21 negócios e US$ 57,4 milhões. Agrifinanças e E-commerce encolheu para US$ 33,2 milhões, puxado por tickets menores em mercados emergentes. E Carbono e Serviços Ecossistêmicos, o segmento mais novo da taxonomia, ficou praticamente dormente, com apenas 6 negócios e cerca de US$ 1 milhão divulgado.
No nível de subsegmento, o dinheiro seguiu Dados e Biologia, não hardware. Os subsegmentos mais movimentados do semestre foram análises de imagem e sensoriamento remoto, software de gestão agrícola, fenotipagem e diagnóstico de plantas, e Biotecnologia e saúde animal. Robótica intensiva em capital e sistemas de agricultura indoor perderam fôlego.
Segundo o PitchBook, essa é uma rotação plurianual, não uma oscilação de um único trimestre: os segmentos liderados por hardware (automação agrícola e agricultura indoor) vêm perdendo participação no capital total todos os anos desde 2024, caindo de cerca de 23% para aproximadamente 17% do capital de agtech no primeiro semestre de 2026; enquanto isso, os segmentos liderados por dados e biologia (agricultura de precisão, insumos de cultivo e pecuária) subiram de cerca de metade para quase três quartos de todo o capital do setor.
Dois temas marcaram o capital do trimestre. Primeiro, investidores não tradicionais (e não fundos financeiros puros) ancoraram as maiores rodadas. Investidores corporativos, soberanos e do setor público lideraram quatro das dez maiores rodadas do trimestre: a Archer Daniels Midland (ADM) e a Autoridade de Investimento do Catar (na InnovaFeed), o Banco de Desenvolvimento do Japão e a Japan Green Investment Corporation (na Oishii), o Conselho Europeu de Inovação e o fundo alemão DeepTech & Climate Fonds (na LiveEO), e o fundo norueguês Nysno Climate Investments (na Maritime Robotics). O mesmo padrão apareceu entre os investidores mais ativos do semestre, uma lista liderada por veículos de impacto e governamentais (Impact Assets, o Conselho Europeu de Inovação, a Scottish Enterprise e o fundo dinamarquês de exportação e investimento), ao lado de corporações como Corteva, Kubota e Toyota Ventures.
Segundo, o capital privado se concentrou geograficamente. A América do Norte foi a âncora em meio à retração: o número de negócios caiu de 66 no 1° trimestre para 51 no segundo, mas o valor captado subiu de US$ 528 milhões para US$ 642,4 milhões, ou seja, menos negócios, porém maiores. Já a Ásia recuou nas duas métricas: o número de negócios caiu 50% (de 60 para 30) e o valor caiu 60,9% (de US$ 163,8 milhões para US$ 64 milhões). Quando o capital asiático apareceu, veio principalmente de investidores estatais e corporativos do Japão e Cingapura ancorando rodadas individuais, não de uma recuperação ampla do venture capital regional.
A atividade de saída (exits) seguiu enfraquecida e quase inteiramente via fusões e aquisições no primeiro semestre, com poucos valores divulgados. A consolidação se concentrou na robótica de campo: os pioneiros de trator autônomo Monarch e Bluewhite foram ambos adquiridos no trimestre. A Monarch foi comprada pela Caterpillar e a Bluewhite pela Elbit, ambos depois da aquisição da Scythe Robotics (pela ASI) no início do ano. Outras saídas notáveis incluíram a empresa de genética de gado Vytelle, a fabricante de proteína unicelular NovoNutrients, a empresa de análise de emissões via satélite Kayrros (em uma operação de buyout) e a plataforma de software para pecuária AgriWebb, além de duas das poucas operações de porte divulgado do trimestre: a produtora australiana Cannatrek (US$ 100 milhões) e a empresa neozelandesa de biocontrole Biotelliga (cerca de US$ 90 milhões). Nenhuma atividade relevante de IPO se materializou, mantendo o canal de saída estreito e reforçando a preferência dos investidores por nomes já comprovados e geradores de receita.
Olhando a série histórica de saídas, 2021 foi um ano atípico, com US$ 29 bilhões em valor de saída e 77 saídas, um pico muito acima de qualquer outro ano da série (2016-2026). Desde então, o valor de saída anual não passou de US$ 3,3 bilhões (em 2023); em 2025, foram 60 saídas somando apenas US$ 700 milhões, e 2026, até o momento do corte de dados, soma 25 saídas e US$ 600 milhões.
O “Farmer Pulse” aponta que 89% dos fazendeiros já usam tecnologia de autoguiagem, o que inclui GPS, direção automática (auto-steering) e mapeamento. Mais da metade (54%) usam sistemas de aplicação de precisão, que ajustam automaticamente a aplicação de fertilizantes ou defensivos, e a mesma proporção (54%) usa telemática e plataformas conectadas de gestão agrícola, que coletam, monitoram e compartilham dados de equipamentos e do campo. Já a automação assistida por IA, que vem com tais sistemas que usam dados sensoriais para ajustar equipamentos automaticamente com pouca ou nenhuma intervenção do operador, ainda está em estágio inicial, usada por 14% dos respondentes da pesquisa, mas sinalizando o interesse crescente na próxima geração de tecnologia agrícola.
A pesquisa, que ouviu 217 fazendeiros e produtores rurais dos Estados Unidos e Canadá sobre como e por que usam tecnologia de precisão, aponta que 74% usam ou considerar adotar tecnologia de precisão para reduzir custos com insumos, 70% para economizar tempo e melhorar a eficiência de mão de obra, 59% para aumentar produtividade (yields), 56% para economizar combustível, e 49% para coletar dados operacionais melhores. Segundo o relatório, esses números reforçam que a adoção é motivada por benefícios operacionais mensuráveis que melhoram produtividade e rentabilidade, e não por hype tecnológico.
A pesquisa mostra que a percepção sobre a importância da tecnologia mudou: 71% dos fazendeiros dizem que a tecnologia de precisão é “importante” ou “extremamente importante” para sua operação, e esse número sobe para 95% entre os fazendeiros “tech-forward” (mais avançados tecnologicamente). Segundo o levantamento da CNH, isso sugere que a tecnologia de precisão é cada vez mais vista como uma vantagem competitiva, e não como um investimento opcional. Sobre o retorno percebido, 62% dos fazendeiros avaliam sua tecnologia de precisão como “moderadamente valiosa” ou “extremamente valiosa”. Esse número sobe para 70% entre produtores de “cash crops” (culturas comerciais como soja, milho e trigo) e chega a 82% entre os usuários mais avançados de tecnologia, um padrão que se repete: quanto mais madura a adoção, maior a percepção de valor.
Mais da metade dos fazendeiros (54%) planeja fazer investimentos adicionais em tecnologia de precisão nos próximos dois anos. Olhando o horizonte completo de investimento, 15% pretendem investir em menos de um ano, 38% entre um e dois anos, 25% entre três e cinco anos, 4% entre seis e dez anos, 1% em mais de dez anos, e 15% não têm planos de investir. Entre os fazendeiros que consideram um investimento futuro em tecnologia de precisão (85% do total), 43% esperam que o próximo investimento venha através da compra de equipamento novo já equipado de fábrica com os recursos de precisão mais recentes (nada de acessórios pós-venda). O relatório interpreta esse dado como uma demanda crescente por sistemas integrados de fábrica, que simplificam a configuração, melhoram a confiabilidade dos dados operacionais coletados e entregam uma experiência de uso mais integrada.
Segundo o PitchBook, a Inteligência Artificial hoje permeia praticamente todos os segmentos de agtech, e o pipeline de startups nativas de IA se divide em cinco temas recorrentes. O maior deles é detecção, sensoriamento e monitoramento, que inclui imagens de satélite e térmicas, sensores de solo e planta em campo, monitoramento de carbono no solo (MRV) e visão computacional para pecuária e laticínios (empresas como Tomorrow.io, Hydrosat, Stenon, Seqana, Ceres AI e Labby). Segundo o relatório, é justamente aqui que a IA já entrega retornos claros e mensuráveis.
O segundo tema é robótica e automação física, chamada também de IA Física (Physical AI), abrangendo maquinário autônomo, pulverização de precisão e braços de colheita de frutas e cogumelos (SwarmFarm, Sabanto, Dogtooth, 4AG Robotics e Cordon). Aqui, a mudança está no modelo de negócio, não no hardware: em vez de vender uma máquina dedicada e cara, fornecedores oferecem kits de retrofit que adicionam autonomia a um trator já existente (Sabanto e Anostra), ou cobram pelo trabalho realizado por hectare coberto ou por safra colhida em vez de cobrar pelo robô em si (o modelo de “farming as a service” da Sabanto; robôs de colheita da Dogtooth e da 4AG Robotics). Segundo o PitchBook, ambos os modelos transformam uma compra grande e única em um custo recorrente que escala com o uso, reduzindo uma barreira histórica à adoção de robótica no campo.
O terceiro tema é descoberta científica e P&D, com IA para descoberta de características genéticas e design generativo de proteínas comprimindo os prazos de melhoramento genético (Avalo, Tropic, Resurrect Bio e Quercus Biosolutions), alinhado a um tema crescente de financiamento em edição genética de culturas. O quarto é previsão, operações e cadeia de suprimentos, cobrindo camadas de interoperabilidade de dados, agentes de inteligência de decisão e IA para crédito e subscrição agrícola (Leaf, SWARM Engineering, Maalexi e konektAgri). O quinto, ainda incipiente, é IA conversacional e por voz para orientação ao fazendeiro (Farm Vaidya).
O relatório descreve a adoção de IA como algo que está “se dividindo em duas velocidades”: a IA embutida (embedded), que engloba visão computacional, sensoriamento e descoberta in-silico, já funciona e está atraindo capital, enquanto ferramentas de decisão do tipo copilot” voltadas ao fazendeiro ainda enfrentam uma lacuna persistente de retorno sobre investimento (ROI) e adoção, e por isso recebem menos financiamento. O relatório cita que o “capital recompensa a IA que age, mais do que a IA que aconselha”. O relatório cita uma pesquisa com produtores rurais que reforça essa divisão, concluindo que muitos produtores relataram não ter percebido benefício significativo da IA em suas operações.
Os obstáculos: custo, dúvida sobre valor e treinamento
Apesar do otimismo, os fazendeiros são claros sobre as barreiras. O custo é o obstáculo mais citado, apontado por 56% dos respondentes no levantamento do CNH. Em segundo lugar, 36% ainda têm dúvidas sobre se tecnologia adicional vai de fato entregar valor suficiente. Já 21% dizem que é necessário mais treinamento, 13% apontam a conectividade e 11% a facilidade de uso como fatores que ainda influenciam a decisão de adoção. Segundo o relatório, a oportunidade para o setor é clara: tornar a tecnologia de precisão mais simples, mais fácil de suportar e mais capaz de demonstrar retornos mensuráveis e significativos.
Pesquisa com 217 fazendeiros da CNH e levantamento da PitchBook mostram dois lados do mesmo momento: tecnologia de precisão virou rotina na fazenda, enquanto o venture capital em agtech recua e migra para IA que já entrega ROI comprovado
Protiviti, Careerminds, The Conference Board, Kyndryl, McKinsey e Metley chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes: a tecnologia está pronta antes das pessoas e o RH que deveria liderar essa preparação é, com frequência, quem...
Em manifesto recém-publicado, Zuckerberg defende que distribuir superinteligência é o que nos torna seguros. No mesmo dia, a Meta abriu os pesos do seu modelo menor e manteve o maior fechado.
Pesquisa da Okta com 306 CISOs mostra que a infraestrutura de identidade é, ao mesmo tempo, o problema e a solução para controlar agentes de IA dentro das empresas
Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, divulgado pelo Banco Central, revela mudança de comportamento dos usuários, disputa entre bancos e fintechs, novas regras de segurança e o papel do sistema na queda de braço comercial com os EUA
Modelos de linguagem genômica já conseguem projetar genomas virais funcionais. O avanço promete novas terapias e muda a escala do debate sobre biossegurança.
Aproveite nossas promoções de renovação
Clique aquiPara continuar navegando como visitante, vá por aqui.
Cadastre-se grátis, leia até 5 conteúdos por mês,
e receba nossa newsletter diária.
Já recebe a newsletter? Ative seu acesso
