O investimento global em tecnologias e infraestruturas ligadas à transição energética atingiu US$ 2,3 trilhões em 2025, um aumento de 8% em relação a 2024, estabelecendo um novo recorde anual. Em perspectiva histórica, esse dado ganha ainda mais relevância: em 2021, o crescimento anual havia sido de 27%; em 2025, caiu para um dígito. Em outras palavras, o volume investido nunca foi tão alto, mas a velocidade de expansão está perdendo fôlego, aponta o relatório “Energy Transition Investment Trends 2026”, da BloombergNEF (BNEF).
Ainda assim, em um ano marcado por tensões geopolíticas, interrupções comerciais e incertezas regulatórias, o conjunto dos quatro principais vetores monitorados pela BNEF – implantação de tecnologias limpas, cadeia de suprimentos, capital de risco em climate tech e emissões de dívida verde – avançou simultaneamente, reforçando a tese de que a transição energética já opera como uma infraestrutura econômica resiliente, e não mais como um nicho experimental.
“Apesar dos ventos contrários de política e comércio, a transição energética global mostrou resiliência e continua criando oportunidades para investidores”, afirma Albert Cheung, vice-CEO da BloombergNEF, no documento. Segundo ele, com as economia procurando fortalecer sua segurança energética e construir cadeias domésticas de suprimentos, “ o investimento em energia limpa seguirá em alta”. “Principalmente em função da expansão global de data centers.”
Pelo segundo ano consecutivo, os investimentos na cadeia de suprimentos de energia limpa superaram os aportes em combustíveis fósseis. Em 2025, a diferença entre os dois blocos chegou a US$ 102 bilhões, acima dos US$ 85 bilhões registrados em 2024. Enquanto os investimentos em energia limpa continuaram crescendo, os aportes em oferta de combustíveis fósseis caíram pela primeira vez desde 2020, com uma redução anual de US$ 9 bilhões. O recuo foi puxado principalmente por:
Essas quedas foram parcialmente compensadas por aumentos em projetos de gás e carvão, mas não o suficiente para inverter a tendência geral.
Do ponto de vista geográfico, a região Ásia-Pacífico manteve a liderança, concentrando 47% de todo o investimento global em transição energética em 2025. A China, sozinha, respondeu por US$ 800 bilhões, mas registrou sua primeira queda em investimentos em renováveis desde 2013, um sinal de maturidade do mercado interno e, ao mesmo tempo, de deslocamento gradual da liderança global para outros polos.
Outros destaques regionais incluem:
A leitura da BNEF é que, embora a China continue dominando a produção de tecnologias limpas, sua participação relativa tende a cair gradualmente à medida que EUA, UE e Índia aceleram a relocalização (onshoring) de cadeias produtivas críticas.
Depois de três anos de retração, o financiamento via equity para empresas de climate tech voltou a crescer em 2025. O volume total captado chegou a US$ 77,3 bilhões, alta de 53% em relação ao ano anterior. O movimento foi puxado principalmente por:
O crescimento, porém, foi concentrado no mercado de capitais e em grandes rodadas na Ásia. O venture capital para startups caiu pelo terceiro ano consecutivo, reforçando uma bifurcação entre empresas maduras e early stage. O mercado de fusões e aquisições (M&A) também seguiu aquecido: US$ 99,1 bilhões em negócios fechados em 2025, um salto de 37% na comparação anual, com destaque para os setores de energia limpa e edifícios, impulsionados pela demanda de data centers globais.
Outro pilar em forte expansão foi o mercado de dívida para a transição energética. Em 2025, as emissões totalizaram US$ 1,2 trilhão, crescimento de 17% em relação a 2024. O avanço foi sustentado por:
Esses ganhos compensaram a queda nas emissões governamentais, com setores maduros, como renováveis, passando a depender menos de instrumentos rotulados como “verdes”.
O maior motor de investimento em 2025 foi, novamente, o transporte eletrificado. O setor respondeu por US$ 893 bilhões, alta de 21% em relação a 2024, puxado pela expansão da frota de veículos elétricos (EVs) e pela construção de infraestrutura de recarga em larga escala. Na sequência aparecem:
Esses três blocos, juntos, concentraram mais de 90% de todo o capital alocado na transição energética em 2025. O dado mais dissonante do ano veio justamente das renováveis: apesar de ainda representarem o segundo maior destino de capital, os investimentos no setor caíram 9,5% na comparação anual. A principal razão foi a mudança nas regras do mercado de energia na China, maior mercado global, que introduziu incertezas regulatórias e freou novos projetos .
Outros segmentos também ficaram para trás:
Ambos registraram queda, em contraste com a alta observada na maioria das demais tecnologias monitoradas pela BNEF.
Um dos insights do relatório é a centralidade dos data centers no novo ciclo de investimento energético. A BNEF estima que os aportes em infraestrutura para data centers atingiram US$ 500 bilhões em 2025, mais do que todo o investimento em energia solar naquele ano, ficando atrás apenas do transporte eletrificado em escala absoluta.
A leitura que vem dos dados é que a expansão da IA Generativa, da computação em nuvem e da digitalização industrial está se tornando um fator estrutural de pressão sobre redes elétricas, geração renovável e sistemas de armazenamento. A projeção é que
Olhando à frente, a BloombergNEF projeta que, no seu cenário-base de transição econômica, o investimento médio anual em transição energética deve alcançar US$ 2,9 trilhões nos próximos cinco anos. Apesar do avanço, a própria BNEF alerta para desalinhamentos importantes:
Em síntese, o retrato de 2025 é o de uma transição energética que:
O relatório mostra que o avanço hoje depende de alocação eficiente de capital, coordenação industrial e velocidade política. A transição energética já não é mais sobre provar viabilidade tecnológica, pois essa já está comprovada. É sobre provar capacidade sistêmica de execução e, sim, vontade para fazer acontecer.
O investimento global nunca foi tão alto, mas o ritmo de crescimento caiu para um dígito. Dados da BloombergNEF mostram um setor resiliente, pressionado por data centers, redes elétricas e um novo dilema de execução
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