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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Uma corrida de trilhões está reorganizando o setor de tecnologia

Estudo da Accel projeta US$ 4,1 trilhões em investimentos em data centers, crescimento acelerado de aplicações e novos limites energéticos.

A revolução da IA está criando uma corrida de infraestrutura estimada em US$ 4,9 trilhões, este ano, e concentrando poder nas mãos de um pequeno grupo de empresas, aponta o relatório “Globalscape 2025“, da Accel, divulgado no Web Summit Lisboa.

Nvidia, Microsoft, Apple, Alphabet, Amazon e Meta passaram a responder por cerca de metade do Nasdaq, alcançando valor de mercado combinado de US$ 20,7 trilhões em outubro. Esse conjunto, referido no estudo como “Super Six”, reúne a capacidade financeira necessária para sustentar o ciclo de investimentos em computação que vem redefinindo a estrutura competitiva do setor. Como observou Philippe Botteri, sócio da Accel, “nunca vimos uma concentração tão alta no setor”.

O fluxo de caixa operacional gerado anualmente pelas Super Seis (US$ 0,6 trilhão em 2024) continua a fortalecer seu domínio, já que estão entre as poucas empresas capazes de sustentar o nível de investimento necessário para manter a liderança em IA.

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O relatório estima a construção de 117 gigawatts de capacidade adicional de data centers de IA até 2030, volume equivalente ao consumo energético anual de Reino Unido, Itália e Espanha somados. A projeção inclui custos de infraestrutura, equipamentos de computação, redes e armazenamento. Entre 2026 e 2030, o investimento previsto soma US$ 4,1 trilhões, distribuídos ao longo de ciclos de expansão anual de 19 a 34 gigawatts.

A viabilidade econômica desse movimento aparece em outra métrica apresentada: os data centers precisariam gerar US$ 3,1 trilhões em receitas acumuladas no período para cobrir CapEx, depreciação e custos operacionais. O relatório cruza esse valor com uma estimativa macroeconômica: o montante corresponde a um aumento entre 1% e 2% no crescimento anual do PIB global até 2030.

Além do investimento financeiro, há o limite físico. O documento projeta um déficit potencial de 36 gigawatts na capacidade elétrica disponível para data centers nos Estados Unidos entre 2025 e 2028, mesmo considerando a infraestrutura em construção. O relatório compara esse déficit à geração necessária para mais de 30 reatores nucleares de alta potência.

Se a camada de infraestrutura segue um caminho de concentração, a camada de aplicação apresenta dinâmica distinta. O relatório mostra que empresas nativas de IA, fundadas há dois ou três anos, avançam de US$ 1 milhão para US$ 100 milhões em ARR em poucos anos — o gráfico abaixo evidencia o salto entre o primeiro e o sexto ano de operação.

O movimento aparece em todas as regiões analisadas. Empresas europeias e israelenses de cloud e IA captaram 66% do volume investido em equivalentes americanas em 2025. Há dez anos, a proporção era de um décimo. Essa mudança acompanha a evolução de ecossistemas locais, que passaram a formar fundadores e investidores experientes em escalonamento de software. Em paralelo, o domínio americano permanece mais evidente na camada de modelos. As maiores rodadas de 2025 incluem OpenAI (US$ 40 bilhões), Anthropic (US$ 13 bilhões) e xAI (US$ 10 bilhões). Já na Europa e em Israel, os aportes mais robustos se concentram em empresas como Helsing, Cyera, ElevenLabs e Lovable.

Além dos modelos e da infraestrutura de IA, o cenário é misto para as gigantes da nuvem, que faturam mais de US$ 100 bilhões. Empresas como CrowdStrike, IBM, Oracle, Palantir, Palo Alto Networks e Shopify estão começando a se beneficiar da IA, enquanto o sucesso de outras, como Salesforce e ServiceNow, está intimamente ligado a uma adoção mais ampla da automação orientada a agentes no ambiente corporativo.

À medida que a adoção de agentes atinge o ponto de inflexão da curva S nos próximos anos, é provável que haja um ressurgimento das gigantes da nuvem, que aproveitarão suas plataformas existentes para implantar e orquestrar novos fluxos de trabalho baseados em agentes.

O relatório também registra mudanças no comportamento das grandes empresas de software. Salesforce, Microsoft e Atlassian reportam aumento do uso de funcionalidades agênticas e crescimento no consumo de tokens em suas plataformas. O documento ressalta que a adoção corporativa ainda é limitada pela natureza probabilística dos modelos, mas identifica expansão da demanda por ferramentas de governança, observabilidade e controle de agentes.

O estudo inclui ainda cenários de verticalização. Setores como saúde, finanças, construção e jurídico já apresentam ferramentas especializadas capazes de automatizar fluxos antes restritos a processos manuais — de notas clínicas à revisão de ordens de compra.

Esses elementos compõem um quadro no qual a infraestrutura e as aplicações avançam por lógicas diferentes. A expansão física depende de poucos atores com acesso a grandes volumes de capital e energia. Já a camada de aplicação registra diversidade geográfica e ritmo de adoção superior ao registrado em ciclos anteriores. A distinção entre as duas camadas é útil para conselhos e lideranças que precisam avaliar riscos, alocar capital e definir prioridades tecnológicas.

O Globalscape 2025 descreve uma etapa de transição: a infraestrutura se reorganiza em torno da capacidade de computação, enquanto as aplicações redefinem como software são construídos, distribuídos e consumidos. Para empresas que buscam posicionamento estratégico, o relatório fornece parâmetros objetivos sobre o ritmo, os custos e os limites físicos envolvidos no novo ciclo da IA.

Importante: A Accel, que já investiu mais de US$ 13 bilhões em mais de 450 empresas de IA e nuvem, continua otimista em relação à transformação que se avizinha, firmando parcerias com líderes emergentes como Perplexity, Scale e Vercel. A empresa conclui que os vencedores da IA virão de qualquer lugar — um contraponto necessário aos próprios dados do relatório, que mostram a concentração de poder sem precedentes no topo da cadeia de valor.

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