A economia digital ampliou a dependência de infraestruturas tecnológicas em praticamente todos os setores — do sistema financeiro às redes de energia, da indústria aos serviços públicos. Nesse cenário, a cibersegurança deixou de ser apenas uma função técnica da área de TI e passou a se tornar um elemento central da confiança digital e da competitividade econômica. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam uma escassez global de especialistas: estima-se que faltam cerca de 4,8 milhões de profissionais de cibersegurança no mundo.
A pressão sobre essa infraestrutura cresce rapidamente. O número global de ataques cibernéticos aumenta mês a mês, impulsionado pela industrialização do cibercrime. O Relatório de Estatísticas Globais de Inteligência de Ameaças da CheckPoint, por exemplo, indica que nos dois primeiros meses de 2026 as empresas globais receberam uma média de 2.086 ataques cibernéticos por semana (aumento de 9,6% em comparação a 2025).
Esse cenário transforma a segurança digital em um tema estrutural. Não se trata mais apenas de responder a incidentes, mas de desenvolver capacidade de antecipação, pesquisa e formação de talentos capazes de sustentar ecossistemas digitais confiáveis. Na economia digital, resiliência cibernética deixou de ser proteção. Tornou-se vantagem competitiva.
É nesse contexto que entra o CISSA (Centro Integrado de Segurança em Sistemas Avançados), um Centro de Competência Embrapii em Segurança Cibernética operado pelo CESAR. Credenciado em 2024 pela Embrapii, o centro tem como missão desenvolver pesquisa aplicada capaz de apoiar empresas, governo e setores críticos da economia na construção de infraestruturas digitais resilientes.
Instalado dentro do CESAR — um dos principais polos brasileiros de inovação tecnológica — o CISSA conecta pesquisa científica, formação de especialistas e desenvolvimento de soluções para o mercado. A proposta é transformar conhecimento avançado em tecnologias e metodologias que possam ser aplicadas em ambientes reais. “O CISSA funciona como um híbrido de pesquisa acadêmica e pragmatismo tecnológico, seus projetos visam resolver problemas que afetam setores inteiros e que podem beneficiar múltiplos atores”, diz Fábio Maia, líder de engenharia de sistemas no CESAR e pesquisador-chefe do CISSA, em entrevista à The Shift.
Essa abordagem também responde a um debate cada vez mais relevante no mundo: o da soberania tecnológica. À medida que serviços críticos e cadeias produtivas dependem de sistemas digitais complexos, ampliar a capacidade nacional de pesquisa e inovação em cibersegurança passa a ser uma questão estratégica.
Para enfrentar esse cenário, o CISSA organiza sua atuação em quatro linhas principais de pesquisa, que combinam tecnologia, inteligência de ameaças e fatores humanos.
• Gestão de Identidade e Acesso (IAM) – desenvolvimento de mecanismos avançados de autenticação e identidades digitais, incluindo modelos de identidades auto soberanas e proteção de dados sensíveis em setores críticos.
• Proteção e Privacidade de Dados (DPP) – pesquisas em criptografia pós-quântica e proteção de dados em ambientes complexos, incluindo dispositivos de Internet das Coisas e infraestruturas críticas.
• Inteligência para Ameaças Cibernéticas (CTI) – desenvolvimento de modelos para detectar comportamentos anômalos e ameaças emergentes, incluindo riscos internos e ataques avançados.
• Aspectos Legais, Éticos e Comportamentais (ALEC) – estudos sobre engenharia social, comportamento humano e governança digital para fortalecer a cultura de segurança nas organizações.
Segundo Georgia Barbosa, gerente executiva do CISSA, a abordagem parte de uma visão integrada da segurança digital:
“Nossa prioridade é antecipar os desafios da cibersegurança, e não apenas reagir a eles. Avançamos em frentes como criptografia pós-quântica e segurança de IA, mas também investigamos o fator humano, que continua sendo uma das principais superfícies de ataque.”
Esse desafio tende a se intensificar com a expansão da inteligência artificial nos processos de negócio. Sistemas automatizados e agentes inteligentes passam a executar tarefas críticas em ambientes cada vez mais interconectados.
Esse movimento amplia o potencial de ganhos de produtividade, mas também cria novas superfícies de risco. Garantir a integridade dos dados utilizados por modelos de IA, proteger algoritmos contra manipulação e estabelecer governança sobre decisões automatizadas tornam-se parte essencial da estratégia de segurança.
Quanto mais autônomos se tornam os sistemas digitais, maior passa a ser a necessidade de garantir confiança na infraestrutura que os sustenta.
Além da agenda de pesquisa, o CISSA também opera como um hub de colaboração entre academia, indústria e governo. O centro conta com o Google como associado tecnológico e tem a Febraban como parceiro estratégico em seu conselho consultivo.
Também desenvolve projetos em cooperação com instituições como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), além de manter parcerias acadêmicas com universidades brasileiras e europeias, como UFPE, UFRPE, Universidade do Porto e Universidade de Coimbra.
Essa rede amplia a capacidade de pesquisa e desenvolvimento em segurança digital e contribui para formar uma nova geração de especialistas — um desafio crítico diante da escassez global de profissionais na área.
A evolução do ambiente digital vem mudando a forma como governos e empresas tratam a cibersegurança. Se antes ela era vista principalmente como uma camada técnica dentro das organizações, hoje passa a ser entendida como infraestrutura essencial da economia digital.
Sistemas financeiros, plataformas de inteligência artificial, cadeias industriais e serviços públicos dependem cada vez mais de ambientes digitais confiáveis. Nesse contexto, iniciativas como o CISSA ajudam a fortalecer não apenas a segurança das organizações, mas também a capacidade do país de desenvolver tecnologias próprias de proteção e resiliência cibernética.
Em uma economia cada vez mais conectada, resiliência digital deixa de ser apenas um tema de segurança e passa a ser um fator direto de competitividade.
A partir de 2026, empresas e países vão precisar mudar seu modelo mental sobre gestão de riscos e cibersegurança, alerta Fabio Maia, pesquisador-chefe do Centro Integrado de Segurança em Sistemas Avançados (CISSA), do CESAR
Ciberataques com uso de credenciais legítimas expõem os limites da tecnologia e trazem comportamento, vulnerabilidade humana e cultura organizacional para o centro da estratégia de risco
Para Valdir Assef Jr., gerente de Segurança Cibernética da Febraban, "o fator humano define a força do sistema". Em 2026, governança, colaboração e pessoas serão estratégicos.
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