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Imagem: divulgação + edição The Shift
SXSW 2026

Do hype ao impacto: a IA e o futuro da economia digital

No centro das discussões do SXSW 2026 estão três disputas que começam a definir o futuro da economia digital: quem controla os dados, quem captura o valor gerado pela IA e qual será o papel humano nesse novo ecossistema.

Uma frase sintetiza o clima do SXSW 2026 até aqui: a pergunta da vez deixou de ser “o que a IA pode fazer” e passou a ser como empresas, criadores e plataformas querem trabalhar com ela. Está sendo mais um evento no qual a presença da IA atravessa praticamente todas as trilhas – do Marketing à Mídia, dos negócios tradicionais à economia criativa. O debate deixou o território da demonstração tecnológica e passou a ser como a tecnologia reorganiza estruturas de poder, fluxos de trabalho e modelos econômicos, na internet e fora dela.

Esse cenário aponta para o início de uma nova fase da economia criativa. Alguns modelos emergentes discutidos no festival incluem criadores treinando modelos próprios a partir de seus acervos, licenciamento de estilos artísticos para sistemas de geração e fluxos de produção híbridos que combinam direção humana com automação. A disputa central vai além da produção de conteúdo e se concentra mais em controle de dados, audiência e modelos. As conversas no evento apontam três frentes de tensão: propriedade intelectual, monetização de obras geradas ou assistidas por IA e o papel das plataformas que concentram distribuição e dados de audiência.

Humanos no meio ou no centro?

Ao mesmo tempo, parte da programação do evento tenta reposicionar o papel humano nesse ecossistema. Um dos painéis destacados da conferência – “Why the Future of AI Must be Human Centric” – traz a cientista de IA Rana el Kaliouby para discutir como manter pessoas no centro das decisões sobre design e uso da tecnologia. A presença desse tema reflete uma preocupação recorrente no festival: como escalar sistemas inteligentes sem deslocar completamente o papel humano na criação, no trabalho e na tomada de decisões.

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A leitura estrutural dessa transformação aparece em muitas das análises apresentadas no festival. Para a futurista Amy Webb, este é o momento de encerrar seu relatório anual de tendências, criado há quase duas décadas para mapear mudanças emergentes no setor. Segundo Webb, a velocidade de transformação tecnológica tornou os ciclos de análise tradicionais menos eficazes para antecipar mudanças no setor de tecnologia. Essa avaliação aparece no contexto de um ambiente em que a IA começa a redefinir cadeias de valor inteiras.

Para Webb, a tecnologia (hardware vestível, IA e Biotecnologia) vem para aumentar a capacidade humana. No entanto, um novo tipo de “digital divide” vai surgir daí: a aumentação humana by tech ameaça transformar as desigualdades sociais em desigualdades sistêmicas e biológicas intensas e profundas, nas quais o corpo humano passa a ser o diferencial definitivo de valor econômico e social. Quem tiver acesso às vantagens (e aí leia-se poder econômico de aquisição) passa na frente.

Debates no festival também apontam para outra frente dessa transformação: o avanço do chamado Agentic Commerce, em que agentes de IA passam a intermediar decisões de compra, busca e recomendação. Nesse cenário, sistemas automatizados começam a assumir parte da jornada de consumo, um movimento que reforça a percepção dominante no SXSW deste ano: a IA está se tornando infraestrutura para criação, distribuição e transações na economia digital.

Destaques sobre IA até agora

  • O futurista Neil Redding chamou atenção para o descompasso entre a rapidez com que a IA toma decisões e a capacidade corporativa de executar, que gera uma frustração organizacional. A principal mudança não é tecnológica, disse, e sim conceitual. “A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para se tornar um participante.”
  • “O sinal amarelo acende quando a IA suplementa as conexões humanas”, disse a cientista social Kasley Killam. “Já o vermelho sinaliza a substituição de relacionamento.” Ela citou números de solidão (uma em cada seis pessoas no mundo diz se sentir sozinha, segundo a OMS) e sugeriu que ambientes como a escola podem mudar o curso de interações humanas, assim como empresas devem investir em programas para aumentar o engajamento de seus times.
  • Na mesma linha, a autora Jennifer Wallace afirmou que as pessoas sentem falta do “sentimento de importar, saber que você é valorizado e que está agregando valor à vida das pessoas ao seu redor”. Para ela, quando endereçamos as questões do “mattering”, conceito que traduz essa questão de ser importante para alguém e que dá título ao seu livro, nos afastamos do burnout.
  • Com 20% do tráfego de internet passando pelo crivo das suas plataformas, o CEO da Cloudflare, Matthew Prince, tem uma visão privilegiada do que virá “depois do search”. Em uma conversa conduzida pela jornalista Stephanie Mehta, CEO da Mansueto Ventures, Prince afirmou que, em um futuro próximo, não estaremos focados em quem usa a internet, mas sim no que a usa. Ele citou a crescente presença de bots online, gerando consequências “com as quais todos têm que lidar”. “Se um humano pesquisa uma câmera digital, ele visita talvez cinco sites. Um agente pode visitar cinco mil”, explicou.

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