À medida que a inteligência artificial acelera as transformações econômicas, cresce a percepção de que os ganhos de produtividade não dependem apenas de capital físico, infraestrutura digital ou acesso a modelos avançados. Estudo recente do McKinsey Health Institute, lançado semana passada durante o fórum anual da WEF em Davos, propõe um deslocamento do debate: economias competitivas passam a depender de forma crescente do capital cerebral — a combinação entre saúde cerebral e habilidades cognitivas que sustentam aprendizagem, julgamento e adaptação em ambientes de alta complexidade.
No relatório, o capital cerebral é definido como o conjunto de condições que sustentam o funcionamento cognitivo ao longo da vida, incluindo saúde mental e neurológica, além de habilidades como raciocínio, colaboração, autogestão e alfabetização tecnológica.
A premissa central é que, em um contexto de aceleração tecnológica, essas capacidades deixam de ser um fator periférico e passam a influenciar diretamente crescimento econômico, produtividade e capacidade de inovação. O diagnóstico dialoga com um dado recorrente nos estudos da McKinsey: até 59% da força de trabalho global deverá passar por algum tipo de requalificação até 2030 em função das mudanças tecnológicas. Para os autores, esse movimento não pode ser tratado apenas como um problema de treinamento técnico. Ele expõe limites estruturais relacionados à saúde mental, à capacidade de aprendizagem contínua e à forma como organizações e sistemas educacionais estão preparados para sustentar esse esforço em escala.
O artigo “The Brain Economy Explained: Why Strong Brains Power Strong Economies” amplia o enquadramento ao introduzir o conceito de brain economy. A argumentação parte da observação de que as demandas sobre o cérebro humano vêm aumentando por múltiplos vetores: envelhecimento populacional, efeitos persistentes da pandemia sobre saúde mental, maior incerteza geopolítica e, sobretudo, a rapidez com que tecnologias como a IA alteram tarefas, ocupações e processos decisórios.
Nesse contexto, a IA não reduz a relevância do trabalho humano, mas eleva o nível de exigência cognitiva. Sistemas automatizados produzem informações e recomendações em escala, mas exigem interpretação, julgamento, coordenação e responsabilização. Essas funções dependem diretamente da saúde e das habilidades do cérebro humano. O argumento central do explainer é que, sem cérebros capazes de operar nesse ambiente, os ganhos potenciais da tecnologia tendem a se dissipar.
A McKinsey associa esse quadro a estimativas de impacto econômico de longo prazo. O texto menciona que intervenções mais amplas em saúde cerebral poderiam resultar, sob determinadas premissas, em ganhos relevantes de anos de vida saudável e em efeitos positivos sobre o PIB global até meados do século. Os próprios autores tratam esses números como estimativas condicionais, dependentes de adoção em larga escala e coordenação institucional, não como projeções garantidas.
Apesar da ambição econômica do conceito, o relatório do McKinsey Health Institute reconhece uma limitação central: o capital cerebral ainda não constitui um campo consolidado de estudo, política pública ou governança econômica. Trabalhos relevantes estão em curso em disciplinas como neurociência, saúde pública, educação, economia do trabalho e ciência organizacional, mas permanecem fragmentados. Não existe hoje uma agenda interdisciplinar única que permita alinhar investimentos, estabelecer padrões ou comparar resultados entre países, setores e empresas.
O estudo organiza essa lacuna em torno de três frentes de pesquisa consideradas essenciais. A primeira envolve o aprofundamento do conhecimento sobre saúde cerebral, incluindo prevenção, tratamento e promoção do funcionamento cognitivo ao longo da vida. Essa dimensão afeta diretamente absenteísmo, afastamentos prolongados, produtividade e custos sistêmicos associados à incapacidade.
A segunda frente diz respeito às habilidades cerebrais. Embora haja consenso de que competências cognitivas e interpessoais ganham importância em ambientes de automação avançada, a base de evidências sobre seu impacto direto no desempenho organizacional ainda é desigual. Muitas decisões corporativas nessa área apoiam-se mais em inferência do que em mensuração consistente.
A terceira frente concentra-se nos sistemas que permitem promover saúde e desenvolvimento cognitivo em escala. Isso inclui organizações, políticas públicas, ambientes de trabalho e comunidades capazes de sustentar aprendizagem contínua e adaptação ao longo do ciclo de vida. O relatório é explícito ao afirmar que o desafio não é individual, mas estrutural.
É nesse ponto que o debate sobre capital cerebral se conecta a uma discussão mais operacional sobre tomada de decisão com IA. O artigo “Skeptical Intelligence: Disciplined Doubt for AI-Powered Innovation”, publicado pelo Thinkers50, introduz o conceito de inteligência cética como uma capacidade humana crítica em ambientes mediados por sistemas inteligentes.
A inteligência cética é descrita como a habilidade de exercer dúvida disciplinada, testar pressupostos, rastrear evidências e resistir à aceitação acrítica de respostas plausíveis produzidas por sistemas automatizados. O argumento parte de um risco concreto: modelos de IA tendem a apresentar respostas com alto grau de confiança aparente, mesmo quando operam sobre dados incompletos, vieses históricos ou correlações frágeis.
Essa capacidade não substitui raciocínio técnico nem inteligência emocional. Ela atua como um mecanismo regulador do uso da tecnologia em contextos de incerteza. Ao identificar hábitos como humildade epistêmica, curiosidade orientada por evidência, rastreabilidade de dados e construção deliberada de cenários contrafactuais, o artigo torna mais concreta a noção de que o capital cerebral envolve também governança cognitiva.
Um dos pontos mais críticos do material do McKinsey Health Institute é o diagnóstico de desalinhamento entre a escala do desafio do capital cerebral e o padrão atual de investimentos. Hoje, a maior parte do financiamento em pesquisa e desenvolvimento relacionado ao cérebro concentra-se no tratamento de estágios avançados de doença. Prevenção, detecção precoce e ciência aplicada ao desenvolvimento de habilidades cognitivas positivas recebem atenção proporcionalmente menor.
Esse padrão cria um paradoxo econômico. O capital cerebral é apresentado como ativo central para crescimento e competitividade, mas os recursos continuam direcionados majoritariamente à mitigação de perdas, não à construção do ativo. Sem uma reorientação estratégica, o risco é perpetuar um modelo reativo, com impacto limitado sobre produtividade e inovação de longo prazo.
O relatório propõe organizar os esforços de P&D em quatro estágios — pesquisa fundamental, tradução e adaptação, adoção e implementação, e escalonamento — cada um com métricas e incentivos próprios. Sem investimento contínuo ao longo dessa cadeia, avanços pontuais tendem a não se traduzir em impacto sistêmico.

A ausência de métricas amplamente adotadas aparece como um dos principais entraves à consolidação do capital cerebral como objeto de decisão econômica. Sem definições claras de sucesso, torna-se difícil avaliar progresso, justificar alocação de recursos ou atrair financiamento de longo prazo. O relatório recorre a exemplos históricos, como os títulos verdes e o Índice de Capital Humano, para mostrar como ativos antes invisíveis passaram a orientar políticas quando se tornaram mensuráveis.
Iniciativas como o Painel Global de Capital Cerebral demonstram que a mensuração é tecnicamente possível, ao agregar indicadores de mais de 100 países em áreas como saúde cerebral, habilidades e ambientes institucionais. Ainda assim, trata-se de um ponto de partida. O estudo sugere que contas satélite de capital cerebral poderiam complementar indicadores tradicionais como o PIB, oferecendo uma visão mais precisa dos custos da inação e dos retornos potenciais de investimento.
Em conjunto, os materiais da McKinsey e a discussão sobre inteligência cética não apresentam o capital cerebral como uma solução pronta, mas como um campo em construção. Seu principal valor está em explicitar um limite estrutural do crescimento na era da IA. Tecnologias avançam rapidamente, mas sua tradução em produtividade depende de capacidades humanas que hoje não são tratadas com o mesmo grau de mensuração, governança e investimento que outros ativos econômicos.
Para empresas e governos, a questão central não é se o capital cerebral importa, mas se ele será tratado como objeto de decisão estratégica ou permanecerá no plano retórico. Sem uma base comum de pesquisa, métricas e coordenação institucional, o conceito tende a perder tração operacional. Com ela, passa a integrar, de forma verificável, a estratégia econômica de um mundo cada vez mais baseado no intelecto.
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