Na sexta-feira, 12 de junho, 72 horas após o lançamento, a Anthropic desativou o acesso de pessoas fora dos EUA aos seus modelos Fable 5 e Mythos 5, obedecendo a uma ordem dada por carta pelo secretário de Comércio, Howard Lutnick, ao CEO da Anthropic, Dario Amodei.
Em tese, o governo norte-americano decidiu impor controles de exportação e bloquear o acesso de governos, empresas e indivíduos estrangeiros aos modelos de IA mais avançados da Anthropic, seguindo uma nova diretiva de Trump, publicada no dia 2 de junho, para promoção da inovação e da segurança em IA avançada.
Há meses, Anthropic argumenta que as capacidades de ponta da IA estão avançando mais rápido do que muitas pessoas imaginam. A empresa tem alertado repetidamente governos e o público sobre as potenciais consequências de sistemas cada vez mais sofisticados. Amodei continua a pressionar por medidas de segurança mais rigorosas e frequentemente se posiciona como um dos defensores mais eloquentes da governança da IA no setor.
Dois dias antes da proibição, em 10 de junho, o CEO da Anthropic havia publicado o ensaio “Policy on the AI Exponential“, argumentando explicitamente que os modelos de vanguarda deveriam ser regulamentados como aeronaves e que o lançamento de um modelo “deveria ser bloqueado ou revertido como uma ameaça à segurança pública” caso falhasse em testes independentes.
Na prática, o governo americano acabou por confirmar a afirmação de Amodei de que algumas formas de IA podem precisar de regulamentação e podem exigir controles de exportação. Validou efetivamente a ideia de que Anthropic merece tratamento especial. Nenhuma ação comparável foi tomada contra a OpenAI, o Google, a Meta ou qualquer outro grande desenvolvedor de IA.
“O que a Casa Branca fez parece arbitrário. E talvez até corrupto”, afirmou Gary Marcus. “Não ajuda o fato de a decisão de sexta-feira ter beneficiado a OpenAI, cujo presidente, Greg Brockman, é um grande doador, e também Josh Kushner, irmão de Jared Kushner, que é um grande investidor da OpenAI”, disse ele. “Não ajuda o fato de a decisão de sexta-feira ter beneficiado a Amazon (e ter sido motivada por um relatório da própria Amazon), uma grande investidora da OpenAI. Também não ajuda o fato de ter beneficiado indiretamente Jeff Bezos, que tem ligações com o governo.”
Depois de sexta-feira, a Casa Branca não poderá mais afirmar, com credibilidade, que nenhum modelo jamais deva ser regulamentado. A Casa Branca reconheceu que alguns modelos podem ser arriscados. De quebra, deu à Anthropic uma narrativa poderosa: a empresa construiu um modelo tão avançado que o governo dos EUA interveio. Essa narrativa pode, em última análise, se provar mais memorável do que o próprio lançamento do Fable e do Mythos 5.
Bom, quando um governo decide restringir o acesso a um modelo de fronteira, a mensagem implícita é que essa tecnologia deixou de ser apenas um produto comercial e passou a ser considerada um ativo estratégico nacional.

Se essa decisão for mantida e se tornar um precedente regulatório, o debate passa a ser sobre quem terá autorização para utilizar os modelos mais avançados do mundo.
Em outras palavras, soberania deixará de ser sobre onde ficam os dados e passará a ser sobre quem controla o acesso aos modelos. A restrição a estrangeiros expõe um risco de dependência que a residência de dados sozinha não resolve: o controle sobre quem pode usar, dar suporte e desenvolver o modelo.
Se você é dono de empresa ou gestor, sua jornada de IA acabou de ficar bem mais complicada.
A decisão de IA, por mais agnóstica que seja quanto ao modelo, passa a carregar uma variável nova: a possibilidade de suspensão ou restrição de uso por ordem de governo, sem aviso.
Mesmo antes da divulgação das notícias sobre a Anthropic , já se esperava que as conversas na reunião do G7 de meados de junho fossem dominadas por perguntas sobre a “disposição dos EUA em cooperar com outros países em relação a inovações semelhantes ao Mythos que levantam questões de resiliência cibernética”, disse Tim Adams, ex-alto funcionário do Tesouro e atual diretor do Instituto de Finanças Internacionais, à MM na semana passada.
“Os EUA estarão sob pressão para oferecer aos seus homólogos garantias de que estes estarão a par da implementação desses modelos”, acrescentou. Isso inclui garantias de que “a tecnologia será compartilhada e que existem mecanismos de proteção para evitar que ela caia em mãos hostis”.
A proibição repentina alarmou os aliados dos EUA, após expor a facilidade com que essa tecnologia crucial pode ser desativada. Sir Keir Starmer está pressionando o governo Trump para permitir que britânicos usem os modelos de IA mais avançados da Anthropic. Downing Street espera que a intervenção abrangente seja temporária e seja substituída por um regime mais direcionado.
Na verdade, esta não é a primeira vez que o governo tenta impor controles de exportação para impedir que softwares de alto risco caiam em mãos erradas. De fato, já existem controles para softwares usados em sistemas de mísseis, simulações de batalha e outras aplicações de defesa.
No entanto, a regulamentação das exportações de software tem se mostrado um verdadeiro emaranhado de questões legais e logísticas. Embora a IA seja uma tecnologia excepcionalmente poderosa e transformadora, aqueles que tentam regulamentá-la com controles de exportação podem se deparar com desafios semelhantes aos encontrados em outros tipos de software.
“Em geral, controlar software é muito mais difícil do que controlar hardware, e não há razão para que isso não seja verdade neste caso”, disse Michael Horowitz, ex-secretário adjunto de Defesa na Casa Branca de Biden.
Segundo a Axios, funcionários técnicos seniores da Anthropic estão em Washington para se reunir com autoridades da Casa Branca e tentar resolver uma disputa que tirou do ar os principais modelos da empresa , disse uma fonte próxima à empresa ao Axios.
Por que isso importa: A Anthropic está se mobilizando rapidamente para se reconciliar com o governo Trump.
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Quando encontrar brechas deixa de ser difícil, todo cuidado é pouco. Por isso, a Anthropic lançou o modelo para apenas 50 empresas parceiras. O Project Glasswing inaugura uma nova fase da cibersegurança.
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