O entusiasmo com a Inteligência Artificial chegou às empresas com promessas de transformação rápida. A realidade tem se mostrado mais complexa – e mais cara. É nesse gap entre expectativa e execução que a ServiceNow, um dos grandes players globais de gestão de fluxos de trabalho corporativos, com um market cap de US$ 116 bilhões, enxerga sua maior oportunidade de crescimento.
No core da estratégia, segundo Federico Grosso, vice-presidente da companhia para a América Latina, estão governança, velocidade e a oferta de uma plataforma de agentes especialistas de IA (Autonomous Workforce) preparados para executar de forma autônoma fluxos de trabalho corporativos de diferentes áreas. A nova plataforma incorpora a tecnologia de IA conversacional da Moveworks, comprada pela ServiceNow no final de 2025 por US$ 2,85 bilhões.
A compra de empresas, aliás, é uma prática que a ServiceNow, sob o comando do veterano Bill McDermott, vem executando de forma agressiva: foram 41 empresas adquiridas em 13 anos, 26 das quais entre 2020 e 2026. “O que estamos fazendo é turbinar coisas que já temos de forma nativa ou abrir novos terrenos”, diz Federico Grosso. O executivo acompanhou de perto a bolha da internet nos anos 2000 e a ascensão do SaaS. Agora observa uma terceira inflexão e posiciona a ServiceNow para apoiar empresas a adotar agentes de IA sem perder o controle do processo.
“Não se trata de simplesmente pegar um modelo de IA qualquer, jogar dados e ver o que acontece”, diz Grosso. A empresa defende que o diferencial está na capacidade de orquestrar agentes com governança e rastreabilidade. No ano passado, a ServiceNow ajudou seus clientes no Brasil a processar 4 bilhões de workloads.
O alerta sobre os riscos da adoção desordenada é direto: “A IA aplicada aos dados não resolve necessariamente todos os problemas – em alguns casos, os expõe. Se há caos nos dados, a IA simplesmente amplifica esse caos.” No Brasil, diz ele, a demanda é crescente: nos últimos três anos, a empresa triplicou sua força de trabalho no país.
Sobre as turbulências do chamado “SaaSpocalipse”, Grosso é conciso: “É um darwinismo tecnológico: ou você consegue se adaptar, se transformar e evoluir, ou cede espaço para os novos players que estão chegando.”
Confira abaixo a entrevista exclusiva sobre os planos de expansão na América Latina, a lógica das aquisições recentes, o risco do SaaSpocalipse e um projeto com o SENAI para formar milhares de profissionais especializados em IA.
“O Brasil é, com certeza, o país que lidera a América Latina no nosso mapa do mundo, por uma série de razões — o tamanho da economia, a população e a facilidade com que os brasileiros adotam novas tecnologias. A busca por eficiência aqui é sempre muito grande. Nas minhas conversas com executivos das maiores empresas do Brasil, há uma consciência clara: precisamos ajudar a resolver problemas fundamentais. Alguns são problemas aparentemente simples, mas quando você opera na escala do Brasil, eles se tornam enormes. O abraço à tecnologia, à Inteligência Artificial e aos agentes no alto escalão das empresas brasileiras vem justamente dessa necessidade.
Um exemplo clássico é a TI. Resolver problemas internos de TI é algo superimportante que demanda um tempo enorme das equipes. Hoje trabalhamos muito com o conceito de TI autônoma, uma evolução do que se falava sobre agentes. O que os CIOs brasileiros estão tentando fazer hoje é a governança de agentes para criar uma TI autônoma — sistemas de resposta da TI clássica turbinados por Inteligência Artificial e agentes, criando um sistema que se autocura, o famoso self-healing.
É um mecanismo onde a abertura de um ticket para resolver um problema — que antes passava por uma série de pessoas, análises e aprovações — tem suas primeiras camadas totalmente automatizadas por agentes. Não apenas no atendimento inicial, para entender qual é o problema, mas também para abrir o ticket automaticamente, resolver aquele ticket automaticamente e dar a resposta automaticamente. O CIO hoje pode receber reportes de incidentes que sequer demandaram trabalho manual do time. Automatizar essa primeira camada de respostas por meio de IA agêntica é muito poderoso. E estamos vendo isso aqui no Brasil. Nosso portfólio é muito amplo e tem uma visão de plataforma, e esse é um exemplo específico de onde o Brasil está se movendo — agilizando processos que não era possível agilizar antes dessas tecnologias.”
“Por um motivo muito claro. Acompanhamos a história dos agentes desde o começo. Existe uma fase de encantamento pela novidade da tecnologia e uma fase em que as empresas acreditam que tudo será muito fácil e rápido — afinal, se algumas ferramentas funcionam bem no dia a dia pessoal, a tentação natural é achar que dá para transferi-las facilmente para o ambiente de trabalho. Isso não é tão trivial e cria dois problemas.
O primeiro é a proliferação de projetos de IA dentro das empresas — muitas vezes projetos com impacto baixíssimo, mas com custo e risco associados. A preocupação que se ouve hoje, neste momento específico, é: “Eu não sei o que não sei, porque está tudo muito desorganizado. Quero voltar a ter três projetos de IA, mas três projetos onde consigo medir, do começo ao fim, o custo, o custo operacional, o resultado e onde vamos mudar.” É nessa fase que estamos.
O segundo problema, que para nós é muito importante, é que a inteligência artificial aplicada aos dados não resolve necessariamente todos os problemas — em alguns casos, os expõe. Existe muito pouca governança e muito caos nos dados. A IA simplesmente amplifica esse caos. E a gente sabe do que está falando: no Brasil, no ano passado, ajudamos nossos clientes a processar 4 bilhões de workloads. Atuamos dentro das camadas que fazem as empresas funcionar no nível de fluxo de operações. Por isso, identificamos claramente a necessidade do que chamamos de torre de controle, um portal para organizar o fluxo de atividades agênticas.
Não podemos abrir mão da governança. Estamos falando principalmente de grandes corporações que têm responsabilidades com o país, com a comunidade, com os consumidores, e questões de privacidade internas e externas. A consciência no uso da IA começa por fundamentos como a governança. Ninguém imagina que uma empresa possa operar sem governança. A IA cria novos espaços onde essa governança precisa ser aplicada. Não se trata de simplesmente pegar um modelo de IA qualquer, jogar dados e ver o que acontece. E é por isso também que não vivemos só dentro do nosso próprio mundo, abrimos muito o ecossistema. Temos uma parceria recente com a Anthropic e uma parceria recente com a OpenAI. O mundo é muito mais complexo, tem muito mais interdependências, mas nunca podemos abrir mão da governança.”
“Para nós, parcerias como a com a OpenAI e com a Anthropic ou com a Nvidia respondem a uma demanda muito clara: potencializar ainda mais algumas das nossas camadas. Com a integração das ferramentas de Cloud, por exemplo, permitimos que os usuários dos nossos clientes criem agentes dentro da nossa plataforma usando os modelos com os quais se sentem mais confortáveis e adequados.
Como será o cenário competitivo daqui a dois ou três anos é muito difícil de prever neste momento, e essa incerteza gera efeitos de mercado em alguns casos. Mas a demanda que vemos no Brasil, por exemplo, é crescente. Nos últimos três anos, triplicamos a força de trabalho no Brasil e estamos indo para um escritório maior. A demanda é muito grande, em escala, em todos os setores. Os problemas a resolver são muitos e não são triviais.
Nossa visão é enterprise, tanto por dentro quanto por fora das organizações. Grandes empresas precisam organizar o fluxo de trabalho das pessoas — no RH, na força de vendas, no atendimento ao cliente — e também precisam responder em tempo real aos clientes e resolver suas próprias situações. Um tema que está emergindo cada vez mais forte é a segurança. Quando você olha nossas aquisições, percebe que estamos nos preparando para um mundo mais rápido e em aceleração — a aquisição da Moveworks vai muito nesse sentido, assim como a Aramis.
Os problemas não estão ficando mais simples; estão ficando mais complexos, principalmente em grande escala, porque a responsabilidade social das empresas com a comunidade e com os clientes exige atenção redobrada às ferramentas usadas, aos dados disponibilizados e ao ambiente em que essas ferramentas operam.”
“O ponto fundamental é que esta empresa, com a liderança de Bill McDermott, conseguiu antecipar muitas das ondas que estavam chegando. Quando você olha o portfólio de aquisições, os sinais de mercado e os próprios resultados, a confiança que temos no crescimento é muito grande. O que está em discussão hoje talvez seja o rótulo de software as a service. Foi uma grande revolução quando aconteceu, há mais de dez anos — revolucionou tudo, mudou tudo. A pergunta agora é: o que vai ser nos próximos cinco anos?
Esses próximos cinco anos serão claramente anos de IA, anos de ecossistemas, com fornecedores de hardware cada vez mais poderosos e empresas de tecnologia se reorganizando, fazendo parcerias, fazendo aquisições — porque parar no tempo ou esperar para ver simplesmente não funciona nessa velocidade. O dinamismo das empresas vai ser premiado. É nisso que acredito. A ServiceNow é uma empresa extremamente dinâmica em todos os aspectos que discutimos — é um pouco única no seu setor, seja pela forma como mantém as contratações, seja pelo histórico de layoffs que vai contra a tendência do mercado, seja pelas aquisições que está fazendo.
Existe turbulência no negócio, como sempre. Eu vivi a bolha dos anos 2000 e sei que existe um momento de mercado em que nem todos os preços avançam. É um darwinismo tecnológico: ou você consegue se adaptar, se transformar e evoluir — como estamos fazendo — ou cede espaço para os novos players que estão chegando.”
“As aquisições não são feitas necessariamente para fomentar um crescimento não orgânico da receita, mas para ampliar a plataforma. O que estamos fazendo vai nessa direção: turbinar coisas que já temos de forma nativa, dar mais força e energia a elas, ou abrir terrenos que representam passos mais corajosos. Os últimos investimentos — seja em cyber, seja em potencializar o atendimento, como no caso da Moveworks — vão justamente na direção de continuarmos a criar uma plataforma mais robusta. Não se trata de criar dinastias de produtos distintos. A visão é enterprise, e também abrimos uma unidade dedicada ao mid-market. Vamos continuar a expandir a amplitude e a abrangência da plataforma, porque é essa batalha que queremos ganhar.”
“Nunca diga nunca. É difícil prever. Neste momento, o foco é mais na escala — e pode ser que startups brasileiras representem esse perfil. Não compramos só empresas norte-americanas; fizemos aquisições em Israel, por exemplo. Mas o importante nessa visão é ter abrangência global. Hoje você consegue adquirir companhias de 20, 30 funcionários com grande capacidade de escala.
O interesse em M&A ao redor do mundo, inclusive na América Latina, tem muito mais a ver com a capacidade de atender o negócio em escala — o que significa ter tecnologias que operam independentemente de idioma e a capacidade de resolver problemas comuns a todo tipo de empresa, mais do que um produto muito pontual.
Algumas particularidades locais já foram ou estão sendo resolvidas do ponto de vista técnico: o uso intensivo de WhatsApp, tecnologias como o Pix, nuances locais em geral. Mas as aquisições mais relevantes serão sempre focadas em empresas com abrangência global.”
“A região está sendo vista com muita atenção e muito investimento. O Brasil é onde temos o nosso headquarters regional. Um exemplo concreto da nossa preocupação em formar pessoas para essa nova realidade da IA é a parceria que estamos desenvolvendo com o SENAI para a formação de profissionais, com números bastante ambiciosos. Já treinamos 55 professores e, em janeiro, tivemos a primeira turma de alunos especializados na nossa plataforma. No SENAI de São Caetano do Sul, há aulas específicas para formar profissionais na plataforma ServiceNow.
A realidade é que existe uma grande demanda por experiência em IA. Enquanto muito se fala da disrupção do trabalho, de que a IA vai tirar emprego de todo mundo, o que estamos vendo na prática é o oposto: há uma grande escassez de profissionais qualificados. É uma prioridade da indústria formar pessoas, seja nas grandes consultorias, seja em empresas como a nossa, seja no mundo universitário. Precisamos de mais especialização.
Este projeto com o SENAI é um dos vários que temos em educação. Vamos expandir para 12 cidades brasileiras ao longo deste ano e temos uma meta conservadora de formar mil profissionais em 2026 — mas isso é só o começo. O que precisamos fazer é treinar os treinadores. É aí onde a escala acontece.”
Em entrevista, Federico Grosso, vice-presidente da ServiceNow para a América Latina, fala sobre os planos da companhia para a região e explica porque a governança é prioritária para cuidar de uma força de trabalho de agentes autônomo...
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