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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Apple e Google: o acordo que redesenha a IA de consumo

Mais do que acelerar a Siri, a parceria reorganiza poder quando a IA deixa de ser recurso e vira infraestrutura.

A Apple acaba de tomar uma de suas decisões mais importantes em IA até o momento. Após dois anos de testes internos com modelos da OpenAI, Anthropic e Google, no último dia 12 de janeiro anunciou que escolheu o Gemini, do Google, para ser o LLM por trás da próxima versão da Siri, com lançamento previsto para o final deste ano. O anúncio foi imediatamente interpretado como uma correção técnica inevitável: a Siri precisava de ajuda, o Gemini está entre os modelos mais capazes disponíveis, e a Apple escolheu acelerar em vez de insistir em independência total. Uma leitura explica o momento, mas não todo o movimento.

O acordo ocorre dentro de um relacionamento econômico já estabelecido. O Google paga à Apple valores estimados em dezenas de bilhões de dólares para permanecer como mecanismo de busca padrão no Safari, uma prática que se tornou peça central de processos antitruste nos Estados Unidos. Paralelamente, reportagens e analistas indicam que o acordo de IA pode custar à Apple cerca de US$ 1 bilhão por ano, provavelmente estruturado como contrato de computação em nuvem. Nenhuma das empresas divulgou cifras oficiais. Mas a quantia é considerada administrável diante do fluxo de caixa da Apple.

Em vez de grandes investimentos em data centers, a Apple está experimentando um forte fluxo de caixa livre, que se manifesta em recompras expressivas de ações. No último trimestre, a empresa recomprou US$ 20 bilhões em ações e US$ 91 bilhões no total para o ano fiscal de 2025, valor praticamente igual ao do ano anterior. Em seu relatório de resultados do quarto trimestre, divulgado em outubro, a Apple informou cerca de US$ 12,7 bilhões em despesas de capital para todo o ano fiscal de 2025, um aumento de aproximadamente 35% em relação ao ano anterior. Analistas esperam que esse valor possa subir para US$ 14,3 bilhões no ano fiscal de 2026, de acordo com dados da FactSet .

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O acordo

A interpretação mais difundida trata o acordo como resposta funcional a atrasos. Desde 2024, a Apple enfrentou dificuldades para entregar recursos de IA no ritmo de concorrentes, adiou funcionalidades do Apple Intelligence e sofreu pressão de investidores e usuários. Sob essa ótica, escolher o Gemini foi uma decisão pragmática para acelerar entregas e estabilizar expectativas no curto prazo.

Esse diagnóstico está fundamentado em fatos ocorridos no início de dezembro de 2025. A Apple promoveu uma reestruturação relevante em sua liderança de IA. John Giannandrea, que comandou a estratégia de aprendizado de máquina e IA por sete anos, iniciou a transição para um papel de consultor antes de sua aposentadoria prevista para este ano. Seu substituto, Amar Subramanya, chegou após uma longa passagem pelo Google — incluindo liderança na engenharia do assistente Gemini — além de experiência como vice-presidente corporativo de IA na Microsoft. A mudança coincidiu com a transferência da Siri para a órbita de Mike Rockwell, responsável pelo Vision Pro, e com sua integração mais direta ao grupo de software liderado por Craig Federighi. Também revela um ajuste de governança: IA deixa de ser uma função periférica e passa ao núcleo do software.

Reportagens apontaram que testes iniciais da nova Siri haviam sido problemáticos, reforçando a percepção interna e externa de que a estratégia de IA da Apple precisava de correção visível e rápida. Esse contexto reforça a leitura de que modelos de IA estão se tornando infraestrutura. Quando a IA passa a executar ações — e não apenas responder perguntas — o centro de gravidade deixa de ser a fluidez da conversa e passa a ser a capacidade de operar com identidade, pagamentos, mapas, logística e estados pós-transação de forma confiável e em escala.

A evolução da voz é central nessa transição. Alguns analistas interpretam a decisão como um movimento alinhado à consolidação da voz como interface central para execução e comércio, e quem controlar a camada de execução por trás da voz tende a influenciar como o dinheiro circula entre dispositivos, ambientes e momentos. Mais do que a qualidade da conversação, a decisão está ligada ao controle da superfície onde intenção e execução se encontram. Trata-se da propriedade da superfície de transação que substituirá aplicativos, sites e, eventualmente, telas.

Assistentes de voz caminham para além do papel de recurso auxiliar e se aproximam de uma interface recorrente em telefones, relógios, carros e dispositivos ambientais. Analistas observam que, à medida que a voz condensa descoberta, decisão e execução em um único fluxo, o assistente deixa de apenas recomendar e passa a intermediar resultados econômicos.

Nesse contexto, execução importa mais do que eloquência. Assistentes capazes de agir exigem integração profunda com sistemas de comércio, identidade e pagamentos. O Google já opera esse tipo de infraestrutura há duas décadas por meio da busca, da publicidade e de plataformas de comércio digital. Essa capacidade operacional — mais do que a qualidade isolada do modelo — ajuda a explicar por que o Gemini se tornou um parceiro viável para a Apple.

Visto sob a ótica competitiva, o acordo redistribui ganhos e riscos de forma assimétrica.

Quem ganha e quem perde

Para o Google, os ganhos são claros. A parceria amplia a distribuição do Gemini ao conectá-lo, ainda que de forma invisível ao usuário, à base global de dispositivos Apple. Reforça a posição do Gemini como modelo de referência para aplicações de IA voltadas ao consumidor e cria uma fonte adicional de receita recorrente via nuvem e licenciamento. Trata-se de distribuição em escala, algo que poucos concorrentes conseguem replicar.

O anúncio da parceria, somado ao crescimento de cerca de 34% na receita do Google Cloud no período, levou a Alphabet a se tornar a quarta empresa na história a tocar o patamar dos US$ 4 trilhões, juntando-se a Nvidia, Microsoft e à própria Apple. A confiança dos investidores é alimentada pela percepção de que o Google não apenas recuperou o terreno perdido na corrida da IA, mas agora dita o ritmo. A Alphabet já havia ultrapassado a Apple em valor de mercado pela primeira vez desde 2019 dias antes do anúncio, refletindo uma forte valorização das ações ao longo de 2025.

Mas os riscos para o Google também são relevantes. E o pano de fundo regulatório ajuda a entender. Meses antes do anúncio, um juiz federal de primeira instância decidiu que o Google poderia continuar fazendo pagamentos a parceiros estratégicos, embora sob maior escrutínio quanto a exclusividade e efeitos concorrenciais. O novo acordo aprofunda a percepção de concentração de poder entre duas das maiores empresas de tecnologia do mundo. Não faltaram dedos apontados nesse sentido. Elon Musk foi o primeiro a classificá-lo como “uma concentração de poder excessiva” para o Google, em uma publicação no X.

Além disso, ao operar nos bastidores de um ecossistema rigidamente controlado pela Apple, o Google aceita limites claros sobre acesso direto ao usuário, dados e monetização na camada de interface. Vários artigos observam que o acordo não é exclusivo: Apple pode usar múltiplos parceiros ou trocar de fornecedor caso evolua seu próprio stack, o que alguns veem como forma de manter poder de barganha e não “se vender” completamente ao Google. Mesmo sem exclusividade formal, a fricção de troca tende a aumentar à medida que execução e intenções se aprofundam.

Além disso, reportagens de bastidores indicam que a Apple pretende refinar versões do Gemini e construir Apple Foundation Models em cima dele, mantendo controle de experiência, marca (sem co‑branding “Google”), camada de produto e integração com o sistema, de forma semelhante ao que faz hoje com o acordo de busca.

Em fóruns técnicos há quem argumente que o Google corre o risco de ficar preso a um contrato caro, com fortes limites de uso de dados, ganhando pouco além de receita de curto prazo e ainda carregando o desgaste de reputação em privacidade. Razões apontadas por pessoas familiarizadas com as negociações que teriam levado a OpenAI a ter dificuldades para selar um acordo.

Já para a Apple, o acordo compra tempo e capacidade. Ele permite melhorar a Siri, aliviar a pressão competitiva imediata e avançar no Apple Intelligence enquanto seus próprios modelos amadurecem. Ao mesmo tempo, preserva elementos que a empresa considera inegociáveis: controle da interface, da experiência do usuário e da arquitetura de privacidade.

Os produtos da Apple sempre foram vistos como de altíssima qualidade e, historicamente, eles são os perfeccionistas em relação a qualquer nova tecnologia. A companhia foi explícita ao afirmar que o processamento de IA continuará ocorrendo no dispositivo sempre que possível e, quando necessário, em sua infraestrutura de Private Cloud Compute. Segundo a empresa, dados de usuários permanecem sob seu controle. O Google fornece a tecnologia subjacente e recebe pelo acesso; a Apple mantém a custódia da relação com o usuário. Esse arranjo é consistente com seu histórico de parcerias estratégicas.

Há ainda uma camada menos visível, mas estrutural: a execução dentro do ecossistema de aplicativos. LLMs fornecem a conversa, mas são as intenções de aplicativo que permitem que assistentes realmente realizem ações dentro de softwares de terceiros. Analistas apontam que, ao terceirizar parte do raciocínio fundamental, a Apple libera foco para fortalecer essa camada — onde já detém vantagem por controlar o sistema operacional e o relacionamento com desenvolvedores.

Essa lógica não é nova. A Apple começou com mapas de terceiros antes de internalizar sua própria solução. Dependeu da Intel por anos antes de migrar para o Apple Silicon. Em cada caso, utilizou capacidades externas para acelerar impacto ao usuário enquanto construía diferenciação de longo prazo. A parceria com o Google segue esse padrão.

Isso não elimina o risco estrutural da dependência. Assim como na busca, a Apple corre o risco de apoiar experiências centrais em tecnologia fornecida por um rival direto, permitindo que esse parceiro capture parte relevante do valor econômico associado à intenção dos usuários. A diferença é que a Apple parece disposta a aceitar esse risco no curto prazo para preservar controle estratégico no longo. Está priorizando a velocidade em vez do orgulho.

Há, no entanto, um terceiro ator diretamente impactado por essa realocação de poder: a OpenAI. Desde 2024, o ChatGPT vinha sendo integrado a funcionalidades de IA no iOS e no macOS, criando a expectativa de que a OpenAI se tornaria a inteligência central da próxima geração da Siri. A escolha do Gemini como base principal desloca esse papel para o Google e reduz a centralidade da OpenAI em um dos maiores canais de distribuição de IA para o consumidor.

Analistas de mercado interpretaram a decisão como um revés estratégico para a OpenAI, não por uma queda de qualidade técnica, mas pela perda de posição como modelo “default” embutido em um ecossistema de bilhões de dispositivos. Em produtos de consumo, distribuição integrada tende a importar tanto quanto, ou mais do que, liderança em benchmarks.

Não por acaso, reportagens recentes indicaram que a OpenAI intensificou esforços internos em resposta ao avanço do Gemini, inclusive com foco maior em agentes multimodais e experiências de voz mais naturais. A empresa não declarou publicamente que essa priorização seja consequência direta da decisão da Apple, mas a mudança de contexto competitivo torna esse movimento estrategicamente coerente.

Sem a integração profunda à Siri, a OpenAI passa a depender mais de aplicativos próprios, parcerias alternativas e novos formatos de hardware para sustentar crescimento e relevância no consumo de massa. É uma posição viável, mas estruturalmente mais difícil do que operar como inteligência nativa dentro do sistema operacional dominante do iPhone.

Uma aposta a longo prazo

A aposta ganha outra dimensão quando se considera a computação ambiental. Apple e Google investem em dispositivos com menor dependência de telas, onde a voz tende a se tornar a interface primária. Analistas observam que, nesse cenário, a capacidade de executar ações por voz deixa de ser complementar e passa a ser central. O acordo posiciona ambas as empresas para esse futuro, ainda que ele não esteja totalmente formado.

Há também um componente defensivo. Ao reforçarem uma à outra, Apple e Google elevam a barreira contra novos entrantes de IA que buscam distribuição direta ao consumidor. A cooperação não elimina a competição entre elas, mas desloca o campo de batalha e dificulta a emergência de intermediários independentes em escala.

Do ponto de vista de liderança de produto, o movimento carrega uma lição clara. A Apple prioriza impacto no usuário sobre autoria interna. Colaborar não significa perder controle quando a interface, os dados e a experiência permanecem proprietários. Dependências estratégicas, quando intencionais, podem funcionar como pontes de aprendizado.

No fim, mais que decidir quem tem o melhor assistente hoje, o acordo ajuda a definir quem estará melhor posicionado quando a interface dominante deixar de ser a tela e passar a ser a voz. A Apple protege a interface e o relacionamento com o usuário. O Google fortalece a execução e a infraestrutura. Ambos ganham no curto prazo. Ambos assumem riscos no longo.

A história real do acordo entre Apple e Google não é sobre corrigir a Siri. É sobre posicionamento em um momento em que a IA deixa de ser um recurso isolado e passa a funcionar como a camada invisível que conecta intenção humana a ação econômica. Quando essa transição se consolidar, o custo — ou o acerto — dessa escolha ficará claro. Quando interfaces mudam mais rápido do que modelos, a vantagem não está em quem treina melhor a IA hoje, mas em quem se posiciona para decidir como ela será usada amanhã.

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