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Na SXSW 2026, a futurista Amy Webb trocou os relatórios de tendências por mapas de convergências
SXSW 2026

Amy Webb e o fim da era dos relatórios de tendência

No palco da SXSW 2026, a futurista "matou" seus Tech Trends Reports e lançou um novo documento, o Convergence Outlook, que trata tendências como sinais que convergem para “tempestades” tecnológicas e sistêmicas

Por Denise Melo e Francesca Tomaselli, especial para The Shift * 17/03/2026

Por onde passa, a futurista Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group (FTSG), arrasta multidões. E no SXSW 2026, claro, não poderia ser diferente. Horas antes de começar sua palestra, os arredores do JW Marriot, no centro de Austin (Texas), já tinham filas com pessoas de todas as partes do mundo à espera do que Webb falaria.

A expectativa não era à toa. Durante quase duas décadas (de 2008 a 2025), o Tech Trend Report de Amy Webb se tornou um dos documentos mais aguardados do SXSW. Publicado anualmente pelo FTSG, o relatório consolida centenas de sinais tecnológicos e tendências emergentes em um mapa detalhado do futuro próximo. Mas na apresentação deste ano, Amy Webb “matou” seu Tech Trend Report no palco porque, segundo ela, relatórios de tendências ficam obsoletos no momento em que são publicados, diante da velocidade das mudanças.

Segundo a futurista, o formato que ajudou empresas a navegar a transformação digital ao longo dos últimos anos se tornou insuficiente para explicar a complexidade atual. “Relatórios de tendência podem virar uma muleta”, afirmou. “Eles organizam o passado, mas não ajudam necessariamente a tomar decisões sobre o futuro.”

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Para explicar essa mudança, Webb recorreu a um conceito clássico da economia: a destruição criativa, formulada por Joseph Schumpeter. A teoria descreve um processo contínuo em que novas tecnologias substituem estruturas anteriores, gerando ciclos de inovação que transformam mercados e instituições.

Na visão da futurista, esse processo hoje acontece em ritmo acelerado. Webb propõe abandonar a lógica de tendências isoladas e passar a observar o que ela chama de convergências: pontos de interseção entre diferentes tecnologias, forças sociais e mudanças econômicas. É hora, segundo ela, de praticar a destruição criativa na própria carne. Esse foi o mote para o lançamento da primeira edição do “Convergence Outlook”, o novo relatório da FTSG que trata de tendências como sinais que convergem para “tempestades” tecnológicas e sistêmicas para acelerar a tomada de decisões estratégicas.

Essas convergências não apenas criam novos mercados. Elas redistribuem poder. No painel, Webb destacou três grandes convergências que, segundo ela, já começam a redefinir a próxima década.

A primeira é o aumento humano. Avanços em biotecnologia, interfaces cérebro-computador e dispositivos vestíveis estão ampliando capacidades físicas e cognitivas do corpo humano. O que antes parecia ficção científica — exoesqueletos, edição genética ou comunicação cérebro-máquina — começa a ganhar aplicações práticas. Se combinadas, essas tecnologias podem tornar indivíduos significativamente mais produtivos, levantando uma questão desconfortável: a possibilidade de uma nova desigualdade entre humanos aumentados e não aumentados.

A segunda convergência é o que Webb chama de trabalho ilimitado. Sistemas de IA, robótica avançada e fábricas totalmente automatizadas estão removendo limites naturais do trabalho humano, como tempo e fadiga. Nesse modelo, máquinas podem produzir continuamente, reconfigurando a lógica de produtividade que sustentou a economia industrial por séculos.

A terceira convergência talvez seja a mais silenciosa e, ao mesmo tempo, a mais inquietante. Webb a define como terceirização emocional. Cada vez mais, pessoas recorrem a sistemas de inteligência artificial para obter companhia, aconselhamento e validação emocional. De apps de relacionamento a assistentes terapêuticos digitais, emerge um novo mercado bilionário baseado na transferência de vínculos afetivos para plataformas tecnológicas.

O risco, segundo Webb, não é apenas tecnológico, mas cultural. Quando relações emocionais passam a ser mediadas por sistemas automatizados, a estabilidade psicológica pode se tornar dependente de plataformas.

No entanto, a mensagem final da futurista não foi alarmista, e sim, estratégica. Para Amy Webb, o desafio não está em prever o futuro com precisão, mas em identificar as convergências que já estão acontecendo.


Denise Melo, Head de Reputação e Influência da Oficina Consultoria, e Francesca Tomaselli, Diretora de Estratégia Digital da Oficina Consultoria, estão em Austin acompanhando a SXSW 2026

 

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