Ziggy Stardust é uma ópera rock de David Bowie sobre um alienígena que chega à Terra e se transforma em um astro do rock. As óperas rock eram um conceito de álbum muito popular nos anos 1970: todas as músicas compunham uma única narrativa, em que cada faixa se conectava à seguinte até formar uma obra coesa.
A música sempre me inspirou. Talvez por isso eu goste de usar referências musicais em muitas das coisas que construo — agentes, nomes de código, ideias, pastas. Em 2018, quando eu liderava uma venture builder especializada em startups de inteligência artificial, comecei a imaginar uma solução chamada Ziggy. A ideia era ambiciosa: criar uma camada central capaz de conectar tudo o que existia dentro de uma empresa — conhecimento, comunicação, documentos, processos — e, a partir disso, oferecer uma leitura ampla e profunda do negócio.
Naquele momento, porém, a visão estava muito à frente da infraestrutura disponível. Ainda não existiam large language models como os conhecemos hoje. Agentes de IA não faziam parte do vocabulário corrente. Faltavam ferramentas, maturidade tecnológica e, em certa medida, o contexto certo para transformar aquela ideia em algo real. Mesmo assim, ela permaneceu viva. Algumas ideias apenas esperam o tempo alcançá-las.
Esse tempo começou a chegar em 2023, quando os grandes modelos de linguagem ganharam escala e passaram a redesenhar o mercado. Em 2024, os agentes entraram em cena. De repente, aquilo que antes parecia conceitual começava a se tornar viável. Havia, enfim, uma luz no fim do túnel — e, desta vez, não era um trem.
Mas a viabilidade técnica não resolvia a pergunta principal. Como transformar essa nova capacidade em resultado concreto? Eficiência, por si só, não significa geração de valor. Uma operação pode se tornar mais rápida e, ainda assim, produzir exatamente o mesmo caixa. Essa constatação me levou a outra reflexão: transformar uma empresa com essas tecnologias exigiria enfrentar as “lombadas” inevitáveis da estrada — sistemas legados, planilhas dispersas, múltiplos responsáveis, fluxos fragmentados, prioridades conflitantes. E isso antes mesmo de entrar na dimensão mais difícil de todas: mentalidades, repertórios e visões de mundo.
Foi nesse ponto que passei a considerar um caminho diferente.
Meu pai era pedreiro, e talvez por isso eu tenha desenvolvido certa aversão a obras — especialmente reformas. Reformar quase sempre custa mais, demora mais e revela problemas invisíveis à primeira vista. Construir do zero, naquele contexto, parecia mais racional do que adaptar estruturas já comprometidas.
A pergunta então mudou de forma: e se, em vez de transformar uma empresa tradicional, eu concebesse uma empresa nativamente gerida por agentes de IA? E se ela já nascesse agêntica, desde o dia zero?
No início de 2025, comecei essa jornada. Foi ela que me levou a San Francisco e a parceiros dispostos a investir 23 milhões de dólares no treinamento dos modelos necessários para tornar essa visão possível.
Este texto é a introdução dessa trajetória que quero compartilhar com vocês: a construção de uma empresa movida por IA, da contabilidade ao recebimento. A proposta aqui não é oferecer fórmulas prontas nem defender um modelo universal. É, antes, relatar com honestidade o que deu errado, o que parecia promissor e não se sustentou, o que funcionou e o que ainda permanece em aberto. Se este diário cumprir algum papel, espero que seja o de ampliar possibilidades — não o de ditar regras.
Nos vemos no próximo capítulo.
A história da construção de uma empresa movida por IA, da contabilidade ao recebimento
O desempenho de LLMs depende menos do que sabem e mais de como avaliam cada caminho possível.
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