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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Adotar IA ficou simples. Sustentar operações inteligentes, não

A ISO/IEC 42001 reconhece o que muitas empresas ainda ignoram: IA é sistema crítico de operação, não ferramenta de produtividade.

Por Jesse Fernandes * 03/06/2026

Durante muito tempo, a discussão sobre Inteligência Artificial esteve concentrada em inovação, produtividade e automação. E isso faz sentido. A IA realmente transformou a velocidade com que organizações conseguem analisar dados, automatizar processos e ampliar eficiência operacional.

Mas, na minha visão, entramos agora em uma segunda fase dessa transformação e ela é muito mais complexa. O desafio deixou de ser apenas adotar IA. O desafio passa a ser sustentar o uso da IA de forma segura, governável e responsável ao longo do tempo.

Nos últimos anos, vimos uma aceleração sem precedentes da IA generativa e dos modelos preditivos dentro das organizações. Hoje, muitas empresas já operam sistemas inteligentes em atendimento, análise de risco, prevenção a fraudes, relacionamento com clientes, processos jurídicos e automação operacional.

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O problema é que a velocidade da adoção tem sido maior do que a capacidade estrutural das organizações de governar esses ambientes. Muitas vezes, a IA já está presente nas operações sem que exista clareza sobre quais dados alimentam os modelos, como decisões automatizadas estão sendo tomadas ou quais riscos operacionais estão sendo criados.

Esse cenário começa a preocupar não apenas áreas de tecnologia, mas também compliance, jurídico, segurança da informação e governança corporativa. Segundo levantamento recente da Deloitte, mais de 70% das organizações já utilizam IA generativa em alguma atividade corporativa, mas apenas uma parcela reduzida possui estruturas maduras de governança relacionadas à IA.

Na prática, isso significa que boa parte do mercado ainda opera sem processos consistentes de rastreabilidade, supervisão humana, avaliação de riscos ou políticas formais sobre decisões automatizadas. E isso tende a se tornar ainda mais crítico com o avanço dos sistemas agênticos.

Com a ascensão da IA agêntica, esse risco se amplia. Esses sistemas não apenas respondem a comandos, mas podem tomar decisões, executar tarefas e interagir com diferentes ambientes digitais com crescente autonomia.

Ou seja: o debate deixa de ser apenas tecnológico. Ele passa a envolver responsabilidade operacional. É justamente por isso que considero extremamente relevante o surgimento da ISO/IEC 42001, primeira norma internacional voltada especificamente à governança de sistemas de Inteligência Artificial.

A norma representa um marco importante porque reconhece que IA não pode ser tratada apenas como ferramenta. Ela precisa ser tratada como sistema crítico de operação.
E isso exige governança de dados, gestão de riscos, segurança da informação, supervisão humana, transparência, monitoramento contínuo, auditoria, explicabilidade.

Na Bravonix, temos acompanhado de perto essa transformação em organizações públicas e privadas. Existe hoje uma preocupação crescente relacionada à capacidade das empresas de sustentar operações inteligentes sem ampliar vulnerabilidades invisíveis.

E essas vulnerabilidades vão muito além da segurança cibernética. Elas incluem dependência tecnológica excessiva, ausência de rastreabilidade, uso inadequado de dados, decisões automatizadas sem critérios claros e ambientes altamente conectados operando sem governança compatível com sua complexidade. Outro ponto que considero central nessa discussão é soberania digital.

Grande parte da IA atualmente utilizada pelas organizações depende exclusivamente de infraestrutura global, modelos proprietários e ecossistemas 100% externos. Isso cria um novo nível de dependência tecnológica que precisa começar a fazer parte das discussões estratégicas das empresas.

Na prática, sustentabilidade digital significa exatamente isso: a capacidade de sustentar decisões tecnológicas ao longo do tempo sem comprometer segurança, autonomia, governança e continuidade operacional.

E acredito que esse será o grande divisor entre organizações que apenas utilizarão IA e organizações realmente preparadas para operar em ambientes inteligentes.

Nos próximos anos, rastreabilidade, auditoria, explicabilidade e governança contínua deixarão de funcionar como diferenciais. Passarão a ser requisitos mínimos. Porque o futuro da IA não será sustentado apenas por capacidade computacional. Será sustentado por governança.

 

(*) Jesse Fernandes é Tech Lead de Ciência de Dados e Inteligência Artificial da Bravonix, ecossistema de soluções em tecnologia para cibersegurança, compliance e IA.

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