s
Relatórios da Stanford e da Capgemini mostram por que a vantagem tecnológica migrou da inovação para a capacidade de executar, governar e escalar sistemas complexos (Crédito: Freepik)
INOVAÇÃO

A tecnologia acelerou, mas a base científica e humana está encolhendo

Enquanto IA, quântica e biotecnologia avançam, Stanford alerta para a erosão da ciência básica e do capital humano

Até 2025, o desafio era descobrir o que é possível fazer com as novas tecnologias. Em 2026, passou a ser construir sistemas, instituições e arquiteturas capazes de sustentar valor no longo prazo. Dois relatórios recentes olham para esse presente-futuro, um mais focado na visão de descoberta e construção e o outro, na integração. 

O estudo “Stanford Emerging Technology Review 2026” analisa dez campos tecnológicos críticos – da Inteligência Artificial às Tecnologias Quânticas, passando por Biotecnologia Sintética, Tecnologias de Energia, Robótica, Ciência dos Materiais, semicondutores e espaço – sob a ótica de ciência, economia e política pública. O relatório parte de um diagnóstico central: nunca tantas tecnologias avançaram tão rápido ao mesmo tempo, criando um ambiente de convergência tecnológica com impactos econômicos, geopolíticos e sociais profundos.

Já a Capgemini, em “Top Tech Trends of 2026”, observa como essas tecnologias estão sendo absorvidas (ou não) pelas organizações, destacando a transição da fase experimental para a fase estrutural da transformação digital. O ponto de encontro entre os dois estudos aponta que o gargalo não é mais tecnológico, mas organizacional, institucional e humano. Em outras palavras, a tecnologia está avançando de skate e nós estamos correndo atrás.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

 

Inteligência Artificial: da euforia ao “ano da verdade”

A IA é tratada pelos dois relatórios como tecnologia fundacional, comparável à eletricidade ou à internet. Mas ambos rejeitam a ideia de que a simples adoção de modelos avançados seja suficiente para gerar impacto econômico duradouro. Segundo a Capgemini, 46% da força de trabalho de software já utiliza ferramentas de IA Generativa, e esse número deve chegar a 85% até 2026, sinalizando que a tecnologia caminha rapidamente para se tornar padrão operacional. Ainda assim, a consultoria observa um descompasso importante: o volume de investimentos superou a capacidade das empresas de integrar a IA aos processos centrais do negócio.

Entre as organizações que conseguiram avançar além dos pilotos, os resultados começam a aparecer. Os chamados “early adopters” reportam ganhos de produtividade entre 7% e 18% em operações digitais e de software, e cerca de 50% das empresas reinvestem o tempo economizado no desenvolvimento de novos produtos e serviços, enquanto quase a mesma proporção direciona esse ganho para programas de requalificação profissional.

A Stanford reforça esse diagnóstico ao destacar que, apesar dos avanços rápidos, modelos de IA ainda apresentam falhas estruturais, vulnerabilidades a ataques e comportamentos imprevisíveis, o que torna a governança, avaliação contínua e controle arquitetural fatores críticos para sua adoção em larga escala.

 

Chegou a vez da “IA comer o software”

Um dos insights mais interessantes do relatório da Capgemini é a ideia de que “a IA está comendo o software”. Depois da fase em que “o software comeu o mundo”, o desenvolvimento de aplicações entra agora em uma nova fase: software como sistema vivo, continuamente gerado, testado, corrigido e otimizado por agentes de IA. De acordo com o estudo, três quartos das empresas com faturamento anual acima de US$ 20 bilhões já pilotaram ou escalaram o uso de IA Generativa em engenharia de software. Isso inclui desde geração automática de código até pipelines autônomos de testes, segurança e refatoração contínua.

Nesse modelo, o papel do desenvolvedor muda radicalmente. A escrita manual de código perde centralidade, enquanto ganham importância competências como arquitetura de sistemas, orquestração de agentes, governança e pensamento sistêmico. O risco, alertam os dois relatórios, é repetir erros do passado: acelerar demais sem criar mecanismos de controle, qualidade e responsabilidade.

O temor, como mostra este artigo da The Shift, tem muito mais a ver com a possibilidade de agentes de IA assumindo tarefas completas, e não apenas acelerando tarefas pontuais. As empresas de software, que nos últimos seis meses haviam registrado seu pior desempenho em relação ao índice S&P, segundo dados da Dow Jones Market Data, viram suas ações cair. O mercado eliminou US$ 285 bilhões em valor de mercado.

 

A infraestrutura invisível: dados, energia e semicondutores

Se a IA ocupa o centro da narrativa, Stanford e Capgemini concordam que o verdadeiro campo de batalha está nas camadas menos visíveis da tecnologia. O relatório da Stanford chama atenção para o papel estratégico dos semicondutores, descritos como “o processo de manufatura mais preciso já criado”. A demanda por IA está servindo de motor para inovações em memória, interconexões de alta largura de banda e eficiência energética, mas a produção continua altamente concentrada fora dos EUA, principalmente em Taiwan, com a China avançando rapidamente.

O CHIPS and Science Act foi desenhado para mitigar essa dependência, mas o próprio relatório é cauteloso: reverter décadas de desindustrialização levará anos, possivelmente décadas.

No campo da energia, a Stanford destaca o chamado “trilema energético”: equilibrar confiabilidade, acessibilidade e redução de emissões. Apesar de tecnologias limpas caminharem para se tornar mais acessíveis e baratas, a escala global exigirá décadas, dada a inércia da infraestrutura existente e a complexidade regulatória. A Capgemini complementa esse ponto ao observar que a pressão por eficiência computacional da IA já está influenciando decisões sobre arquitetura de cloud, data centers e soberania tecnológica.

 

Biotecnologia e Tecnologias Quânticas: avanços e riscos

A Stanford é especialmente enfática ao tratar Biotecnologia e Computação Quântica como áreas de competição geopolítica direta. Em Biotecnologia, o relatório alerta que os EUA ainda dependem excessivamente de capital privado para financiar pesquisas fundamentais, enquanto a China colhe resultados de mais de duas décadas de investimento estratégico coordenado.

A receita anual proveniente de medicamentos originários da China poderá saltar para um valor estimado de US$ 34 bilhões até 2030 e US$ 220 bilhões até 2040, de acordo com levantamento do Morgan Stanley. A China deverá ser responsável por 35% das aprovações da Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, um aumento em relação aos atuais 5%, enquanto as empresas de Biotecnologia desenvolvem novos medicamentos em áreas de alto valor agregado, incluindo tratamentos para câncer, diabetes e obesidade.

Na Computação Quântica, os avanços são reais, mas desiguais. Há progresso consistente em Computação, Sensoriamento e Comunicações Quânticas, com potencial para quebrar algoritmos criptográficos atuais e transformar áreas como Química e Ciência dos Materiais. Ainda assim, o estudo da Stanford reforça que pesquisa básica financiada pelo Estado continua sendo o alicerce indispensável, mesmo com a entrada agressiva do setor privado.

 

O fator humano: talento, educação e a erosão da base científica

Talvez o alerta mais contundente do relatório da Stanford esteja fora do campo tecnológico em si. O estudo mostra que o investimento federal dos EUA em pesquisa básica caiu de 1,86% do PIB em 1964 para apenas 0,66%, e que o país hoje ocupa apenas a oitava posição global nesse indicador.

Enquanto isso, a China aumenta seus investimentos em pesquisa básica a um ritmo seis vezes superior ao dos EUA, com projeções que indicam uma ultrapassagem ainda nesta década. O efeito já é visível: mais de 70% dos doutores em IA formados nos EUA em 2022 migraram para a indústria, reduzindo a capacidade das universidades de formar a próxima geração de pesquisadores.

A Capgemini ecoa essa preocupação ao afirmar que a vantagem competitiva em 2026 não estará nos modelos de IA – que se tornam rapidamente commodities – mas na capacidade humana de integrar, governar e escalar sistemas complexos.

A próxima fase da transformação tecnológica não será definida por grandes anúncios, mas por decisões menos visíveis, como financiar ciência básica, formar talentos, redesenhar arquiteturas de software, reduzir dependências críticas e transformar eficiência em valor sustentável.

Só 47% dos CISOs sabem onde estão seus agentes de IA

Inteligência Artificial

Só 47% dos CISOs sabem onde estão seus agentes de IA

Pesquisa da Okta com 306 CISOs mostra que a infraestrutura de identidade é, ao mesmo tempo, o problema e a solução para controlar agentes de IA dentro das empresas

A IA começou a escrever genomas

Inteligência Artificial

A IA começou a escrever genomas

Modelos de linguagem genômica já conseguem projetar genomas virais funcionais. O avanço promete novas terapias e muda a escala do debate sobre biossegurança.

Cultura organizacional: como fechar o gap entre o que sua empresa promete e o que os funcionários vivem

Tendências

Cultura organizacional: como fechar o gap entre o que sua empresa prom...

Uma pesquisa com 300 profissionais de cultura e RH mostra que o problema não é falta de discurso — é a distância entre o que a liderança diz e o que ela recompensa, tolera e reforça todos os dias

Robôs para companhia emocional colocam IA Física dentro da sua casa

Inovação

Robôs para companhia emocional colocam IA Física dentro da sua casa

As vendas anuais de humanoides fabricados na China devem mais que dobrar em 2026, para cerca de 28.000 unidades

Carga cognitiva, o próximo KPI da gestão

Tendências

Carga cognitiva, o próximo KPI da gestão

Uma linha emergente de pesquisas começa a tratar "mental load" como recurso organizacional, com efeito direto sobre a qualidade das decisões.

Cibersegurança em transição: como a IA está redesenhando cargos da base ao topo

Inteligência Artificial

Cibersegurança em transição: como a IA está redesenhando cargos da...

Um estudo doa ISC2 com 856 profissionais mostra que a IA já corta tarefas de entrada em segurança digital, mas também amplia o tempo dedicado à validação humana, ao estresse no trabalho e à criação de novas funções na área