Em análise publicada neste ano, o banco suíço Julius Baer chamou de tecnodólar um sistema monetário sustentado por infraestrutura digital, poder de plataforma e pela corrida global por capacidade de inteligência artificial. Seria uma nova fase da hegemonia monetária americana, depois do ouro e do petrodólar. A própria análise, porém, reconhece que a dominância do dólar repousa em fundamentos financeiros, institucionais e geopolíticos que vão além do ativo que se compra com ele.
A ideia merece atenção, mas reúne fenômenos que precisam ser examinados separadamente. Uma coisa é comprar serviços de IA em dólar. Outra é comprar ativos americanos para participar dessa corrida. Outra, ainda, é guardar dólares como reserva. A ascensão do tecnodólar pode avançar nas duas primeiras frentes sem produzir a mesma mudança na terceira.
O câmbio, sozinho, ajuda pouco a distinguir esses movimentos. Em 2025, o índice do dólar perdeu 10,8% no primeiro semestre, apesar da liderança tecnológica americana. Tarifas e dúvidas sobre a independência do Federal Reserve também pesaram sobre a moeda. Essa queda, por si só, não refuta a hipótese do tecnodólar, assim como uma valorização não bastaria para confirmá-la.
O efeito da IA sobre a demanda por dólar também deve variar conforme a parte da cadeia. Proponho dividi-la em quatro camadas: modelos, dados e software; infraestrutura instalada, incluindo data centers e capacidade de computação, ou compute; fabricação dos equipamentos, incluindo semicondutores; e recursos naturais, incluindo água, minerais e energia.
Minha hipótese é que a infraestrutura instalada oferece as condições mais favoráveis à continuidade dos pagamentos em dólar. Quem contrata capacidade de computação de um fornecedor americano entra em uma relação comercial que pode durar anos, com custos de migração e dependência de serviços complementares. Nas demais camadas, a diversidade de fornecedores, jurisdições e políticas industriais pode abrir espaço para outros arranjos monetários. Essa divisão não determina a moeda dos contratos, mas ajuda a identificar onde procurar os sinais.
A comparação histórica com ouro e petróleo também merece ser feita com cuidado. Ambos sustentaram o dólar (ainda que por mecanismos diferentes), ambos foram apoiados em compromissos entre Estados, e, nos dois casos, o lastro físico reforçava a institucionalidade americana no sistema financeiro. Em Bretton Woods, os Estados Unidos se comprometeram a converter em ouro, a US$ 35 por onça, os dólares de bancos centrais estrangeiros, conversibilidade que suspenderam em 1971. Já em 1974, um entendimento entre Washington e Riad levou os superávits sauditas para títulos do Tesouro americano em troca de equipamento e apoio militar.
O compute, por sua vez, é vendido por contrato, ao preço praticado por cada fornecedor. Quem o compra recebe acesso a um serviço, sem adquirir um direito monetário contra o governo americano. Seu eventual papel como âncora dependerá de quanto essa demanda comercial se traduzirá em financiamento, contratos e patrimônio mantidos em dólar.
O fluxo de capital já oferece alguns sinais dessa mudança.
Os quatro maiores hyperscalers americanos anunciaram em abril investimentos de US$ 725 bilhões para 2026, 77% acima do recorde do ano anterior, segundo compilação do Financial Times. Nos doze meses até junho, investidores de fora compraram ações americanas no equivalente a 2,8% do PIB dos Estados Unidos, contra 2% em títulos do Tesouro, segundo cálculo do Deutsche Bank. Essa é uma inversão que neste século só foi observada, e brevemente, depois da crise de 2008 e na pandemia.
Ao mesmo tempo, a demanda migrou do crédito soberano para o corporativo, dentro do próprio dólar, com investidores apostando em empresas em horizontes de décadas. Em fevereiro, a Alphabet vendeu US$ 20 bilhões em títulos e recebeu mais de US$ 100 bilhões em ordens, segundo a Bloomberg. Em junho, o Tesouro americano vendeu US$ 22 bilhões em títulos de 30 anos a juros acima de 5%, com demanda abaixo da média dos leilões anteriores. Nas reservas dos bancos centrais, o movimento (ainda) não se repetiu, e a fatia do dólar nas reservas medidas pelo FMI até caiu, de 57,2% para 56,7%, no segundo trimestre.
Essa discussão convive com outra, recorrente, sobre a bolha da IA. Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, atribuiu em julho boa parte do fluxo recorde de capital estrangeiro para ações americanas à busca por exposição a um setor estratégico que esses investidores não encontram em casa, e observou que a maioria deles não faz hedge cambial. Se a IA decepcionar, escreveu, a retração desses fluxos será um risco relevante de queda do dólar.
O precedente de 2008, no entanto, aponta na direção oposta. Naquele ano, a crise nasceu em Wall Street e, mesmo assim, o dólar se valorizou, porque bancos estrangeiros correram atrás de financiamento em dólar e investidores buscaram o Tesouro.
Um primeiro teste entre as duas leituras já apareceu em outubro. No mês em que a Alphabet chegou a cair 12,6% em um dia, após informar fluxo de caixa negativo por causa dos gastos com IA, os títulos do Tesouro subiram cerca de 2%, a maior alta mensal desde fevereiro de 2025, segundo índice da Bloomberg, enquanto o dólar perdeu força nos dias de maior queda das ações de tecnologia.
As eleições americanas de 3 de novembro acrescentaram uma dimensão política à disputa pela infraestrutura. Além de conquistar as duas casas do Congresso, os democratas elegeram no Texas Gina Hinojosa, que prometeu uma moratória para novos data centers. Em Ohio, pelo menos 14 municípios aprovaram proibições ou restrições. No pregão de 4 de novembro, a CoreWeave recuava, enquanto Amazon e Microsoft avançavam. Essa reação do mercado é compatível com a valorização da capacidade já instalada em detrimento da construção de novos data centers.
Até a divulgação dos dados de reservas referentes ao segundo trimestre de 2027, vale acompanhar três movimentos: a moeda dos contratos e financiamentos da cadeia de IA; a persistência dos fluxos estrangeiros para ativos americanos; e as decisões dos bancos centrais, descontados os efeitos do câmbio. Uma alta da participação do dólar nas reservas seria relevante, mas ainda exigiria explicar quanto dela se deve à IA.
Por ora, os sinais são mais claros no financiamento privado do que nas reservas oficiais. A questão é saber se o mundo continuará querendo guardar em dólar uma parcela maior do patrimônio que a IA ajuda a criar — inclusive se, ou quando, o entusiasmo com suas empresas diminuir.
Depois do ouro e do petrodólar, há espaço para um novo sistema monetário com o dólar atrelado à infraestrutura digital, poder de computação e inteligência artificial?
Em apenas 88 horas, com apoio de modelos de IA, a OpenAI anunciou ter solucionado um dos Problemas do Milênio, que desafiava a comunidade matemática há quase um século. Como ficam, agora, os tempos e movimentos da ciência?
Na disputa pela IA, uma medida política pode ser revertida em semanas. A sinalização que ela carrega fica, e é ela que deveria pesar na conta de quem contrata tecnologia
O pacote de R$ 2,5 bilhões para IA, anunciado pelo presidente Lula, é também uma notícia de política externa. A escolha dos fornecedores e dos parceiros diz algo sobre o alinhamento do país.
Com o acordo que o TSE assinou recentemente com a ElevenLabs, hyperscaler especializada em IA para voz, a Justiça Eleitoral quer agir quando um áudio falso ainda está sendo gerado.
Para potências médias e empresas, isso significa escolher quais renúncias são aceitáveis.
Aproveite nossas promoções de renovação
Clique aquiPara continuar navegando como visitante, vá por aqui.
Cadastre-se grátis, leia até 5 conteúdos por mês,
e receba nossa newsletter diária.
Já recebe a newsletter? Ative seu acesso
