s
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A conta da IA não fecha para todos

Getty, Character.AI e Wipro mostram como dívida, custo de computação e ganho de produtividade pressionam modelos de negócio diferentes.

A Getty Images vende acesso a imagens. A Character.AI vende conversas com personagens artificiais. A Wipro vende horas de engenheiros. Entre 12 e 15 de outubro de 2026, as três expuseram a mesma dificuldade: transformar capacidade tecnológica em vantagem econômica. A Getty prepara um pedido de recuperação judicial; a Character.AI já pediu. Em outra escala, a Wipro reduziu o quadro em 6.716 pessoas, um mês depois de anunciar ganhos de produtividade equivalentes a 20 mil funcionários.

A associação com a IA não surgiu do nada. Nos EUA, empregadores citaram a tecnologia como motivo de 87.714 cortes anunciados entre janeiro e maio de 2026, cerca de 22% do total do período, segundo a consultoria Challenger, Gray & Christmas. Em maio, a IA foi o motivo mais citado pelo terceiro mês seguido. Os números registram intenções anunciadas pelas empresas, não demissões efetivadas, e a própria consultoria pondera que a IA ainda não provocou a onda de desemprego que se previa. Mas criaram o ambiente em que cortes e falências passaram a ser lidos pela lente da tecnologia.

Nos três casos, a ligação também parte das próprias empresas ou de seus mercados. A Getty vende o tipo de imagem que geradores como o Stable Diffusion produzem em segundos, e processa a Stability AI por usar seu acervo no treinamento. No Reino Unido, perdeu a maior parte da disputa em novembro de 2025; nos EUA, a Justiça permitiu em abril que o caso seguisse. Na apresentação a credores, em outubro de 2026, a empresa incluiu esse litígio entre as pressões sobre o caixa. A Character.AI é uma empresa de IA, e seu pedido de recuperação funciona como teste da economia do setor. A Wipro criou a conexão sozinha, ao quantificar publicamente, em 10 de setembro, o ganho de produtividade com IA.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

As conexões com a IA são reais, mas cada empresa chegou à situação atual por um caminho próprio. A Getty tem um acervo valioso e perdeu margem de manobra financeira. A Character.AI tinha usuários e tecnologia e não sustentou os custos. A Wipro ganhou produtividade e ainda precisa transformá-la em crescimento. Embora nenhuma das três tenha atribuído diretamente à IA as crises financeiras ou a redução do quadro, os documentos mostram a distância entre capacidade tecnológica e vantagem econômica.

A Getty chegou a 30 de junho com dívida de cerca de US$ 2,1 bilhões e US$ 51,6 milhões em caixa. O gatilho imediato foi financeiro e regulatório. A fusão de US$ 3,7 bilhões com a Shutterstock terminou em 7 de julho, depois que a CMA, autoridade britânica de concorrência, exigiu a venda do negócio editorial da Shutterstock. A fusão havia consumido mais de US$ 100 milhões em honorários e custos de financiamento. O acordo com credores de 12 de outubro, registrado na SEC em 13 de outubro, cancela as ações existentes e entrega 100% da empresa à família Getty e à Koch Equity Development. Os dois grupos se comprometem com até US$ 533 milhões, parte em conversão de dívida que já detinham. O documento fixa 21 de outubro como prazo para o início do processo de recuperação judicial nos EUA, o Chapter 11, marco que os credores podem estender.

Os indicadores operacionais mostram o problema estratégico. No segundo trimestre de 2026, o segmento editorial cresceu 9,2%, enquanto o criativo, de imagens de banco, recuou 2,6%, ambos em relação ao segundo trimestre de 2025. Os assinantes anuais ativos caíram 25,2% em um ano, para 240 mil, e a retenção de receita desses clientes caiu de 93,4% para 88,4%. A empresa atribui a perda de assinantes à saída de canais de aquisição de menor valor e à queda do tráfego de busca. A Getty vende geradores de imagem treinados no próprio acervo, com garantia jurídica ao cliente. A dívida reduziu o tempo para essa aposta amadurecer.

A Character.AI pediu recuperação judicial no tribunal de Delaware em 12 de outubro, com ativos e passivos estimados entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. Em comunicado, atribuiu o pedido a obstáculos jurídicos, regulatórios e operacionais. A declaração juramentada de Colin Adams, executivo da consultoria de reestruturação Areté Partners que assumiu o comando, protocolada no processo, mostra o custo operacional. A empresa gastou US$ 13,8 milhões por mês em computação em 2024 e US$ 10 milhões em 2025. A receita de assinaturas chegou no máximo a US$ 2,8 milhões mensais; somada à publicidade, atingiu o pico de US$ 5,3 milhões. Para tentar fechar a diferença, a empresa abandonou os modelos próprios, migrou para modelos abertos em GPUs mais baratas, cortou pessoal e colocou anúncios no chat. Em agosto de 2026, ainda perdia de US$ 8 milhões a US$ 9 milhões por mês. “A tecnologia impressionante da Character é cara de operar”, escreveu Adams.

O passivo jurídico pesou de outra forma. Os processos ligados à saúde mental de adolescentes, cinco encerrados por acordo em 2026, afastaram investidores, segundo a declaração. Enquanto isso, parte da tecnologia e das pessoas que sustentavam o negócio encontrou destino fora da empresa. Em agosto de 2024, o Google licenciou a tecnologia e contratou os cofundadores Noam Shazeer e Daniel de Freitas, em acordo estimado em cerca de US$ 2,7 bilhões pelo Wall Street Journal.

Em 18 de setembro de 2026, a Disney anunciou como seu primeiro CTO Karandeep Anand, CEO da Character.AI desde junho de 2025, com parte da equipe técnica. Agora oferece US$ 20 milhões por uma licença não exclusiva de parte da propriedade intelectual e por serviços de transição. É o lance de referência para esse pacote; o leilão, previsto até dezembro, inclui os demais ativos. Em setembro de 2025, a mesma Disney havia notificado a startup para que parasse de usar seus personagens sem autorização. Os dois valores medem ativos diferentes. Juntos, ajudam a contar a trajetória de tecnologia e talento da empresa.

Na Wipro, o quadro caiu de 243.044 para 236.328 pessoas entre junho e setembro. Em 10 de setembro de 2026, a CTO Sandhya Arun havia dito à Reuters que a IA gerou produtividade equivalente a 20 mil funcionários, realocados internamente. A utilização líquida caiu de 86,4% para 83,4% em 12 meses. O indicador não separa a capacidade liberada pela IA de outros fatores, como demanda e composição dos projetos.

Na comparação anual, o quadro está 836 pessoas maior; a atrição voluntária, de 13,8%, é medida em 12 meses, e a empresa não detalha os desligamentos do trimestre. O CHRO Saurabh Govil disse que a empresa não contrata em campus no primeiro semestre do ano fiscal. Fica aberta a questão de quem captura a capacidade liberada: o cliente, em preço menor, ou a Wipro, em margem. A empresa não divulga receita de IA, a única entre as quatro maiores de TI da Índia nessa condição. Os grandes contratos fechados no trimestre caíram 58,6% em relação ao trimestre anterior, para US$ 674 milhões, sinal de fraqueza comercial que não identifica a causa.

Quem tem caixa compra talento e propriedade intelectual em momentos diferentes do ciclo, como o Google em 2024 e a Disney em 2026. Quem chega à transição endividado, como a Getty, ou com custo variável acima da receita, como a Character.AI, perde o tempo de que precisaria para ajustar o modelo. Nos serviços de TI, a hipótese de que o ganho de produtividade migre para o cliente ainda não aparece nos números divulgados. Parte da conta recai sobre quem não aparece no balanço, como os recém-formados que esperam a volta das contratações em campus.

Os próximos sinais têm data. A Getty tem até 21 de outubro, pelo acordo com credores, para protocolar o pedido de recuperação judicial. O leilão da Character.AI mostrará, até dezembro, se algum comprador supera a oferta da Disney e quanto o mercado paga pelos demais ativos. O balanço da Wipro de janeiro de 2027 ajudará a mostrar se o segundo semestre traz de volta as contratações em campus. A capacidade tecnológica já aparece nos números. A vantagem econômica continua em disputa.

Para entender rápido:

  • Incumbente sem fôlego: a Getty tinha dívida de US$ 2,1 bilhões em 30/06/2026 e valor de mercado de US$ 20,74 milhões em 09/10/2026 (Reuters).
  • Acionistas zerados: o plano cancela todas as ações da Getty sem compensação e entrega a empresa à família Getty e à Koch (8-K, SEC, 13/10/2026).
  • Base em queda: assinantes anuais ativos da Getty caíram 25,2% em um ano, para 240 mil (resultados do 2º trimestre, 10/08/2026).
  • Popularidade sem margem: a Character.AI gastou US$ 10 milhões por mês em computação em 2025, contra receita mensal máxima de US$ 5,3 milhões (declaração de Colin Adams, tribunal de Delaware, 13/10/2026).
  • Capacidade sem destino claro: a utilização líquida da Wipro caiu de 86,4% para 83,4% em 12 meses, com quadro 6.716 pessoas menor no trimestre (datasheet Q2 FY27).
  • Pipeline mais fraco: grandes contratos fechados pela Wipro caíram 58,6% no trimestre, para US$ 674 milhões (release Wipro, 15/10/2026).

A conta da IA não fecha para todos

Inteligência Artificial

A conta da IA não fecha para todos

Getty, Character.AI e Wipro mostram como dívida, custo de computação e ganho de produtividade pressionam modelos de negócio diferentes.

A conta da dívida técnica chegou disfarçada de projeto de IA

Inteligência Artificial

A conta da dívida técnica chegou disfarçada de projeto de IA

A Inteligência Artificial não transforma bagunça em eficiência, mas processa a bagunça mais rápido, cobra por token e deixa a dívida técnica mais difícil de ignorar.

Cibersegurança e IA: identidade, fornecedores e outros pontos cegos da segurança digital

Inteligência Artificial

Cibersegurança e IA: identidade, fornecedores e outros pontos cegos d...

Leitura cruzada de dois estudos recentes da Microsoft e da PwC mostra que IA, ecossistemas de fornecedores e resiliência dominam a agenda de segurança cibernética

Atualização dos modelos de IA vira custo recorrente

Inteligência Artificial

Atualização dos modelos de IA vira custo recorrente

Avisos de descontinuação encurtam o horizonte de retorno e transferem às empresas a conta da depreciação tecnológica.

“A IA não é o problema. O grande desafio é o fator cultural”

Inteligência Artificial

“A IA não é o problema. O grande desafio é o fator cultural”

Para Walter Hildebrandi Filho, CTO Latam da Zendesk, as empresas brasileiras têm fome de IA. Mas o avanço depende de arrumar a casa, integrar sistemas, medir resolução em vez de velocidade e ganhar a confiança de empresas e consumidore...

A maioria esquecida da revolução da IA

Inteligência Artificial

A maioria esquecida da revolução da IA

Cerca de 56% dos trabalhadores formam a "sala de máquinas" das empresas: o núcleo que faz a operação rodar, mas tem pouco acesso a IA, a capacitação e a boas perspectivas. Só 33% desse grupo confiam na alta gestão