O pacote de R$ 2,5 bilhões para inteligência artificial que o presidente Lula anunciou em Macaíba (RN), na quinta-feira, 20/08, poderia ser lido como notícia de orçamento. É, também, uma notícia de política externa. A escolha dos fornecedores e dos parceiros diz algo sobre o alinhamento do país.
O anúncio confirmou e detalhou o que a ministra Luciana Santos havia adiantado, dias antes, em entrevista à Folha de S.Paulo: uma alteração do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) com três frentes declaradas.
A primeira é a compra de um supercomputador de ponta, com investimento em torno de R$ 1 bilhão, a ser instalado em Macaíba (RN). A segunda é uma encomenda tecnológica com a China: uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, em cooperação entre a RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) e a Huawei, orçada em cerca de R$ 1,27 bilhão e voltada a desenvolver um grande modelo de linguagem em português e espanhol. A terceira é o investimento em processadores de arquitetura RISC-V, com R$ 125 milhões de recursos públicos, com transferência de tecnologia de hardware e software prevista em contrato.
Posto de outra forma, nosso plano tem duas pernas. O supercomputador do Rio Grande do Norte é a perna americana, e deverá operar a partir de uma cadeia majoritariamente ocidental: a Nvidia é a principal fornecedora da tecnologia, e a montagem se divide entre a chinesa Lenovo, as americanas HP e Dell, a francesa Bull e fabricantes white label de Taiwan. Já a perna chinesa não é um segundo equipamento de ponta – diferente do que havia sido noticiado na semana passada. O hardware, portanto, vem do polo americano; o modelo e a cooperação, do polo chinês.
A decisão pode parecer salomônica. Se Estados Unidos e China disputam a infraestrutura da inteligência artificial, o Brasil se serve de ambos. Aqui, o pano de fundo importa. Há cerca de um mês, 29 países assinaram em Xangai o acordo que cria a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), com sede na China; o Brasil está entre os fundadores. Nenhuma outra grande democracia ocidental assinou. Sete meses antes, em dezembro de 2025, o Departamento de Estado americano lançou a Pax Silica, coalizão dedicada a assegurar a cadeia do silício e reduzir dependência da China; na cúpula de junho de 2026, segundo comunicado oficial da diplomacia americana, dez novos signatários elevaram o grupo a 24, entre eles vizinhos como Argentina e Chile
O Brasil não integra a Pax Silica – ao menos, não por enquanto. Poucos dias antes de Lula falar em Macaíba, a Reuters revelou o rascunho de uma carta, preparada pelo Departamento de Estado americano, para isolar a China no desenvolvimento de IA. Segundo a notícia, o governo Trump deve alertar 35 países, o Brasil entre eles, de que serão excluídos de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para distribuição de investimentos em tecnologia. “Fazer parte de tudo é não fazer parte de nada. A assinatura da Declaração Pax Silica não é uma mera adesão, mas um compromisso”, diz a carta, que insta os países a “escolher deliberadamente” um lado. O recado é o de que não haverá meio-termo.
É com esse pano de fundo que o Brasil tomou a decisão de se servir dos dois polos tecnológicos. Ainda que os eles sejam interdependentes, competem pela liderança global em IA. Do ponto de vista do governo brasileiro, isso não é exatamente neutralidade, mas é, sim, uma tentativa de preservar opções em um ambiente no qual escolher cedo demais poderia fechar portas. Para a política externa brasileira, a lógica tem precedente na busca recorrente por autonomia mediante diversificação de parceiros (e, em alguns momentos, na política externa pendular).
Olhado de perto, o orçamento do PBIA diz mais do que o anúncio. O PBIA prevê R$ 23,03 bilhões (aproximadamente US$ 4,4 bilhões) entre 2024 e 2028. O gasto é distribuído em cinco eixos, e o maior deles, IA para Inovação Empresarial, tem R$ 13,79 bilhões, enquanto os temas de infraestrutura e desenvolvimento ficam com R$ 5,79 bilhões. Disso, depreende-se que o PBIA foi concebido principalmente como plano de difusão de uso, com peso menor na construção das camadas físicas. O pacote de R$ 2,5 bilhões anunciado agora – do qual mais de R$ 2 bilhões estão nas duas infraestruturas de supercomputação – equivale a mais de um terço do eixo de infraestrutura originalmente previsto.
A comparação internacional ajuda a dimensionar o tamanho do esforço brasileiro. O fundo InvestAI da União Europeia pretende mobilizar € 200 bilhões, sendo €50 bi do setor público e € 150 bi de capital privado; a França anunciou € 109 bilhões em compromissos privados, nacionais e estrangeiros, para projetos de IA, com a Bpifrance prevendo mobilizar € 10 bilhões até 2029; a HUMAIN, financiada pelo fundo de investimento público da Arábia Saudita, anunciou cerca de US$ 100 bilhões. O orçamento deste ano da Coreia do Sul é de mais de US$ 7 bilhões. Do lado privado, estimativas compiladas pelo Financial Times põem o investimento de Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta em 2026 em torno de US$ 700 bilhões.
Já circulam na imprensa e nas mídias sociais objeções legítimas ao desenho brasileiro. Servir-se dos dois lados sai mais caro e obriga a manter dois stacks separados. Existe o risco de o país terminar com arranjos rivais e nenhuma etapa da cadeia, visto que ser dono da máquina não nos torna donos da nossa própria cadeia: o supercomputador do RN ainda depende de chips que seguem projetados e fabricados fora.
É por isso que a frente de RISC-V talvez pese mais que as duas infraestruturas de supercomputação; afinal, das três frentes, é a que tenta trazer maior ênfase para o desenvolvimento de capacidade tecnológica própria – uma aposta de longo prazo para reduzir a dependência de tecnologias controladas por poucos países e empresas.
O que o edital de concorrência, ainda por ser aberto, terá de precisar é quem e como fiscalizar as contrapartidas prometidas; será também importante calcular quanto custará manter duas pilhas rodando em paralelo. Se, ao fazer esses investimentos, o Brasil estiver comprando a capacidade de escolher, terá dois caminhos abertos. Se estiver comprando apenas duas infraestruturas, terá realizado o feito menos ambicioso de pagar duas vezes para administrar a mesma dependência.
O pacote de R$ 2,5 bilhões para IA, anunciado pelo presidente Lula, é também uma notícia de política externa. A escolha dos fornecedores e dos parceiros diz algo sobre o alinhamento do país.
Com o acordo que o TSE assinou recentemente com a ElevenLabs, hyperscaler especializada em IA para voz, a Justiça Eleitoral quer agir quando um áudio falso ainda está sendo gerado.
Para potências médias e empresas, isso significa escolher quais renúncias são aceitáveis.
Aproveite nossas promoções de renovação
Clique aquiPara continuar navegando como visitante, vá por aqui.
Cadastre-se grátis, leia até 5 conteúdos por mês,
e receba nossa newsletter diária.
Já recebe a newsletter? Ative seu acesso
