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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Atenção à luz vermelha da IA

Em 12 de junho, o governo dos EUA obrigou a Anthropic a desligar Fable 5 e Mythos 5 no mundo todo, 72 horas após o lançamento. Para quem opera sobre IA de fronteira, o acesso passou a ser ativo revogável sem aviso.

Na sexta-feira, 12 de junho, 72 horas após o lançamento, a Anthropic desativou o acesso de pessoas fora dos EUA aos seus modelos Fable 5 e Mythos 5, obedecendo a uma ordem dada por carta pelo secretário de Comércio, Howard Lutnick, ao CEO da Anthropic, Dario Amodei.

Em tese, o governo norte-americano decidiu impor controles de exportação e bloquear o acesso de governos, empresas e indivíduos estrangeiros aos modelos de IA mais avançados da Anthropic, seguindo uma nova diretiva de Trump, publicada no dia 2 de junho, para promoção da inovação e da segurança em IA avançada.

  • O motivo real da carta, no entanto, segue envolto em uma batalha de versões. Em uma delas, levantada pelo Axios, a Amazon teria enviado a autoridades do governo, na quinta-feira, um relatório que mostrava como eles conseguiram invadir e acessar partes do poderoso novo modelo Mythos da Anthropic, via jailbreak.
  • A Anthropic afirma que o jailbreak relatado expôs apenas um pequeno número de vulnerabilidades relativamente menores, muitas das quais também poderiam ser identificadas usando outros modelos disponíveis publicamente. A empresa argumenta que nenhum modelo de IA de ponta é completamente resistente a jailbreaks e que aplicar esse padrão em toda a indústria tornaria os lançamentos futuros praticamente impossíveis.
  • David Sacks, um VC que até recentemente trabalhava no governo Trump como czar da IA, acusou a Anthropic, em uma longa publicação no X, no sábado, de ser imprudente com o lançamento do Fable 5, por conta da existência de uma brecha de segurança. Afirma ainda que a Administração pediu ao CEO da Anthropic, Dario Amodei, que resolvesse o problema ou tornasse o modelo temporariamente indisponível. Altos funcionários do governo Trump, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o diretor de segurança cibernética da Casa Branca, Sean Cairncross, teriam tentado pressionar o CEO Dario Amodei a aceitar uma pausa voluntária, o que a Anthropic não fez, argumentando que a brecha não era uma questão séria de segurança.
  • A decisão da Casa Branca de iniciar um processo formal de supervisão de modelos de IA começou em abril, quando a Anthropic anunciou um novo modelo de IA, o Mythos, que, segundo a empresa, poderia encontrar vulnerabilidades de software e cibersegurança. Governo, bancos e outras entidades temiam que futuros modelos de IA pudessem encontrar vulnerabilidades que inimigos dos EUA explorariam.
  • O que se viu na sexta-feira foi uma ordem emitida pelo Departamento de Comércio que inclui a IA no rol de produtos sujeitos ao controle de exportação pela possibilidade de colocar em risco a segurança nacional americana. Isso traz para a IA dos EUA, usada globalmente, uma regra de segurança que sempre valeu para supercomputadores e semicondutores, por exemplo.
  • A Anthropic se defendeu dizendo que essas brechas também estão disponíveis em modelos menos potentes (inclusive de rivais)… mas ainda assim foi obrigada a restringir o uso por completo, já que seus próprios funcionários (e muitos clientes) se encaixam na definição de usuários estrangeiros.
  • Mais. Se queixa de não ter tido opção de colaboração com o governo e relaciona a suspensão a desentendimentos anteriores entre a empresa e a administração Trump. Os dois lados estão envolvidos há meses em uma disputa sobre como os sistemas de IA da Anthropic poderiam ser usados em contextos militares e de inteligência, culminando com o Pentágono classificando a empresa como um risco para a cadeia de suprimentos.
  • Autoridades do governo têm criticado a Anthropic e seu CEO, Dario Amodei. A empresa foi acusada de construir “IA politicamente correta”, enquanto figuras dentro do governo teriam descrito Amodei como um “lunático ideológico”.
  • O impacto no produto: cerca de 80% do uso e atividade no Claude vem de fora dos Estados Unidos e perderão acesso se a medida se estender a outros modelos.
  • O impacto na indústria: na semana passada Trump já havia flertado com a ideia de governo comprar participação (forçada ou não) em startups de IA nacionais.

Pano de fundo

Há meses, Anthropic argumenta que as capacidades de ponta da IA ​​estão avançando mais rápido do que muitas pessoas imaginam. A empresa tem alertado repetidamente governos e o público sobre as potenciais consequências de sistemas cada vez mais sofisticados. Amodei continua a pressionar por medidas de segurança mais rigorosas e frequentemente se posiciona como um dos defensores mais eloquentes da governança da IA ​​no setor.

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Dois dias antes da proibição, em 10 de junho, o CEO da Anthropic havia publicado o ensaio “Policy on the AI Exponential“, argumentando explicitamente que os modelos de vanguarda deveriam ser regulamentados como aeronaves e que o lançamento de um modelo “deveria ser bloqueado ou revertido como uma ameaça à segurança pública” caso falhasse em testes independentes.

Na prática, o governo americano acabou por confirmar a afirmação de Amodei de que algumas formas de IA podem precisar de regulamentação e podem exigir controles de exportação.  Validou efetivamente a ideia de que Anthropic merece tratamento especial. Nenhuma ação comparável foi tomada contra a OpenAI, o Google, a Meta ou qualquer outro grande desenvolvedor de IA.

“O que a Casa Branca fez parece arbitrário. E talvez até corrupto”, afirmou Gary Marcus. Não ajuda o fato de a decisão de sexta-feira ter beneficiado a OpenAI, cujo presidente, Greg Brockman, é um grande doador, e  também Josh Kushner, irmão de Jared Kushner, que é um grande investidor da OpenAI”, disse ele. “Não ajuda o fato de a decisão de sexta-feira ter beneficiado a Amazon (e ter sido motivada por um relatório da própria Amazon), uma grande investidora da OpenAI. Também não ajuda o fato de ter beneficiado indiretamente Jeff Bezos, que tem ligações com o governo.”

Depois de sexta-feira, a Casa Branca não poderá mais afirmar, com credibilidade, que nenhum modelo jamais deva ser regulamentado. A Casa Branca reconheceu que alguns modelos podem ser arriscados. De quebra,  deu à Anthropic uma narrativa poderosa: a empresa construiu um modelo tão avançado que o governo dos EUA interveio. Essa narrativa pode, em última análise, se provar mais memorável do que o próprio lançamento do Fable e do Mythos 5.

O impacto na sua estratégia de IA

Bom, quando um governo decide restringir o acesso a um modelo de fronteira, a mensagem implícita é que essa tecnologia deixou de ser apenas um produto comercial e passou a ser considerada um ativo estratégico nacional.

Se essa decisão for mantida e se tornar um precedente regulatório, o debate passa a ser sobre quem terá autorização para utilizar os modelos mais avançados do mundo.

Em outras palavras, soberania deixará de ser sobre onde ficam os dados e passará a ser sobre quem controla o acesso aos modelos. A restrição a estrangeiros expõe um risco de dependência que a residência de dados sozinha não resolve: o controle sobre quem pode usar, dar suporte e desenvolver o modelo.

Se você é dono de empresa ou gestor, sua jornada de IA acabou de ficar bem mais complicada.

A decisão de IA, por mais agnóstica que seja quanto ao modelo, passa a carregar uma variável nova: a possibilidade de suspensão ou restrição de uso por ordem de governo, sem aviso.

Impactos no G7

Mesmo antes da divulgação das notícias sobre a Anthropic , já se esperava que as conversas na reunião do G7 de meados de junho fossem dominadas por perguntas sobre a “disposição dos EUA em cooperar com outros países em relação a inovações semelhantes ao Mythos que levantam questões de resiliência cibernética”, disse Tim Adams, ex-alto funcionário do Tesouro e atual diretor do Instituto de Finanças Internacionais, à MM na semana passada.

“Os EUA estarão sob pressão para oferecer aos seus homólogos garantias de que estes estarão a par da implementação desses modelos”, acrescentou. Isso inclui garantias de que “a tecnologia será compartilhada e que existem mecanismos de proteção para evitar que ela caia em mãos hostis”.

A proibição repentina alarmou os aliados dos EUA, após expor a facilidade com que essa tecnologia crucial pode ser desativada. Sir Keir Starmer está pressionando o governo Trump para permitir que britânicos usem os modelos de IA mais avançados da Anthropic. Downing Street espera que a intervenção abrangente seja temporária e seja substituída por um regime mais direcionado.

Os próximos dias prometem…

Segundo a Axios, funcionários técnicos seniores da Anthropic estão em Washington para se reunir com autoridades da Casa Branca e tentar resolver uma disputa que tirou do ar os principais modelos da empresa , disse uma fonte próxima à empresa ao Axios.

Por que isso importa: A Anthropic está se mobilizando rapidamente para se reconciliar com o governo Trump.

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