O Brasil vem adotando a Inteligência Artificial (IA) “de uma forma muito acelerada”. Segundo Fabio Coelho, CEO do Google Brasil, à frente da operação no país há 15 anos, o Gemini tem mais de 900 milhões de usuários mensais no mundo, e o Brasil já é um dos três maiores mercados do produto globalmente. “A verdade é que a Inteligência Artificial já faz parte da rotina dos brasileiros”, disse em sua apresentação na abertura da 8ª edição do Google for Brasil. O evento trouxe anúncios que vão de IA aplicada ao futebol e à saúde até novos recursos do Gemini, do YouTube e da Busca, passando por capacitação profissional, startups e um novo centro de engenharia da empresa no país.
Na véspera da abertura da Copa do Mundo, o Google anunciou o patrocínio das seleções masculina e feminina de futebol, Sub-15 e Sub-23. “A gente também quer fazer parte do jogo. Fazer parte do grupo significa apoiar as decisões que são tomadas dentro do campo”, disse Coelho. O principal anúncio dessa frente é a chegada ao Brasil do Tactical AI, tecnologia do Google DeepMind que ajuda comissões técnicas a identificar padrões de jogadas e transformar dados em decisões em tempo real durante as partidas. Segundo o presidente do Google Brasil, clubes europeus como o Liverpool já usam ferramentas semelhantes, mas só para bolas paradas. A novidade é que o Palmeiras se tornou o primeiro clube do mundo a usar o Tactical AI também com a bola em movimento. “Eu juro que quando o pessoal do nosso Marketing escolheu esse estágio aqui, a gente não sabia que era o Palmeiras que estaria usando isso aí”, brincou ao citar o local escolhido para a apresentação. A tecnologia também está sendo integrada às seleções masculina e feminina em parceria com a CBF.
Ainda na frente futebol + tecnologia, Fábio Coelho apresentou um teaser de um projeto para fãs de futebol: usando o Gemini, a ferramenta Nano Banana e relatos de testemunhas da época, o Google recriou em alta definição o histórico gol de Pelé contra o Juventus, na Rua Javari, em 1959, um lance do qual nunca existiu registro em vídeo, apenas fotografias. O vídeo completo estará disponível ao público no fim de junho, em parceria com a marca Lei Pelé.
São Paulo será também local de teste para a expansão do Green Light, iniciativa global do Google que usa IA para otimizar semáforos e reduzir emissões. O projeto, feito em parceria com a CET (responsável por planejar, gerenciar, operar e fiscalizar o sistema viário na cidade de São Paulo) e o Prodam (que faz a gestão de sistemas e infraestrutura). Segundo o CEO do Google Brasil, os resultados do Green Light em outras cidades falam por si sós ao pensar nos ganhos para a capital paulista: redução de cerca de 30% no número de paradas no trânsito e redução de cerca de 10% nas emissões de carbono nos cruzamentos.
Na área de capacitação, o Google Brasil anunciou mais de 100 mil novas bolsas do programa Cresça com o Google, voltadas a estagiários e pessoas em busca do primeiro emprego, incluindo o novo Certificado Profissional em Inteligência Artificial. “A gente acredita que ao preparar mais pessoas para trabalhar com Inteligência Artificial, a gente está ajudando as pessoas a ficarem mais relevantes diante dessa mudança que está acontecendo no nosso mercado”, afirmou Coelho.
O CEO também anunciou a chegada ao Brasil do AI Futures Fund, em parceria com o fundo de investimento global Monashees, para apoiar startups de IA: serão até US$ 10 milhões (até US$ 2 milhões por startup) para investir em cinco empresas brasileiras, com acesso antecipado a modelos do Google DeepMind e mentoria de especialistas. “Quem sabe a gente não tenha mais cinco unicórnios saindo daqui”, projetou, lembrando que o Campus em São Paulo já ajudou a acelerar mais de 470 startups. “O papel do Google é criar oportunidades para que mais brasileiros possam entrar em campo e fazer o seu gol de placa.”
A segunda apresentação coube a Lila Ibrahim, Chief AI Readiness Officer do Google DeepMind, que começou lembrando como o AlphaFold permitiu avanços em Life Sciences. “O Google DeepMind é a sala de engenharia pioneira da Inteligência Artificial no Google”, disse, citando a conquista que rendeu à equipe o Prêmio Nobel por resolver um desafio de 50 anos da biologia, a previsão da estrutura das proteínas. Mais de 3 milhões de pesquisadores em 190 países usam a ferramenta, incluindo mais de 40 mil pesquisadores no Brasil, que vão “do tratamento acelerado para Parkinson e malária até a destruição de plásticos nos oceanos”, incluindo estudos sobre biocombustíveis, zika e dengue.
Ao citar sua história pessoal (“Meu pai cresceu em um orfanato no Líbano. Um professor viu nele um espelho de curiosidade, de inteligência”, que lhe permitiu estudar e se tornar engenheiro), a executiva afirmou a importância da educação e a passagem que vivemos de um “modelo industrial” para um momento em que a IA permite alcançar mais alunos de forma personalizada. Ela resumiu sua abordagem em três pilares: Acesso (“não basta dar as chaves, temos que garantir que a porta esteja aberta para todos”), Letramento (“Queremos que os alunos sejam criadores, não apenas consumidores passivos”) e Resultados (“que possam ser medidos e validados”). Ela citou como exemplo um piloto em Serra Leoa em que estudantes com ferramentas de IA alcançaram 1,5 ano de progresso em Matemática em oito semanas. “Não é uma estatística. É uma visão de um futuro em que cada criança, não importa onde nasceu, pode crescer e seguir o seu caminho.”
Foi nesse contexto que Lila Ibrahim anunciou um investimento de R$ 5 milhões do Google em letramento de IA no Brasil, em parceria com a Fundação Raspberry Pi e o Sincroniza Educação. O programa oferecerá conteúdo culturalmente relevante e formação para professores brasileiros, ajudando “milhares de jovens brasileiros” a desenvolver habilidades de letramento em IA.
Apesar da ênfase em tudo o que a tecnologia pode fazer, a executiva encerrou dizendo que o ser humano é o core dessas iniciativas em educação. “A empatia não pode ser codificada. A intuição não pode ser modelada. (…) Nenhum algoritmo pode alcançar a habilidade de um professor para olhar para um estudante que está lutando com potencial e ver um pioneiro.” E resumiu: “Lembrem-se que a tecnologia não é a mágica. As pessoas são.”
Pegando o gancho da educação, Eduardo Brandini, head de Responsabilidade do YouTube no Brasil e professor universitário há mais de 15 anos, usou a história do estudante Wesley de Jesus Batista, que aproveitou vídeos do YouTube para estudar e conquistou o primeiro lugar no curso de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). E trouxe dados de uma pesquisa da Oxford Economics de 2025, mostrando que 74% dos professores brasileiros que usam o YouTube afirmam que os vídeos da plataforma ajudam os alunos a entender os temas com mais clareza. “Eu posso dizer isso com propriedade, porque eu faço parte dessa estatística”, completou.
O YouTube possui cerca de 165 milhões de usuários no Brasil. Esse número faz da plataforma a maior rede social do país, superando Instagram e TikTok. Esses usuários estão ganhando uma série de novos recursos. Brandini detalhou dois recursos baseados no Gemini: a função “Perguntar”, que permite fazer perguntas em tempo real sobre o conteúdo de um vídeo e navegar por trechos específicos (“é literalmente aquela mão levantada na sala de aula”) e o “Pergunte ao Estúdio” (Ask Studio), voltado a criadores, que “já está disponível em português para todos os nossos criadores brasileiros”.
A plataforma olhou com cuidado para os criadores de conteúdo. Dados citados de um estudo apontam que o YouTube contribuiu com R$ 6 bilhões para o PIB brasileiro e sustentou um ecossistema de mais de 150 mil empregos equivalentes a tempo integral no país. Parte desse crescimento vem do YouTube Create, app de edição com o recurso “Editar com IA”, que gera um primeiro rascunho a partir de fotos e clipes do criador e permite gerar novas cenas a partir de comandos de texto em português. “Estamos falando de dar a mais pessoas as ferramentas para transformar ideias em conteúdo e criatividade em oportunidade”, resumiu.
Para a Copa do Mundo, o YouTube ganhará papel central: em parceria com a CazéTV, será a única plataforma em que os brasileiros poderão assistir gratuitamente a todos os 104 jogos do torneio. “Pela primeira vez na história, nós teremos aqui no Brasil uma Copa do Mundo Digital First”, disse Brandini. Além de elencar e fazer streaming de todos os jogos, o YouTube irá se conectar a outras plataformas do Google para trazer informações.
O uso que os brasileiros fazem do assistente de IA do Google, o Gemini, faz com que o Brasil ganhe relevância entre os mercados mundias. Jenny Blackburn, VP de UX do Google e líder de Experiência do Usuário para o Gemini, destacou o crescimento mês a mês. “Durante os últimos anos, o Brasil surgiu como um líder de IA global”, afirmou, citando que 67% dos brasileiros usam comandos de voz para interagir com o Gemini. Aliás, a propensão dos brasileiros a empregar recursos de voz e as novas funcionalidades do Gemini fazem com que a contribuição dos engenheiros brasileiros da unidade do campus do Google em Belo Horizonte sejam relevantes para os desenvolvimentos de Voice IA. Nas próximas semanas, o Gemini passará a oferecer “diálogos regionais”, com variações do português falado em diferentes regiões do país.
Jenny anunciou que a Personal Intelligence – recurso que conecta, de forma segura, informações de diferentes apps usados pela pessoa para gerar respostas personalizadas – chegou a todos os usuários gratuitos do Gemini no Brasil, podendo sugerir destinos de viagem e atividades a partir de e-mails, fotos e interesses da família. Outro anúncio foi o “Ask Maps”, que leva o Gemini ao Google Maps, permitindo perguntar “qualquer coisa que você quiser sobre qualquer lugar” com recomendações personalizadas – recurso que começa a ser liberado para guias locais e chega a todos os usuários do país em julho.
O Gemini chega “esta semana” ao Chrome no Brasil, com recursos para facilitar a navegação ao resumir páginas, esclarecer conceitos e responder perguntas com base no conteúdo de até dez abas abertas simultaneamente. O Gemini vai oferecer um material extenso para estudantes do Enem, que inclui simulados gratuitos de múltipla escolha que seguem o formato exato das provas oficiais. Ao final, a ferramenta “destaca suas forças, dá explicações claras para as perguntas que você perdeu, e ajuda você a construir um plano de estudo customizado”, completou Jenny.
Os micro e pequenos negócios também foram contemplados. Para esse público, o Gemini já pode ser conectado diretamente ao perfil do Google Business, oferecendo respostas e insights sobre o desempenho do negócio. Ainda neste mês, o Google lança os “notebooks de negócios” no Gemini, que organizam conversas, documentos e fontes do negócio e ajudam a acompanhar métricas e promoções. “O Gemini continua evoluindo para dar aos proprietários da empresa o seu recurso mais valioso, o tempo, para focar no que importa mais para o seu negócio”, disse a executiva.
Por fim, ela anunciou duas parcerias: clientes do banco Itaú e da Vivo passam a ter acesso gratuito ao Gemini AI Plus nos próximos dias. “Estamos trabalhando para garantir que todos no Brasil tenham um assistente de IA mundial no seu time”, concluiu.
No ano passado, o Google Cloud assumiu o compromisso de treinar 1 milhão de brasileiros em IA e tecnologias emergentes. Durante o Google for Brasil 2026, Milena Leal, Country Manager do Google Cloud Brasil, anunciou que a empresa está triplicando o compromisso para “nos próximos anos, treinar mais de 3 milhões de pessoas em IA e tecnologia de nuvem”. Como parte desse esforço, anunciou uma nova edição do programa Capacita+, agora “100% focada no Brasil”, com transmissão online para mais de 100 universidades brasileiras. “Hoje, o nosso maior troféu é o fato de que milhares de brasileiros estão mudando de carreira com as ferramentas que nós integramos, e é só o começo”, afirmou.
A executiva apresentou exemplos de IA em serviços públicos e na saúde. No Detran de São Paulo, o exame para a carteira de habilitação (CNH) passou a contar com o Gemini e a API do Google Maps, monitorando áudio, vídeo e biometria durante a prova, “eliminando a subjetividade e blindando o processo contra fraude”. Com isso, assim que candidatos são aprovados, o que acontece em tempo real, é emitida imediatamente a CNH. Em hospitais do Paraná, o projeto Capricórnio coloca a IA “na linha de frente da luta contra o câncer”: o Gemini permite a médicos consultarem, em português, milhões de artigos científicos cruzados com dados de pacientes, “acelerando a identificação dos tratamentos oncológicos de forma ultrapersonalizada”.
Para os pequenos negócios, Milena Leal anunciou, com o Sebrae de São Paulo, uma ferramenta digital e gratuita batizada de Alvo Certo, que usa o Google Cloud para analisar potencial de consumo, concorrência e perfil do território no estado, ajudando empreendedores a escolher o local ideal para um novo negócio. “Essa tecnologia democratiza o acesso a dados que antes eram inacessíveis, oferecendo recomendações que aumentam drasticamente a assertividade de quem vai investir”, disse.
Para fechar, a Country Manager do Google Cloud complementou o anúncio do CEO Fabio Coelho sobre o Tactical AI: o Google Cloud firmou parceria de dois anos com a CBF para apoiar a “inteligência estratégica” das comissões técnicas das seleções masculina e feminina, trabalho que “vai ser fundamental para a preparação da Seleção Feminina Brasileira para os Jogos de 2027”.
Ainda no clima de Copa do Mundo, Pandu Nayak, Vice-presidente de Search, apresentou recursos do AI Mode voltados ao torneio: assinantes Pro e Ultra poderão pedir visualizações interativas customizadas. Por exemplo, um campo de futebol mostrando a localização exata, a trajetória e o resultado de cada finalização em uma partida. A experiência de “Match Day” também foi reforçada na Busca, trazendo placares, escalações, classificação e conteúdo social ao longo dos jogos. “A Copa não é apenas sobre o que acontece no campo. É sobre a atmosfera, é sobre ser parte de uma comunidade”, disse o executivo.
Nayak situou esses lançamentos dentro de uma transformação maior: o AI Mode, lançado há cerca de um ano, já tem mais de 1 bilhão de usuários mensais no mundo todo. “Com o AI Mode, as pessoas não estão apenas procurando mais, elas estão procurando de forma diferente”, afirmou. “Esta é realmente a maior transformação na história da pesquisa, dirigida pela IA.”
Ele anunciou três novidades trazidas do Google I/O. A primeira é uma nova caixa de pesquisa “totalmente reimaginada com IA”, capaz de aceitar texto, imagens, áudio e vídeo. A Busca também passa por uma unificação entre Visões Gerais de IA (AI Overviews) e AI Mode, permitindo aprofundar a conversa a partir da resposta inicial. E, ainda chegando ao Brasil, os “agentes de informação”, que poderão monitorar notícias, redes sociais e dados em tempo real para ajudar o usuário a agir.
Voltando o foco ao impacto local, Nayak anunciou o “Negócio em dIA”, primeiro programa de educação para ajudar pequenos negócios a usar a IA como “parceira de execução diária” em tarefas operacionais. Criado em parceria com Sebrae, Tera, Itaú e Blip, o programa traz aplicações voltadas a vendas, presença digital, organização da operação e tomada de decisão. São módulos com aulas rápidas e práticas conectadas à rotina dos empreendedores.
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