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Especialistas no SXSW 2026 discutem três cenários para a universidade na era da inteligência artificial e o declínio do diploma como garantia de mobilidade social (Crédito: Reprodução/YouTube)
SXSW 2026

Quando o diploma deixa de garantir mobilidade: a educação entra na era da IA

No SXSW 2026, especialistas discutem o declínio do retorno econômico do ensino superior, o papel da IA como infraestrutura de aprendizagem e os possíveis novos modelos de universidade

Por Denise Melo e Francesca Tomaselli *especial para The Shift 13/03/2026

O que acontece com a Educação quando o diploma deixa de garantir mobilidade social? A provocação atravessou o painel “Featured Session: Strategy in the Times of Chaos: Imagining Futures of Education”, na estreia do SXSW 2026, e ressaltou a transformação profunda pela qual passa o sistema educacional, com a mudança do significado do diploma e a Inteligência Artificial (IA) alterando o acesso ao conhecimento. No palco do festival, Lyn Jeffery, diretora do programa Foresight Essentials do IFTF (Institute for the Future) e Maisha T. Winn, professora da Universidade de Stanford, discutiram esses novos caminhos.

Durante décadas, o ensino superior foi tratado como um investimento quase automático em prosperidade. A lógica parecia simples: estudar mais significaria trabalhar melhor, ganhar mais e subir na vida. Só que a equação vem se enfraquecendo no momento em que a IA começa a redefinir o que significa aprender, trabalhar e construir carreira. 

A futurista Lynn Jeffery propôs analisar esse fenômeno a partir de uma lente histórica. Segundo ela, entender o futuro da educação exige observar as estruturas que moldaram o sistema atual e identificar ideias continuam orientando decisões, mesmo quando os dados já apontam em outra direção. “Chamamos isso de zombie ideas, ideias que foram refutadas pelos fatos, mas continuam circulando e se recusam a morrer”, explicou Lyn. No caso da educação, uma dessas ideias seria justamente a crença de que o diploma universitário garante mobilidade econômica.

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O declínio do retorno econômico da educação

Esse fenômeno se torna ainda mais evidente quando se observam os dados sobre retorno econômico da educação superior. Lyn Jeffery apresentou uma análise baseada em dados do Federal Reserve, que comparou diferentes gerações de graduados nos Estados Unidos. Entre pessoas nascidas na década de 1930, indivíduos com diploma universitário acumulavam, em média, 250% mais riqueza ao longo da vida do que aqueles sem graduação. No caso de pós-graduados, o diferencial chegava a cerca de 400%. Já para pessoas nascidas na década de 1980, o diferencial de riqueza associado ao diploma caiu para cerca de 42% entre graduados e 28% para pós-graduados.

Para pessoas negras, a diferença se torna ainda menor. Em alguns casos analisados, o ganho médio associado ao diploma ficou próximo de 6%, tornando-se quase irrelevante em termos estatísticos. Esses dados ajudam a explicar uma tensão estrutural: o número de diplomas cresce rapidamente, mas o número de empregos altamente qualificados não cresce na mesma proporção.

A inteligência artificial como infraestrutura de aprendizagem

Se o modelo educacional tradicional perde força como mecanismo de mobilidade econômica, a Inteligência Artificial aparece como um vetor potencial de transformação do sistema educacional. No painel do SXSW, a IA não foi apresentada apenas como uma ferramenta tecnológica aplicada ao ensino, mas como uma possível infraestrutura de aprendizagem.

Sistemas baseados em IA já são capazes de oferecer:

  • tutoria personalizada
  • feedback instantâneo
  • explicações sob demanda
  • simulações complexas
  • apoio contínuo ao aprendizado

Essa combinação pode reduzir drasticamente o custo de acesso ao conhecimento e permitir que cada pessoa tenha acesso permanente a um tutor digital. 

A transformação abre caminho para diferentes estratégias institucionais. Algumas universidades tendem a preservar o modelo tradicional e limitar o uso de IA em avaliações e produção acadêmica, funcionando como nichos de prestígio associados à tradição. Outras devem incorporar a IA como ferramenta de apoio ao aprendizado, utilizando-a para personalizar trilhas de estudo, melhorar retenção de alunos e oferecer feedback em tempo real. Há ainda instituições que mantêm a estrutura atual, mas criam laboratórios, cursos especializados e microcredenciais ligados à economia digital.

O cenário mais transformador, porém, envolve universidades que redesenham completamente seu modelo educacional em torno da Inteligência Artificial. Nesses casos, a tecnologia passa a influenciar o currículo, os métodos de avaliação, os serviços ao estudante e a própria lógica de aprendizagem ao longo da vida, além de estimular novas parcerias com empresas e ecossistemas de inovação.

Mas essa transformação também levanta novas questões: qual será o papel das universidades quando o conhecimento se tornar abundante?

Três possíveis futuros para a universidade

Para explorar essa questão, Lyn Jeffery apresentou três cenários possíveis para o ensino superior na era da IA.

  • “AI-proof university”. Nesse modelo, universidades poderiam limitar ou até proibir o uso de IA em atividades acadêmicas. A proposta seria preservar uma experiência de aprendizagem baseada exclusivamente em trabalho humano, discussão presencial e produção intelectual sem assistência algorítmica.
  • “AI-augmented university”. A IA passa a ser integrada ao processo de aprendizagem. Os estudantes aprenderiam conteúdos tradicionais e a colaborar com sistemas inteligentes, avaliar criticamente respostas geradas por IA e usar ferramentas computacionais para simulação e análise.
  • “AI-adjacent university”. Os esforços seriam concentrados nas habilidades que a IA ainda não consegue reproduzir. O foco estaria em capacidades humanas como pensamento crítico, criatividade, empatia, ética e colaboração.

Esses cenários não são previsões definitivas, mas formas de explorar possibilidades.  Na linguagem da prospectiva estratégica, eles funcionam como “sinais de mudança”, ou seja, experimentos ou tendências emergentes que ajudam a imaginar futuros possíveis.

Olhar para o futuro também exige olhar para o passado

Se Lyn Jeffery enfatizou a importância de identificar sinais de mudança, a professora Maisha T. Winn, da Stanford University, trouxe outra dimensão para a discussão: a importância dos chamados “sinais históricos”. Segundo ela, imaginar o futuro da educação exige reconhecer experiências de inovação que surgiram em contextos de exclusão e desigualdade.

Ao longo da história dos Estados Unidos, comunidades negras criaram sistemas educacionais próprios mesmo quando o acesso à educação formal era limitado ou proibido. “Apesar de condições extremamente adversas, pais, educadores e membros da comunidade continuaram a imaginar e construir futuros educacionais para suas crianças”, afirmou Maisha.

Essas experiências mostram que a inovação educacional não nasce apenas dentro de universidades ou laboratórios tecnológicos. Muitas vezes, ela emerge de comunidades que precisam reinventar instituições para sobreviver.

A professora de Stanford propôs uma reflexão sobre o próprio conceito de Inteligência Artificial. Para ela, a sigla “AI” pode ser interpretada de outras maneiras e citou três conceitos complementares:

  • Ancestral Intelligence (Inteligência Ancestral)
  • Ancient Intelligence (Inteligência Antiga)
  • Archival Intelligence (Inteligência Arquivística)

Essas formas de conhecimento representam experiências acumuladas por comunidades ao longo do tempo. “Na nossa busca por empoderamento, precisamos reconhecer a sabedoria profunda codificada na experiência de gerações anteriores”, disse Maisha Winn. Nesse sentido, pensar o futuro da educação não significa apenas adotar novas tecnologias, mas também reconhecer e aprender com modelos educacionais que surgiram fora das instituições tradicionais.

Para as participantes do painel da SXSW 2026, o futuro da Educação ainda está em disputa, mas uma coisa parece clara: mais do que atualizar currículos ou incorporar novas ferramentas digitais, o desafio será repensar o próprio papel da educação em um mundo em que o conhecimento se tornou abundante e o trabalho está sendo profundamente transformado pela Inteligência Artificial.

 


Denise Melo, Head de Reputação e Influência, e Francesca Tomaselli, Diretora de Estratégia Digital, da Oficina

Francesca Tomaselli, Diretora de Estratégia Digital, da Oficina

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