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Relatório da WIPO revela uma divisão estrutural na inovação global — e os desafios do Brasil para sair da periferia da economia do valor (Crédito: Freepik)
INOVAÇÃO

O verdadeiro gargalo da inovação é a complexidade

WIPO analisa 2.508 capacidades e mostra por que conectar ciência, tecnologia e mercado virou vantagem competitiva

Inovar é fundamental para qualquer organização que quer se manter competitiva. Mas não é mais suficiente. Existe o risco de produzir conhecimento, crescer economicamente e, ainda assim, permanecer nas zonas periféricas da economia de valor, como aponta o relatório “Innovation Capabilities Outlook 2026”, da WIPO (World Intellectual Property Organization). O estudo, que analisou 2.508 capacidades de inovações, aponta que o desafio é conectar capacidades, aumentar complexidade e gerenciar portfólios de inovação de forma estratégica.

Analisando dados que cobrem o período de 2001 a 2023, o relatório da WIPO mostra que a inovação segue altamente concentrada, e apenas alguns poucos países conseguem transformar crescimento em vantagem competitiva sustentável. China, Índia e Vietnã, por exemplo, estão redefinindo o mapa global da inovação. Os demais correm o risco de produzir conhecimento, crescer economicamente e, ainda assim, permanecer periféricos na economia do valor.

O relatório aponta que o diferencial competitivo do século XXI está em:

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O que são “capacidades de inovação”

A WIPO define capacidades de inovação como a habilidade comprovada de um ecossistema (país, economia ou região) de gerar vantagem competitiva sustentável em campos específicos. A inovação relevante emerge na interseção das capacidades, não em silos.

O estudo organiza essas capacidades em quatro dimensões:

  • Ciência (628 campos): pesquisa fundamental e produção de conhecimento.
  • Tecnologia (480 campos): P&D aplicada, engenharia, TICs, biotecnologia.
  • Empreendedorismo (538 campos): comercialização, modelos de negócio, criação de empresas.
  • Produção (862 campos): manufatura avançada, escalabilidade industrial e cadeias de valor.

Em 2023, os 10 países líderes concentraram:

  • 87% das patentes internacionais
  • 73% das marcas internacionais
  • 70% das publicações científicas
  • 54% das exportações industriais avançadas

A maioria das economias globais contribui com menos de 1% em qualquer uma dessas dimensões. É importante notar que essa concentração não decorre apenas de desigualdade de recursos, mas de barreiras sistêmicas de complexidade. As capacidades mais valiosas – como Inteligência Artificial Avançada, Biotecnologia, Semicondutores, Computação Quântica e Tecnologias Verdes – exigem ecossistemas densos, interconectados e altamente diversificados.

 

Onde estão as oportunidades reais de inovação

O relatório propõe um mapa de oportunidades baseado em

  • Proximidade (o quão próxima uma nova capacidade está das existentes),
  • Complexidade (potencial de retorno).

Alguns padrões emergem:

  • Ciência é o ponto de entrada mais acessível para países menos complexos.
  • Empreendedorismo funciona melhor em economias de rápido crescimento.
  • Tecnologia exige ecossistemas sofisticados.
  • Produção demanda alta complexidade, mas cresce mais lentamente.

Não existe caminho único. Países bem-sucedidos são aqueles que alinham ambição tecnológica ao estágio atual de maturidade do ecossistema.

 

Complexidade: o verdadeiro gargalo da inovação global

O relatório mostra que a complexidade é o recurso mais escasso da economia do conhecimento. Enquanto:

  • 68% das economias aumentaram o PIB per capita desde 2001
  • 66% diversificaram suas capacidades
  • 30% conseguiram aumentar a complexidade de suas capacidades de inovação

Complexidade, no contexto do estudo, mede quantas e quais capacidades complementares são necessárias para dominar um determinado campo. Capacidades simples podem ser adquiridas isoladamente; capacidades complexas exigem orquestração institucional, educacional, científica e produtiva.

“Assim como uma sinfonia requer diferentes instrumentos trabalhando em harmonia, inovações revolucionárias surgem quando as dimensões se interconectam. Fortes vínculos entre ciência e tecnologia indicam uma tradução eficaz da pesquisa básica em inovações aplicadas. Conexões robustas entre empreendedorismo e produção sugerem caminhos eficientes de comercialização, levando as inovações ao mercado”, cita o relatório.

 

Dois mundos da inovação: Ásia acelera, o Ocidente gerencia

O relatório identifica uma divisão estrutural no sistema global de inovação.

 

1. Economias que dominam a “inovação estratégica”

China, Índia e Vietnã são os exemplos mais claros. Entre 2001 e 2023:

  • A China aumentou:
    • publicações científicas em 62 vezes
    • atividades empreendedoras em 65 vezes
  • A Índia cresceu:
    • 9,7 vezes em patentes
    • 6,9 vezes em empreendedorismo
  • Esses países conseguiram, por 8 de 10 anos, aumentar simultaneamente diversidade e complexidade — o que a WIPO chama de smart diversification

2.Economias que preservam valor, mas expandem pouco

Estados Unidos, Japão e grande parte da Europa cresceram apenas 1,2 vez a 1,5 vez nas principais métricas. Esses países:

  • Mantêm alta complexidade,
  • Mas avançam pouco em novas capacidades,
  • Compensam isso com gestão estratégica do portfólio, abandonando capacidades de menor valor e protegendo as mais complexas.

 

Diversificação não basta: é preciso diversificar certo

Entre 2002 e 2023:

  • 54% das economias diversificaram suas capacidades,
  • Mas 46% não diversificaram de forma significativa.

Isso não é, necessariamente, um problema. O risco está em diversificar sem aumentar complexidade. O estudo mostra que:

  • Economias pouco diversificadas tendem a adquirir capacidades próximas e simples (path dependency).
  • Economias mais avançadas conseguem dar saltos estratégicos para campos distantes e complexos .

O número de países que conseguem ganhar diversidade e complexidade ao mesmo tempo caiu ao longo da última década, indicando maior dificuldade estrutural do processo.

 

Tecnologia é o campo mais concentrado — e o mais difícil

Entre as quatro dimensões, tecnologia é:

  • A mais complexa
  • A menos difundida
  • Presente de forma dominante em apenas 4,5% das economias

Enquanto ciência e empreendedorismo se tornaram relativamente mais acessíveis, capacidades tecnológicas avançadas estão se afastando do restante do sistema, criando uma lacuna crescente .

Inovação está ficando mais interdisciplinar

Outro dado central do relatório:

  • Uma marca internacional envolve, em média, 9 campos de inovação.
  • Um artigo científico, cerca de 4 campos.
  • Patentes continuam mais focadas, com 1,5 campo em média.

Isso mostra que a inovação moderna exige integração de múltiplos saberes, reforçando a importância de ecossistemas diversificados e conectados.

 

O maior desperdício global: potencial tecnológico não realizado

Talvez o dado mais contundente do relatório seja este:

  • Apenas 10% das economias atingem seu potencial tecnológico (patentes) esperado com base em suas outras capacidades.
  • Em comparação:
    • 27% atingem o potencial em marcas,
    • 30% em exportações,
    • 32% em ciência .

Isso significa que o mundo deixa de gerar, anualmente:

  • 339 mil patentes complexas (26% do potencial),
  • 40 mil marcas,
  • 17% do potencial de exportações complexas.

A ciência, por outro lado, apresenta apenas 5% de potencial complexo não realizado, sugerindo que o gargalo não está na geração de conhecimento, mas na tradução tecnológica.

América Latina e Brasil

A América Latina e o Caribe exemplificam um sistema impulsionado pela Ciência e pela Produção, onde a pesquisa científica contribui com 26% a 36% do potencial em todas as dimensões da inovação, complementada por fortes capacidades produtivas (43% a 53%). Isso sugere economias que se destacam em pesquisa fundamental e manufatura, mas que têm dificuldades em traduzir esses avanços em empreendimentos empresariais e inovações tecnológicas.

A maior parte da difusão de capacidades ocorreu durante a primeira década do século XXI. Desde então, o processo desacelerou, mas ainda assim, economias como Brasil, Índia, Jordânia e Cazaquistão ingressaram no cenário global de inovação como atores relevantes. O relatório nota que em países de grandes dimensões, como o Brasil, o tamanho da população influencia, mas não determina, a diversidade da capacidade de inovação. O sucesso depende mais de escolhas estratégicas sobre investimento em infraestrutura de conhecimento. 

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