O mercado brasileiro de ativos tokenizados passou de R$ 1 bilhão para mais de R$ 10 bilhões entre agosto de 2025 e agosto de 2026, uma alta de cerca de dez vezes, enquanto o mercado global dobrou no mesmo período. O valor de ativos do mundo real (RWA) tokenizados, sem contar as stablecoins, chegou a US$ 39,2 bilhões, 26 vezes mais do que três anos antes. A maior parte desse mercado, porém, ainda está na primeira etapa, como aponta o relatório “Brazil Tokenization Report 2026”, produzido pela Nexa, que leva o subtítulo “The Intelligence Layer”.
O estudo, que reúne seis pesquisas proprietárias, mais de 90 parceiros e 150 empresas no mapa do ecossistema e mais de 50 casos de uso, tem como tese central que blockchain e IA deixaram de ser apostas separadas: o blockchain torna o valor programável, e a IA decide o que fazer com ele. Segundo o relatório, 77,6% dos ativos on-chain são “wrappers”, ou seja, um recibo digital de um ativo cuja custódia continua fora da rede, como o fundo BUIDL, da BlackRock. Apenas 2,7% são nativos, com emissão, custódia e resgate rodando inteiramente on-chain.
As stablecoins mostram a mudança de uso. A capitalização ficou praticamente estável, acima de US$ 300 bilhões, mas o volume mensal de transferências dobrou, de US$ 3,5 trilhões para mais de US$ 7 trilhões. Os endereços ativos mensais foram de 28 milhões para 56 milhões, e os detentores, de 195 milhões para 285 milhões (alta de 46%). Cada dólar on-chain agora gira 24 vezes por mês, contra 13 vezes um ano antes. Mais de 99% do valor das stablecoins está atrelado ao dólar, e Tether e USDC concentram 88% do mercado. O relatório faz uma ressalva: do volume de US$ 56,42 trilhões registrado em 2025, só 0,5% (US$ 275 bilhões) correspondeu a pagamentos reais. O restante foi de transferências técnicas (56%) e negociação (43%).
Do lado institucional, 63% dos investidores institucionais querem exposição a ativos tokenizados, e 64% das gestoras querem emitir produtos próprios. As instituições tradicionais já detêm 36% das autorizações concedidas sob o MiCA, a regulação europeia. Em 22 de julho de 2026, a DTCC informou que 40 firmas de Wall Street movimentaram ETFs, ações e títulos do Tesouro reais por meio de tokenização em ambiente real, última etapa antes do lançamento do serviço, previsto para outubro. No caminho inverso, os pedidos de licença bancária nos EUA feitos por empresas Web3 saltaram de 0 para 14 em um ano.
O Brasil: crédito privado na frente
Dos mais de R$ 10 bilhões tokenizados no Brasil, 88% são crédito privado. Ainda assim, o volume é pequeno perto do potencial. Apenas 0,30% do saldo de R$ 2,75 trilhões em crédito corporativo do Sistema Financeiro Nacional está tokenizado. A lista de mercados endereçáveis inclui R$ 11,10 trilhões em fundos de investimento, R$ 9,27 trilhões em dívida pública federal e R$ 4,86 trilhões em valor de mercado das ações listadas.
A base de usuários já existe. Segundo o relatório da Nexa, 29 milhões de brasileiros já investiram em cripto. O percentual dos que têm ou tiveram criptoativos (17,2%) é 2,3 vezes o dos que investiram em ações listadas (7,4%). E 83% desses investidores usaram o aplicativo do próprio banco. O volume de transações com cripto no país somou R$ 283,1 bilhões no primeiro semestre de 2026.
As stablecoins representaram 80,2% de todo o volume de cripto declarado à Receita Federal em 2025, e o USDT sozinho respondeu por 91,8% do volume de stablecoins no país, usado principalmente para dolarização, negociação e reserva de valor. As stablecoins lastreadas em real ainda são pequenas, mas crescem: em setembro de 2026, a BRLV somava US$ 72,9 milhões em capitalização, a BRZ US$ 54,2 milhões, a BRLA US$ 24,3 milhões e a BRL1 US$ 3,1 milhões. A B3 prepara a própria stablecoin, a B3RL, e prevê negociar ativos tokenizados a partir de 2027.
A infraestrutura ajuda a explicar a velocidade. No quinto ano, o Pix chegou a mais de 335 transações por habitante, movimentando R$ 35,3 trilhões por ano e atingindo 180 milhões de usuários. O Open Finance passou de 27,8 milhões para quase 130 milhões de consentimentos únicos em menos de três anos. Quanto ao que vem a seguir, 48% dos respondentes apontam o crédito privado como o próximo produto a atingir grande volume tokenizado, mais que o dobro dos títulos públicos (20%).
Entre os entrevistados pelo relatório, 48% apontam o crédito privado como o próximo produto a alcançar escala com a tokenização, percentual mais que o dobro da segunda opção mais citada: títulos públicos e do Tesouro, com 20%. Sobre o setor que deve impulsionar esse crescimento, 41% dos entrevistados indicam a economia real, ou seja, as empresas em geral, à frente de agronegócio (10%), infraestrutura (10%) e real estate (9%).
Regulação em três atos
O relatório divide a construção regulatória brasileira em três atos. O primeiro foi o Parecer de Orientação CVM 40, de 2022, que estabeleceu que a natureza jurídica de um token depende do ativo subjacente, e não da tecnologia de registro. O segundo foi a operacionalização. A Resolução CVM 88, de crowdfunding, virou a porta de entrada da tokenização por ser simples e barata, mas tem tetos de R$ 15 milhões por oferta, R$ 40 milhões de receita do emissor e R$ 20 mil por ano por investidor de varejo. Por isso, as operações maiores migraram para a CVM 160, que liderou em volume, com R$ 3,1 bilhões tokenizados no primeiro semestre de 2026.
O terceiro ato, a modernização, está em curso. A revisão proposta da CVM 88 eleva o teto para R$ 25 milhões para empresas não registradas (e até R$ 50 milhões por patrimônio separado para securitizadoras registradas), elimina o teto de receita para empresas não registradas e reconhece expressamente o uso de DLT. O piloto da ANBIMA selecionou 20 casos de uso entre mais de 50 instituições inscritas e, segundo o relatório, superou as expectativas em quatro vezes. No Banco Central, as Resoluções 519, 520 e 521 exigem capital mínimo de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões para prestadoras de serviços de ativos virtuais. Já a Resolução BCB 584/2026 impõe retenção de 24 horas em transferências acima de US$ 10 mil para carteiras autocustodiadas ou prestadoras estrangeiras.
A camada de inteligência já está em produção
Entre investidores, bancos, alocadores e provedores de infraestrutura ouvidos pela pesquisa, 78% já usam IA Generativa em produção, e 35% já usam IA Agêntica. Os usos, no entanto, ainda se concentram em administrar o que já existe: inteligência de mercado (65%), compliance e reporte regulatório (56%) e gestão de risco e fraude (54%). A criação de produtos de investimento personalizados aparece com 31%, e negociação e market making, com 21%. As aplicações voltadas à criação de novos produtos aparecem com menor frequência: gestão de patrimônio e robo-advisory foram mencionados por 42%, criação personalizada de produtos de investimento por 31%, infraestrutura de pagamentos e liquidação por 27% e negociação e formação de mercado por 21%.
A governança é o que mais segura essa convergência. 43% dos respondentes se dizem preocupados com agentes de IA operando em redes blockchain, e só 33% têm um framework completo de governança para agentes com permissão de execução. Os outros 67% têm estruturas parciais ou em desenvolvimento. Entre os casos brasileiros que já combinam as duas tecnologias, o relatório destaca a Liqi, que usa 20 agentes de IA em estruturação, liquidação e monitoramento de garantias em securitizações, com 59 pools monitorados 24 horas por dia e R$ 4,3 bilhões emitidos.
Barreiras e próximos passos
A regulação voltou a ser a barreira mais citada, por 85% dos respondentes (73% em 2024 e 80% em 2025), seguida da aceitação do mercado (83%). A preocupação com a cibersegurança subiu para 28%. Mesmo assim, 67% avaliam que o ambiente melhorou em relação a 2025. Os family offices, que distribuem os produtos ao cliente final, são os menos otimistas (54% veem melhora) e apontam como entraves a falta de familiaridade com o produto (54%), a ambiguidade regulatória (54%) e a ausência de liquidez secundária (42%).
O estudo identifica três lacunas ainda abertas: distribuição, liquidez secundária e interoperabilidade. Sob a regra de crowdfunding, um token só pode ser revendido na plataforma que o emitiu. Com a retirada do blockchain da base do Drex, também não há uma camada comum de liquidação.
Quanto ao que vem a seguir, 48% dos respondentes apontam o crédito privado como o próximo produto a atingir grande volume tokenizado, mais que o dobro dos títulos públicos (20%). O argumento do relatório é que o crédito privado é o ativo menos líquido e mais manual da lista, e por isso é onde a tokenização elimina mais atrito.