Incerteza não é algo que o mercado gosta, mas já que temos de aprender a viver com a incerteza, é melhor aprender a ler os sinais para decodificar o que vem por aí. É mais ou menos nessa pegada que a 40ª edição do “The World Ahead”, da Economist, aponta para tendências e caminhos que estão se abrindo. O relatório projeta um ano marcado por juros em queda em grandes economias, tensões comerciais persistentes, corrida por energia limpa, avanços profundos em Inteligência Artificial (ainda que acompanhados por frustrações) e um ambiente comercial pressionado por riscos regulatórios, climáticos e geopolíticos. Não é pouco.
A seguir, destacamos algumas análises e previsões da Economist em setores como Tecnologia, Saúde, Automotivo, Energia e Agronegócio.
2026: o ano em que a IA vai aparecer
A adoção corporativa continuará lenta, mas com grande impacto financeiro. O relatório levanta a seguinte questão: os gastos desenfreados em infraestrutura para IA também podem estar mascarando a fragilidade econômica nos Estados Unidos. Será que a bolha vai estourar? Se a adoção corporativa acelerar, a bolha se sustentará. Se desacelerar, a correção poderá:
- derrubar trilhões em valor de mercado,
- afetar consumidores,
- paralisar investimentos em data centers,
- reduzir riqueza das famílias americanas.
Enquanto isso, tensões trabalhistas vão aumentar:
- Startups como Artisan já fazem campanhas dizendo “Stop Hiring Humans”.
- Agentes de IA prometem substituição direta de funções humanas.
Apesar do medo, estudos mostram que ainda não há evidência concreta de que IA esteja causando desemprego em massa. O que indica que 2026 será, portanto, o ano em que o mundo começará a descobrir se IA é renascimento econômico, estouro financeiro, convulsão social. Ou tudo ao mesmo tempo.
Setor automotivo encara uma virada, cortesia da China
É o setor que mais simboliza a nova ordem industrial global: mais fragmentação, mais nacionalismo econômico e mais China. As vendas globais de veículos elétricos devem subir 15%, chegando a 24 milhões, com mais da metade vinda da economia chinesa. Mas o avanço não será homogêneo:
- EUA irão frear incentivos e reduzir metas ambientais.
- Europa adiará multas para montadoras, mas vai endurecer padrões de segurança e emissões.
- China expandirá agressivamente sua presença global, com BYD abrindo fábricas no Brasil, Hungria, Turquia e possivelmente Indonésia.
Ao mesmo tempo, montadoras ocidentais devem recalibrar suas estratégias por causa das tarifas:
- Volkswagen e GM irão expandir fábricas nos EUA.
- Stellantis vai regionalizar suas marcas.
- Audi adia o lançamento de seu último carro a combustão;
- Aston Martin irá postergar o lançamento de seu primeiro EV.
- Honda abandonará planos de um SUV elétrico em Ohio.
Saúde: envelhecimento, robôs e boom dos medicamentos de obesidade
O gasto global em saúde atingirá quase US$ 12 trilhões, mas ainda assim faltará financiamento.
A seguir, alguns drivers desse setor:
- Governos vão priorizar defesa e redução de dívidas.
- O envelhecimento irá pressionar sistemas de saúde (Japão: mais de 30% da população terá acima de 65 anos).
- O setor enfrentará escassez de profissionais, mitigada parcialmente por robôs e IA.
A indústria farmacêutica atingirá US$ 1,6 trilhão, impulsionada por:
- Medicamentos para obesidade
- Versões genéricas na China e na Índia
- Pílulas substituindo injetáveis para quem tem fobia de agulha.
Mas há possibilidade de os EUA penalizarem empresas com tarifação, o que fará com que vejamos uma realocação de produção e aumento vendas em outros mercados.
Energia renovável vai ultrapassar o carvão, mas transição energética seguirá tensa
Em 2026, a demanda global de energia crescerá apenas 1%, enquanto as emissões aumentarão 0,7%. As fontes renováveis (excluindo hidrelétricas) superarão 30% da geração global, ultrapassando o carvão. Alguns destaques:
- China adicionará mais de 300 GW em eólica e solar em um único ano.
- O país também deve iniciar novos projetos nucleares.
- Carvão continuará forte: Índia aumentará emissões; EUA também ampliarão produção.
- Preços de gás natural ficarão elevados, impulsionados por custos de produção e demanda por LNG.
- Data centers, movidos pelo boom de IA, farão a demanda elétrica crescer 3%.
E um ponto crítico: políticas americanas pró-combustível fóssil trarão contradições para investidores em energia limpa.
Infraestrutura: investimentos vão subir 6%, mas gargalos irão persistir
O investimento global em infraestrutura passará de US$ 30 trilhões. Destaques:
- Ásia responderá por quase metade dos investimentos, focando novas estradas.
- China e Malásia avançarão em grandes projetos ferroviários.
- Cingapura inaugurará novo hub; Vietnã iniciará as operações de seu trem de alta velocidade.
- Europa expandirá aeroportos, apesar de limites climáticos.
- Oriente Médio ampliará infraestrutura de transporte.
- EUA focarão em infraestrutura digital: Big Techs investirão US$ 400 bilhões em data centers para suportar IA.
- Sistemas hídricos norte-americanos sofrerão cortes, o que representará um risco à resiliência climática.
Defesa terá um orçamento recorde de US$ 2,9 trilhões
As empresas de defesa experimentarão um boom, mas pequenas companhias de tecnologia poderão capturar novas oportunidades, especialmente em IA e autonomia. A escalada geopolítica continuará elevando gastos militares. Em 2026:
- Orçamentos globais chegarão a US$ 2,9 trilhões.
- EUA ultrapassarão US$ 1 trilhão sozinhos.
- Europa vai acelerar investimentos, com a Alemanha liderando via fundo especial de €100 bilhões.
- China irá expandir plataformas hipersônicas e espaciais e integra IA aos sistemas militares.
- Japão reforçará investimento e aplicação de robótica, hipersônicos e cooperação naval com Austrália.
- Polônia poderá atingir 5% do PIB em defesa antes de 2035.
Agronegócio e alimentos: supersafras e pressões humanitárias
O índice global de alimentos e bebidas seguirá caindo desde o pico de 2025. Pontos-chave:
- Arroz manterá tendência de queda após liberação das exportações da Índia.
- Preços de bebidas irão despencar: café arábica cairá 25%.
- Clima neutro (sem El Niño forte) vai favorecer colheitas.
Por outro lado:
- EUA sofrerão com escassez de trabalhadores rurais (13% são imigrantes indocumentados).
- Restrições à ajuda humanitária americana ameaçarão programas de alimentação em países pobres.
- A fome deverá aumentar na África e no Oriente Médio.
- Novos impostos sobre açúcar e restrições à publicidade de alimentos ultraprocessados ganharão força (Itália, Indonésia, Reino Unido).
Finanças: queda de juros, mais fusões e compliance mais caro
Com a redução de juros nos EUA, Reino Unido e China, o crédito global deve crescer 5%. A boa notícia: os relatórios ESG se tornarão obrigatórios na Europa, China, Japão e Brasil. Mas o ambiente regulatório será desigual:
- EUA deverão flexibilizar regras do Basel III Endgame.
- União Europeia adiará novos requisitos de risco.
- Suíça irá endurecer regras para “bancos sistêmicos”, pós-Credit Suisse.
Outros movimentos relevantes:
- China deverá consolidar bancos e corretoras.
- Fusões bancárias nos EUA deverão crescer com regras antitruste mais flexíveis.
- Digital payments se tornarão mais seguros; Reino Unido exige verificações diárias.
- Criptomoedas ganharão novas proteções no Japão; EUA deverão regular stablecoins.
- Seguradoras aumentarão prêmios em média 2,6%, diante dos riscos climáticos e de erros de IA.