O uso combinado dos mecanismos de busca com a IA Generativa (GenAI) está expandindo as possibilidades que os consumidores têm de encontrar o que querem. Para as marcas no Brasil, isso significa uma mudança de lógica de interação, coleta de informação e decisão. Não é somente a busca do Google; é a busca do Google com IA e o ChatGPT usados conforme a intenção, o contexto e a profundidade da busca, segundo um relatório recente da Cadastra em parceria com a Similarweb.
Em 2025, o Google registrou leve retração de 0,88%, com 38,57 bilhões de visitas, enquanto o ChatGPT cresceu 71,9%, atingindo 1,97 bilhão de acessos, aponta o relatório “O Futuro da Busca: como a IA Generativa está redefinindo o caminho até o consumidor”. O Brasil é o terceiro maior mercado global de tráfego de IA, com 4,89%, atrás dos Estados Unidos (15,12%) e Índia (9,39%).
ChatGPT como novo mecanismo de busca
O ChatGPT tem uma fatia relevante no tráfego de IA chatbots no Brasil, concentrando 67% do tráfego. Entre agosto de 2024 e agosto de 2025, o tráfego na ferramenta cresceu 260,7%. Em 2025, o ChatGPT recebeu em média 252,9 milhões de visitas mensais e 24,1 milhões de visitantes únicos. Esses números indicam uma adoção real, massiva e com impacto direto em tráfego, descoberta e potencial conversão.
Entre janeiro de 2023 a agosto deste ano, os 10 maiores e-commerces do Brasil receberam mais de 6,1 milhões de visitas originadas do ChatGPT.
Top 10 e-commerces (referral do ChatGPT)
- Mercado Livre – 1,8 milhão
- OLX – 914,1 mil
- Amazon – 840,9 mil
- Magalu – 803,5 mil
- Shopee – 634,3 mil
- Temu – 406,8 mil
- Netshoes – 276,7 mil
- Americanas – 201,8 mil
- Casas Bahia – 167,5 mil
- AliExpress – 120 mil
Na prática, o que muda nas buscas? As perguntas ficam mais longas, detalhadas e situacionais, as sessões duram mais de 7 minutos e os LLMs (os grandes modelos de linguagem) são capazes de lembrar histórico e preferências para gerar respostas personalizadas. A IA aprende com o feedback do consumidor e passa a avaliar marcas ativamente. O estudo mostra que as consultas feitas em plataformas de IA têm, em média, 23 palavras, em contraste com as quatro palavras que dominavam o SEO tradicional.
Impacto nas categorias de varejo
Beleza
- Tráfego moderado e pouco concentrado.
- Consumidor híbrido: busca online e quer localização de lojas físicas.
- ESG é relevante nas buscas.
Top referrals do setor
- Beleza na Web – 92,6 mil
- Sephora – 80 mil
- Natura – 71 mil
Farmácia
- Segmento altamente concentrado: 3 players = 70% das visitas.
- IA usada para comparação de preços e consulta sobre medicamentos.
Top referrals do setor
- Consulta Remédios – 315,4 mil
- Drogasil – 250,8 mil
- Droga Raia – 155,5 mil
Moda
- Líder em referral: Enjoei, com 204,7 mil. Forte sinal de consumo sustentável.
- Grande amplitude de consultas (tendências, fidelidade, disponibilidade).
- Equilíbrio entre fast fashion, tradicionais e revenda.
Viagens
- Mobilidade urbana lidera: Uber – 235,7 mil
- IA usada em toda a jornada: destinos, logística, cancelamentos.
- Ecossistema equilibrado entre voos, hospedagem e apps.
Perfil de quem usa ChatGPT e Perplexity para buscas
O estudo mostra que existe um perfil demográfico muito claro para os usuários que utilizam ChatGPT e Perplexity como ferramentas de busca. Esses usuários formam um público bastante jovem, altamente digitalizado e com padrões de uso que revelam a formação de um novo hábito de pesquisa online. A seguir, estão os principais insights.
1. Público é majoritariamente jovem (18 a 34 anos)
Segundo o relatório, quase 60% dos usuários do ChatGPT e 58% dos usuários do Perplexity estão na faixa 18–34 anos. Isso indica que a adoção da busca por IA é liderada pelos jovens, o que é compreensível, já que são os que mais rapidamente incorporam novos comportamentos digitais.
Distribuição por faixa etária (ChatGPT)
- 18–24 anos: 27,57%
- 25–34 anos: 32,38%
- 35–44 anos: 18,86%
- 45–54 anos: 10,61%
- 55–64 anos: 7,23%
- 65+ anos: 3,36%
Distribuição por faixa etária (Perplexity)
- 18–24 anos: 23,67%
- 25–34 anos: 33,79%
- 35–44 anos: 19,01%
- 45–54 anos: 12,25%
- 55–64 anos: 7,84%
- 65+ anos: 3,44%
O estudo destaca que há uma grande oportunidade de expansão demográfica, já que o uso ainda é baixo acima dos 45 anos.
2. Leve predominância masculina nas duas plataformas
Tanto o ChatGPT quanto o Perplexity têm maior proporção de usuários homens.
Participação por gênero
- ChatGPT: 54,91% homens / 45,09% mulheres
- Perplexity: 56,78% homens / 43,22% mulheres
Mesmo assim, o ChatGPT apresenta uma distribuição de gênero mais equilibrada — e o estudo diz que ele já se tornou mais “mainstream”, com maior diversidade demográfica.
3. ChatGPT é mais mainstream; Perplexity é mais técnico
O relatório destaca uma diferença clara entre os públicos:
ChatGPT
- Público mais diverso.
- Maior equilíbrio demográfico.
- Presença feminina mais forte.
- Papel mais amplo: ferramenta de busca, assistente, apoio à compra, perguntas gerais.
Perplexity
- Uso mais concentrado em usuários com perfis técnicos.
- Público mais masculino.
- Maior recorrência em consultas mais profundas.
ChatGPT já está enraizado na rotina digital brasileira; Perplexity atende nichos mais especializados.
4. Usuários de IA generativa continuam usando Google
O estudo afirma que esses usuários não abandonam o Google: eles combinam as ferramentas. Ou seja, formou-se um comportamento de busca híbrida:
- Google → para buscas rápidas
- ChatGPT / Perplexity → para buscas contextualizadas, detalhadas e “explicadas”
5. Baixa interseção entre usuários das duas plataformas
Um dado extremamente relevante:
- Apenas 1,04% dos usuários do ChatGPT também usam Perplexity.
- Mas 57,79% dos usuários do Perplexity também usam o ChatGPT.
Interpretação do estudo:
- ChatGPT é a “porta de entrada” para IA Generativa.
- Perplexity é complementar: usado por quem busca resultados mais técnicos ou mais estruturados.
Como fica a jornada de compra
O panorama apresentado pelo relatório Cadastra/SimilarWeb mostra que estamos em um momento de inflexão. A adoção de IA generativa e a sua integração como mecanismo de busca e canal de descoberta estão acelerando rapidamente — e o Brasil está entre os países de vanguarda.
Para marcas e varejistas, isso exige repensar:
- A busca online (não mais apenas palavras-chave, mas prompts, contextos e conversações).
- A visibilidade digital (não mais apenas ranqueamento de links, mas presença em fluxos de IA e conversação).
- A jornada de compra (não mais apenas site > checkout, mas chat > sugestão > clique/checkout).
- Os conteúdos e formatos (não apenas posts ou artigos, mas FAQs, comparativos, tabelas, respostas estruturadas para IA).
- O tráfego digital (monitorar de onde vem — buscador tradicional ou chat-IA; e como converter).
Além disso, o contexto internacional reforça que essa transformação não é exclusiva do Brasil, e sim global, o que aumenta a necessidade de adaptação rápida para não ficar para trás.
Para as marcas que entenderem que a GenAI é um novo canal de busca, descoberta e conversão e que estruturarem suas estratégias em torno desse novo ecossistema, haverá vantagens. Já aquelas que insistirem no “velho SEO + ads” como única rota de visibilidade digital correm o risco de ver seu tráfego e relevância serem corroídos.
O que o GEO exige das marcas
Diante dessas transformações, o relatório destaca que as marcas precisam se antecipar e adotar práticas que vão além do SEO tradicional. Entra em cena o GEO (Generative Engine Optimization), um conjunto de estratégias para otimizar uma página ou site para os ambientes e features de IA Generativa (no caso, o LLM). O resultado é maior visibilidade em outputs gerados por IA, incluindo respostas em destaque e citação como fonte confiável.
Segundo o estudo:
- A visibilidade em IA Generativa dependerá de densidade de menções, satisfação de prompts, presença em respostas de chats e integração em fluxos de conversa/interação.
- Conteúdos devem estar estruturados: FAQs, listas, tabelas, comparativos, glossários, pois os LLMs favorecem formatos que podem responder diretamente.
- Palavras-chave de longa cauda (keywords com CPC US$2-5) geram 32% de AI Overview, enquanto keywords acima de US$10 geram cerca de 17%.
- A própria Google Search Generative Experience (SGE) aparece como elemento híbrido: no relatório, 43% dos resultados de “AI Overview” apontam para o Google.
Em outras palavras, a nova equação de visibilidade digital inclui: conteúdo otimizado para IA (resposta direta), presença como fonte em chats/IA, estruturação de dados e resposta à lógica de prompts. Não basta “ter um bom ranqueamento de SEO”. É preciso aparecer nos fluxos de IA.
Isso gera desafios práticos para as marcas:
- Redefinição de KPIs: menos foco em cliques vindos de buscadores tradicionais, mais foco em “ser citado” ou “ser referenciado” em IA.
- Monitoramento de tráfego de referência vindo de chats de IA.
- Produção de conteúdo com lógica de prompt: linguagem natural mais longa, contexto, conversação.
- Integração entre times de marketing, conteúdo, IA e tecnologia para garantir que o “conteúdo respondível” por IA exista.
A adoção tardia do GEO pode significar perda de visibilidade para marcas que competem em mercados digitais já maduros. No Brasil, com o crescimento acelerado da IA Generativa, a vantagem de sair na frente com essa aplicação pode gerar mais oportunidades.