Mesmo com a grande maioria das empresas adotando a Inteligência Artificial (IA) ou por isso mesmo, ainda estamos presos a uma pergunta: quantos empregos a tecnologia irá destruir? Uma nova leva de estudos está empurrando a discussão para uma outra abordagem: em vez de uma substituição massiva de trabalhadores, as evidências apontam para uma reconfiguração profunda do conteúdo do trabalho.
Entre 10% e 15% dos empregos atuais estão realmente vulneráveis à eliminação em quatro a cinco anos, enquanto 50% a 55% devem ser profundamente transformados pela adoção da IA nos próximos dois a três anos. O restante apresenta baixo potencial de automação no curto prazo, de acordo com uma análise do Boston Consulting Group. A Inteligência Artificial, portanto,ampliaria mais capacidades humanas, mudando a natureza das tarefas e criando novas formas de trabalho, como confirma um novo estudo do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial do MIT.
O trabalho está sendo desmontado em tarefas
Para entender o impacto da IA, o BCG propõe abandonar a ideia de “automação de empregos” e focar em “automação de tarefas”. A análise do estudo avaliou aproximadamente 1.500 tipos de funções profissionais, que juntos representam cerca de 165 milhões de empregos nos Estados Unidos, utilizando dados de bases como Revelio Labs e O*NET. Cada função foi decomposta em atividades específicas e classificada segundo seu potencial de automação. Uma tarefa foi considerada automatizável quando atendia a critérios como:
- não exigir presença física significativa
- depender pouco de julgamento emocional ou social complexo
- seguir processos estruturados
- ter dados acessíveis e padronizados
- produzir resultados baseados em regras claras
A partir desse modelo, o estudo identificou três dinâmicas principais que determinarão o impacto da IA no mercado de trabalho:
- Automação de tarefas
- Substituição ou aumento da capacidade humana
- Expansão da demanda por produtos e serviços
É essa combinação que define se a IA reduz empregos ou cria novas oportunidades.
Um dos pontos centrais da análise é que ganhos de produtividade podem aumentar a demanda por trabalho, em vez de reduzi-la. Isso ocorre quando a IA reduz custos ou acelera processos, ampliando o consumo de um determinado produto ou serviço.
O relatório destaca dois cenários possíveis:
Substituição direta. A IA executa tarefas completas e reduz a necessidade de trabalhadores.
Ampliação do trabalho humano. A IA automatiza partes do processo, mas humanos continuam essenciais para tarefas como:
- tomada de decisão
- interação com clientes
- resolução de problemas
- coordenação de processos
Quando essa segunda dinâmica predomina, a produtividade adicional pode levar à criação de novos empregos ou à expansão da demanda por profissionais qualificados. Esse fenômeno já ocorreu em revoluções tecnológicas anteriores, da eletrificação à internet.
A transformação mais profunda será dentro dos empregos
Na prática, a maior mudança ocorrerá dentro das funções existentes. Muitos profissionais continuarão ocupando o mesmo cargo, mas com responsabilidades diferentes. O estudo do BCG divide em seis categorias de impacto:
Para entender essa transformação, o BCG divide em seis categorias de impacto:
- Funções amplificadas (5% dos empregos). Profissões que dependem de julgamento humano complexo, como engenharia de software ou consultoria jurídica, tendem a ganhar eficiência sem perder relevância.
- Funções reequilibradas (14%). Aqui, a IA automatiza tarefas rotineiras, mas os profissionais passam a assumir responsabilidades mais complexas, como Marketing de conteúdo.
- Funções divergentes (12%). Tarefas operacionais são substituídas, enquanto funções mais experientes ganham peso.
- 4. Funções substituídas (12%). Somente quando a demanda por uma atividade é limitada e a IA automatiza tarefas centrais ocorre redução direta de empregos.
- 5. Funções habilitadas pela IA (23%). A tecnologia passa a fazer parte do trabalho cotidiano, como técnicos de laboratório ou assistentes clínicos.
- 6. Funções com baixa exposição (34%). São atividades difíceis de automatizar por dependerem de interação humana ou presença física, como professores e médicos. Nessas áreas, a IA tende a ter impacto limitado no curto prazo.
A preocupação é com a mobilidade profissional
Embora a substituição direta de empregos seja menor do que se imaginava, há outra preocupação emergente: o impacto da IA nas trajetórias de carreira. Um estudo da Brookings Institution mostra que mais de 15 milhões de trabalhadores norte-americanos sem diploma universitário estão em ocupações altamente expostas à IA. Entre eles, cerca de 11 milhões trabalham em chamados “Gateway jobs”, funções intermediárias que historicamente permitem a transição para empregos de maior remuneração.
Esses empregos funcionam como degraus importantes de mobilidade social, incluindo
- representantes de atendimento ao cliente
- assistentes administrativos
- operadores de escritório
- cargos de suporte
O problema é que quase metade das trajetórias que levam desses empregos intermediários para cargos de maior renda também apresenta alta exposição à IA. Isso significa que a tecnologia pode alterar não apenas empregos individuais, mas todo o sistema de progressão profissional dentro da economia.
Apesar da crescente atenção à IA, a maioria das organizações ainda está nos estágios iniciais de adoção. Um levantamento da The Conference Board mostra que 60% das empresas ainda estão nos níveis mais básicos de maturidade em IA, caracterizados por experimentação limitada ou projetos piloto isolados. Apenas 11% das organizações afirmam ter integração avançada da IA em seus processos empresariais.
Essa lacuna também aparece nas políticas de gestão de talentos. Segundo o mesmo estudo:
- 56% dos líderes de RH dizem que a fluência em IA tem pouca ou nenhuma influência nas promoções hoje
- apenas 10% afirmam que a habilidade com IA já é um requisito crítico para futuras lideranças
Ao mesmo tempo, os trabalhadores percebem essa mudança se aproximando.
Mais da metade dos funcionários entrevistados acredita que desenvolver habilidades em IA aumentará suas chances de promoção, mesmo que essa competência ainda não esteja formalizada nos critérios organizacionais.
O desafio para CEOs: redesenhar o trabalho
Nessa transformação do trabalho, 29% das organizações dizem estar no nível 3, com integração da IA em áreas específicas do negócio e apenas 11% afirmam ter adoção avançada (níveis 4 ou 5), em que a IA já influencia inovação, eficiência ou decisões corporativas.
O relatório “The Reimagined Workplace 2026: Adopting AI Today, Poised for Tomorrow”, do The Conference Board, indica que a crescente discussão sobre habilidades em IA pode valer para novas contratações, mas ainda não é critério determinante para avanço na carreira. Entre lideranças de RH, 56% dizem que a fluência em IA tem pouco ou nenhum impacto em promoções ou sucessão, 25% dizem que é considerada de forma moderada e apenas 19% dizem que é um fator importante ou requisito crítico.
Entre trabalhadores, a percepção também é dividida:
- 52% acreditam que melhorar habilidades em IA poderia influenciar promoções ao menos moderadamente.
- 48% acreditam que isso teria pouco ou nenhum impacto.
O estudo aponta uma lacuna de percepção: líderes valorizam mais essas habilidades do que muitos profissionais imaginam.
Para líderes empresariais, o principal desafio será reimaginar como o trabalho é estruturado dentro das organizações. Isso envolve decisões complexas:
- quais tarefas devem ser automatizadas
- quais devem permanecer humanas
- como reorganizar equipes
- quais habilidades desenvolver
O estudo do BCG alerta que empresas que reduzirem equipes antes de compreender completamente o papel da IA podem enfrentar consequências negativas.
Entre os riscos:
- perda de conhecimento institucional
- queda de produtividade
- fuga de talentos críticos
Ao mesmo tempo, organizações que não transformarem seus modelos operacionais podem perder competitividade.