The Shift

Habilidades do futuro: trabalhador brasileiro pesquisa IA, mas estuda idiomas

Gary Bolles, da Singularity University, após a apresentação do estudo Habilidades do Futuro da Unico Skill: "Num mundo de mudança exponencial, a única coisa que se pode garantir é que vamos continuar trabalhando uns com os outros por muito tempo" (Crédito: Divulgação)

O Brasil fechou o trimestre encerrado em junho de 2026 com desemprego de 5,4%, o menor para o período desde o início da série da PNAD Contínua, em 2012. Ainda assim, empresas de vários setores dizem não encontrar “gente pronta” para as vagas abertas. Esse é um dos insights do relatório “Habilidades do Futuro & Aprendizado 2026”, da Unico Skill, que analisa o comportamento registrado de 117,8 mil usuários da plataforma de educação corporativa, ligados a 181 empresas clientes e 107 parceiros educacionais. Essas informações foram cruzadas também com mais de 20 entrevistas com executivos e especialistas, entre eles Gary A. Bolles, da Singularity University, e Matthew Rascoff, da Universidade de Stanford. Bolles participou do lançamento da pesquisa em São Paulo, na última semana de outubro, e comentou alguns dados e cenários brasileiros.

“No Brasil, o que vejo é que as pessoas estão com muita fome de aprender novas habilidades, entender novos setores, encontrar novas oportunidades, e isso não é tão comum em muitos outros países. Em várias culturas, há gente começando a perder a fé na educação tradicional, nos diplomas tradicionais, o que é compreensível. Mas não quero que as pessoas percam a fé no aprendizado”, disse Gary Bolles durante a conversa com jornalistas após a apresentação da pesquisa.

A projeção do SENAI é de que será preciso requalificar 14 milhões de profissionais da indústria até 2027 apenas para sustentar a operação atual e as aspirações de carreira de milhares de trabalhadores. “A oportunidade para o Brasil é acelerar o processo de capacitar o maior número possível de trabalhadores para usar as ferramentas de IA, porque o conhecimento básico dessas ferramentas será cada vez mais exigido pelos empregadores”, afirmou.

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Entre fevereiro e julho de 2026, “Inteligência Artificial” foi o termo mais buscado na plataforma da Unico Skill, com 13.789 buscas, mais de três vezes o volume do segundo colocado, o idioma “Inglês”. Termos ligados ao tema responderam por 22,9% de todas as buscas. Na hora de se matricular, porém, a escolha foi outra. No primeiro semestre de 2026, idiomas lideraram com 29,7% das matrículas, seguidos por “Soft Skills”, com 15,1%. Juntas, as duas áreas somam 44,8%. A IA aparece em terceiro, com 12,6%, e “Tecnologia e Dados”, com 11,8%. Para o relatório, o trabalhador pesquisa a tendência por curiosidade, mas investe tempo no que garante aplicabilidade imediata no trabalho ou mesmo uma oportunidade de promoção.

A categoria de Idiomas também foi a que mais cresceu: os pedidos de matrícula passaram de 10.944 no segundo semestre de 2025 para 20.565 no primeiro semestre de 2026, alta de 87,9%. “Em um mundo que continua a se globalizar, aprender um idioma não é só comunicação básica ou saber pedir num restaurante. É a cultura. É entender o enquadramento. Como as pessoas pensam? Como descrevem a mesma coisa em línguas diferentes? Mesmo com ferramentas muito boas, elas não vão ajudar você a entender como as pessoas pensam. Acredito que essa procura vai continuar crescendo”, afirmou Bolles. “Você não só pensa melhor, como consegue adotar diferentes estruturas de pensamento.”

Tecnologia e Ciência de Dados veio logo atrás, de 8.696 para 15.000 (+72,5%), seguida por Estratégia e Planejamento (+60,8%) e economia e finanças (+60,6%). Somadas, as seis categorias que mais cresceram saltaram de pouco mais de 30 mil para quase 52 mil pedidos em um semestre. O dado chama atenção num momento em que ferramentas de IA já traduzem textos e conversas em tempo real. O relatório sugere que o trabalhador enxerga no idioma algo além da tradução: mobilidade profissional, acesso a conhecimento e capacidade de atuar em ambientes internacionais.

O tempo é a principal barreira

Em pesquisa com 1.211 usuários, 52,7% apontam a falta de tempo como maior obstáculo para estudar, frente a 33,9% que dizem que nada atrapalha. Isso ajuda a explicar porque os cursos livres, de menor duração, lideram por tipo de formação, com 46,4% das matrículas, e por que 70% dos 134,6 mil pedidos analisados são de conteúdo online gravado. O relatório faz uma ressalva ao microlearning: conteúdo curto só gera valor quando é desenhado para uma necessidade específica e permite aplicação prática.

O formato também amplia o alcance geográfico. Na graduação, o semipresencial representa 50,4% das matrículas no Norte e 44,1% no Nordeste, contra 17,0% no Sudeste e 16,3% no Sul.

A mentoria responde por apenas 8,9% das matrículas, mas tem a maior taxa de conclusão da base, 86%, e a melhor nota média, 4,87 em 5, acima da média geral de 4,69 em 25.603 avaliações. O relatório pondera que o dado não prova causalidade, mas defende que o acompanhamento humano seja tratado como parte da estratégia de aprendizagem, e não como camada opcional. Cerca de 30% dos pedidos de matrícula envolvem algum formato ao vivo, semipresencial ou presencial.

O ponto mais sensível do relatório é o acesso. O estudo sugere que a educação corporativa precisa deixar de ser benefício periférico, medido por matrículas e certificados, para funcionar como infraestrutura de formação da força de trabalho. Nesse ponto, Bolles acrescenta que seria importante para os profissionais ampliarem seu mindset e pensarem nas capacidades que podem aprender como um portfolio. “Quero que as pessoas tenham um portfolio de aprendizado, em que uma parte beneficie o trabalho atual ou futuro, outra que ajude a se desenvolver como pessoa e outra que seja simplesmente diversão”, explicou. ASe uma parte das pessoas estuda porque ouviu de seu gestor ‘Se você não fizer este curso, não vai ser promovido ou pode perder o emprego’, então quero mudar essa equação para elas.” Para que pensem que há muito mais para aprender e que não se resume ao que fazem agora.