The Shift

VC global bate US$ 242 bilhões em um trimestre e a América Latina entra no jogo

53% das startups e 30% das corporações da América Latina já rodam agentes em produção; relatório da Hi Ventures mostra fundos de venture capital all-in e o talento como verdadeiro gargalo (Crédito: Magnific)

No primeiro trimestre de 2026, o financiamento de venture capital para empresas de IA atingiu o recorde de US$ 242 bilhões em um único trimestre, mais do que todo o ano de 2023 (US$ 65 bilhões) somado. A IA respondeu por 80% de todo o capital de risco do período, a alocação mais concentrada da história do setor. É contra esse pano de fundo que a Hi Ventures publica a 4ª edição do “State of AI in Latin America”.

Quase US$ 1 trilhão (cerca de US$ 930 bilhões em apenas seis anos) já foi comprometido com infraestrutura e capacidades de IA, um ritmo de investimento mais rápido do que o de disrupções anteriores como ferrovias, eletrificação e internet, que levaram décadas. Ao mesmo tempo, os modelos ficaram radicalmente mais baratos e capazes: o custo por milhão de tokens de saída caiu 95% desde 2023 (de US$ 60 para cerca de US$ 3), a janela de contexto cresceu 375 vezes e a fronteira de capacidade dos modelos avança com alta de 15,5 pontos por ano em benchmarks, quase o dobro do ritmo de 2022 a 2024.

O que muda o jogo para o mercado é a chegada dos agentes. A Hi Ventures chama o momento de “Agentic Big Bang”: pela primeira vez, o software não apenas responde perguntas ou gera conteúdo, mas persegue objetivos, navega fluxos de trabalho e opera com supervisão humana limitada. Os agentes despontam como uma nova categoria de software, disputando o TAM antes dominado pelo SaaS. Pelo menos 53% das startups da região rodam agentes em produção, contra 30% das corporações. Em ambos os grupos, porém, o modelo dominante de autonomia ainda é o “human-in-the-loop”, em que humanos revisam e aprovam as ações dos agentes.

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Os fundos de venture capital (VC) são o termômetro mais claro dessa virada. E estão all-in: hoje, 91% dos VCs usam IA para analisar oportunidades de investimento, ante 71% em 2025 e apenas 45% em 2024. A penetração de ferramentas é quase universal: só 2% dos fundos não usam nenhuma IA. O Claude, da Anthropic, lidera com 94% de adoção, ultrapassando o ChatGPT (69%), com o Gemini estreando em 65%. A pesquisa de mercado é o principal uso interno (85%), mas o dado relevante é a profundidade: seis aplicações já superam 50% de adoção, incluindo relatórios para cotistas e revisão jurídica (ambos com 52%).

Entre os fundos, 68% têm mais da metade do portfólio implementando IA ativamente (eram 51% em 2025) e 61% afirmam que mais de 60% de seus novos investimentos nos últimos 12 meses já trazem IA embutida no núcleo do produto. Os agentes avançam dentro das carteiras: 57% dos VCs dizem que mais de 25% do portfólio implementa agentes especificamente, e 33% relatam que mais da metade já o faz. Ter IA no centro do produto virou condição quase inegociável para captar e operar.

O gargalo, contudo, é talento. A falta de talento técnico é uma das três principais barreiras tanto para startups (23%) quanto para corporações (28%), mesmo com 51% das startups destinando mais de 10% do orçamento operacional à IA. Soma-se a isso o pano de fundo da produtividade: desde 2012, a produtividade total dos fatores subiu cerca de 6% nos EUA, mas caiu na maior parte da região, de -9% no México a -18% na Argentina. É justamente essa lacuna que sustenta a tese de investimento da Hi Ventures: como tecnologia de propósito geral, a IA pode elevar a produtividade de setores inteiros ao mesmo tempo, oferecendo à região a chance rara de acelerar décadas de desenvolvimento.

Brasil: o maior salto de prontidão

O Brasil é, em vários sentidos, a história de ascensão deste relatório. No Hi AI Readiness Index, que mede o quanto as organizações de um país estão preparadas para adotar, escalar e governar IA, o Brasil saltou de 62,5 para 70,2 pontos, o maior avanço ano a ano de toda a América Latina. Com isso, o país assumiu a terceira posição do ranking, atrás apenas de Chile (72,5) e Argentina (71,0), e à frente de México (67,5) e Colômbia (53,1). O índice, composto de 0 a 100 sobre cinco pilares (Estratégia, Investimento, Talento e Cultura, Infraestrutura e Governança), trata o Brasil como um dos cinco mercados analisados, dentro de uma base total de 420 respostas de startups, corporações e fundos.

Demanda de consumo no topo mundial. O relatório destaca o Brasil como um dos maiores mercados do ChatGPT no mundo. No campo da interface por voz, Brasil e México aparecem entre os mercados de maior uso de mensagens de áudio no WhatsApp do planeta, segundo a ElevenLabs. É um hábito que torna a adoção de agentes de voz uma extensão natural do comportamento do consumidor.

Trilhos digitais para finanças nativas de IA. O relatório aponta que os marcos de open banking no Brasil, México e Colômbia estão transformando cada fintech em uma potencial plataforma nativa de IA. Com faturamento eletrônico, mobile banking e APIs de open banking já consolidados, a infraestrutura de dados existe; o que falta é a camada de inteligência, exatamente onde a Hi Ventures vê uma de suas quatro grandes teses de investimento, a de “finanças nativas de IA”.

Vantagens setoriais e um caso nativo. O Brasil é citado entre os países de maior biodiversidade do mundo (ao lado de México e Peru), o que o relatório aponta como base para “pular etapas” em saúde com plataformas de descoberta agêntica. Na frente de IA Física, o país aparece com relevância global tanto em manufatura (junto ao México) quanto em agricultura (junto à Argentina), setores apontados como terreno fértil para robótica e automação. E há um caso nativo: a Trinio, plataforma de orquestração de comércio nativa de IA fundada no Brasil, que conecta checkout e fulfillment com agentes, elevando a conversão de checkout em 12% em média e reduzindo cancelamentos de pedidos em mais de 20%.

Leitura de conjunto. Os números específicos do Brasil são convergentes: forte demanda de consumo por IA, o maior salto regional de prontidão organizacional, trilhos regulatórios favoráveis e relevância em setores físicos. Vale notar que o índice e os agregados regionais refletem amostras de pesquisa, não um censo do ecossistema. Nesse sentido, o recente “Global Startup Ecosystem 2026”, da Startup Genome, mostra como o Brasil domina a região e a liderança de São Paulo entre os ecossistemas, como a The Shift apresentou neste artigo.