Não é que os jovens da Geração Z desistiram de ter um emprego, casar, ter filhos e outras conquistas associadas com os marcos tradicionais da vida. Mas, de certa forma, deixaram de acreditar que vão alcançá-los no mesmo ritmo ou da mesma maneira que as pessoas das gerações anteriores. E é justamente essa distância entre aspiração e expectativa que marca os mais recentes relatórios sobre a Geração Z, como o “Life Aspirations 2026”, da Ipsos, e o “Youth Report 2026”, da Pacsun, com dados da GlobalData, e o anterior “2026 Gen Z and Millennial Survey”, da Deloitte.
O relatório da Ipsos, que entrevistou quase 23 mil adultos em 30 países, resume o que significa “viver bem” (ter um emprego estável continua sendo o principal sinal de sucesso para 65% das pessoas ao redor do mundo, à frente até de casar ou ter filhos). O que muda drasticamente é a confiança de que esses marcos vão mesmo acontecer: a cada geração mais nova, a confiança cai, e a queda é mais forte entre a Geração Z, principalmente em relação a comprar uma casa ou ter filhos.
Essa insegurança tem uma origem recorrente nos três levantamentos: dinheiro. O relatório da Deloitte, que entrevista pessoas da Geração Z e millennials há 15 anos consecutivos, mostra que o custo de vida é a maior preocupação dessa geração pelo quinto ano seguido, e que mais da metade da Geração Z já adiou decisões importantes da vida, como casar, ter filhos ou empreender, por causa da própria situação financeira. O relatório da Pacsun, voltado a jovens norte-americanos de 11 a 24 anos, encontra o mesmo padrão em miniatura: as finanças pessoais são, disparado, o maior medo desse público, mais do que a economia em geral, mais do que a política, mais do que a saúde mental ou a imagem corporal. A proporção de jovens que se consideram financeiramente independentes vem caindo ano a ano.
Ao mesmo tempo, essa é uma geração que aprendeu a confiar pouco em quase tudo que não seja próximo dela. As marcas, os influenciadores e até mesmo a própria Inteligência Artificial aparecem, nos três estudos, como fontes de informação amplamente usadas, mas raramente confiáveis quando o assunto é importante de verdade. A IA já é onipresente no dia a dia, tanto no consumo quanto no trabalho, mas o grau de confiança nela para decisões que realmente importam (dinheiro, relacionamentos, carreira) continua baixíssimo. Família e amigos seguem, disparado, como as fontes mais confiáveis, mesmo numa geração hiperconectada e cercada de chatbots.
Por fim, os três relatórios captam uma geração que valoriza propósito e saúde mental mais abertamente do que as anteriores, mas que também convive com níveis altos de ansiedade, esgotamento e fadiga digital, mesmo enquanto essas métricas mostram sinais de melhora ano a ano. É essa combinação de otimismo cauteloso, ambição adiada, desconfiança institucional e apego ao círculo próximo que aparece repetidamente nos números que mostramos a seguir.
- O que define “sucesso” hoje: na média dos 30 países pesquisados pela Ipsos, 65% dizem que ter um emprego estável e em tempo integral é um sinal importante de vida bem-sucedida, à frente de ter casa própria (58%), sair da casa dos pais (35%), ser pai/mãe (31%), casar (25%) e ter um animal de estimação (16%).
- As gerações concordam sobre o que importa: entre países ocidentais, a Geração Z valoriza emprego estável quase tanto quanto as demais gerações (66%, contra 67% dos millennials, 65% da Geração X e 61% dos baby boomers). A maior diferença entre gerações aparece em “sair da casa dos pais”, mais valorizado pela Geração Z (42%) do que por millennials (36%), Geração X (30%) e boomers (33%).
- Dinheiro é o maior medo: perguntados sobre sua maior preocupação, 40,9% dos jovens ouvidos na pesquisa da Pacsun citam as finanças pessoais, muito à frente da economia em geral (17,3%), da faculdade (11,7%), da política (11,6%), do mercado de trabalho (11,3%) e da saúde mental (10,9%).
- Renda determina o que parece possível: entre quem tem renda baixa, apenas 52% já tiveram um emprego estável em algum momento da vida, contra 82% entre quem tem renda alta; para casa própria, são 35% contra 65%, aponta o Ipsos
- Independência financeira caindo: a parcela que se considera financeiramente independente caiu de 34,9% em 2025 para 32,9% em 2026. A parcela totalmente dependente dos pais subiu de 23,8% para 29,1% no mesmo período, segundo o levantamento da Pacsun.
- Ansiedade quase diária: 31% dos jovens dizem sentir esse tipo de preocupação todos os dias, 25% a cada poucos dias.
- Sonhos de vida aos 35 anos: os objetivos mais citados são ter um emprego estável (62%), ter carro próprio (59,5%), ter saúde mental (58,7%) e ter casa própria (58,5%), mas a confiança de que isso vai de fato acontecer é bem menor. Apenas 37,6% acham “garantido” ter um emprego estável até lá, e só 29,9% acham garantido ter casa própria.
- Família e amigos continuam no topo da confiança: para conselho financeiro, 41% confiam na família, contra 9% em profissionais e 8% em influenciadores. Para apoio de saúde mental, 29% confiam na família e 19% em amigos, contra só 7% em influenciadores. Segundo o relatório da Pacsun, os influenciadores nunca superam 11% de confiança em nenhuma categoria, e a IA nunca passa de 5%.
- Vício em redes sociais em alta: a parcela que se diz “definitivamente” viciada em redes sociais saltou de 18,8% em 2025 para 29% em 2026, no levantamento da Pacsun. Aqueles que dizem não se sentir “nada viciados” caíram de 20,1% para 11,6%.
- Comparação social pesa: entre quem acha que as redes sociais têm impacto negativo ou misto na saúde mental, 42,2% dizem que o principal motivo é “me fazem comparar a mim mesmo com os outros”, e 35,4% dizem que “me fazem sentir atrasado na vida””.
- IA onipresente, mas pouco confiável: 85% dos jovens usaram alguma ferramenta de IA nos últimos 12 meses, 66% já a usaram para alguma tarefa de compra e 41% para lição de casa. Mas apenas 5% confiam na IA para conselhos financeiros, 4% para conselhos de relacionamento e 2% para conselhos de moda.
- Moda, da autoexpressão à performance: em 2025, 33,7% dos jovens diziam se vestir “de acordo com como querem se sentir”. Em 2026, essa fatia caiu para 26,9%, enquanto a proporção que se veste “de acordo com como quer ser vista pelos outros” subiu de 12,3% para 15,6%.
- TikTok lidera a inspiração de moda, mas perde força: o TikTok segue como maior fonte de inspiração de moda (61,6% em 2026), à frente do Instagram (52,3%) e do Pinterest (39,9%), mas tanto o TikTok quanto o Instagram caíram em relação a 2025 (61,9% e 57,7%, respectivamente), enquanto o Pinterest se manteve estável.
- Carreira de influenciador perde apelo: o interesse em seguir carreira como criador de conteúdo ou influenciador caiu de 22,2% em 2025 para 18,8% em 2026. As carreiras na área da saúde seguem como as mais desejadas (19%).
- Remédios para emagrecer entram no radar: 39,2% dos respondentes da Geração Alpha e 32,7% da Geração Z dizem “saber muito” sobre medicamentos para perda de peso, como os GLP-1. Entre quem conhece um namorado ou namorada que usa esse tipo de remédio, o impacto relatado na própria autoimagem quase dobra em relação à média geral (34,5% a 35,2%, contra 18,6% no total).
- Compras assistidas por IA, com limites claros: 18,1% dos jovens já dizem que ferramentas de IA são hoje sua principal forma de pesquisar o que comprar, e outros 23% as usam ao lado de outros métodos, mas 28,7% dizem simplesmente não ter interesse em usar IA para compras. O conforto varia por tarefa: 33,5% adorariam receber alertas de promoção via IA, mas só 16,3% aceitariam deixá-la fazer uma compra de forma automática em seu nome.
- Quem cuida da saúde mental dos jovens: quando perguntados quem consideram responsável por preservar sua saúde mental, os jovens citam amigos (66,4%) e família (54,9%) muito à frente de professores (44,9%), empresas (28,3%), redes sociais (22,3%) e tecnologia de IA (13,4%).
- Pet antes de filho: entre a Geração Z em países ocidentais, 58% já têm ou esperam ter um animal de estimação ao longo da vida, mais do que os 44% que esperam se tornar pais.
- A confiança despenca a cada geração: olhando para o total de expectativas de vida (o que já aconteceu somado ao que é considerado certo ou muito provável de acontecer), a queda entre baby boomers e Geração Z chega a 32 pontos percentuais para “ser pai/mãe” e 31 pontos para “ter casa própria”.
- Tristeza antecipada: a Geração Z é a mais propensa, entre todas as gerações, a dizer que ficaria triste se nunca alcançasse os marcos tradicionais. Pelo menos 58% ficariam tristes por nunca ter um emprego estável (contra 23% dos boomers), 56% por nunca ter casa própria (contra 30% dos boomers) e 56% por nunca sair da casa dos pais (contra apenas 20% dos boomers). Segundo a Ipsos, isso sugere que a menor expectativa da Geração Z vem da dificuldade de acesso, e não da falta de vontade.
- Diferenças de gênero: homens valorizam mais o casamento (alta de 7 pontos percentuais) e a paternidade (mais 5 pontos) como sinais de sucesso do que as mulheres, um padrão que se repete na maioria dos países pesquisados.