The Shift

2026, o ano no qual o Chief AI Officer é o CEO

Em 2026, a Inteligência Artificial passa a operar como uma variável explícita de governança corporativa. O “AI Radar 2026“, publicado pelo Boston Consulting Group em janeiro de 2026, mostra que 72% dos CEOs afirmam ser os principais responsáveis pelas decisões de IA em suas organizações, o dobro do registrado em 2025. A transformação deixa de ser delegada a funções técnicas, sendo incorporada ao núcleo do poder executivo.

Esse deslocamento ocorre em paralelo a uma expansão acelerada de capital. As empresas projetam dobrar seus investimentos em IA em 2026, de aproximadamente 0,8% para 1,7% da receita média. Em setores como tecnologia e serviços financeiros, o patamar se aproxima de 2% da receita anual. O dado indica que a IA deixou de competir por orçamento marginal e passou a ocupar espaço estrutural no planejamento financeiro.

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O elemento distintivo não é apenas o volume investido, mas a disposição em sustentar o gasto mesmo diante da incerteza. Segundo a pesquisa, 94% das organizações pretendem manter ou ampliar seus investimentos em IA mesmo que o retorno financeiro não se materialize nos próximos 12 meses. Apenas 6% consideram reduzir aportes caso os resultados fiquem abaixo do esperado.

Essa tolerância explícita ao adiamento do ROI altera a natureza da decisão. O investimento em IA passa a ser tratado como infraestrutura estratégica, não como projeto de eficiência de curto prazo. Nesse contexto, a responsabilização se concentra no CEO: 50% dos entrevistados associam diretamente sua estabilidade no cargo à capacidade de acertar a estratégia de IA até 2026.

A centralização da agenda no topo executivo reflete o caráter transversal da tecnologia. A IA afeta simultaneamente modelo operacional, estrutura organizacional, tomada de decisão, gestão de riscos e estratégia de crescimento. O relatório registra, de forma consistente, a migração da liderança da transformação de uma iniciativa CIO-led para uma estratégia CEO-led.

Esse movimento, porém, revela uma assimetria interna relevante. CEOs demonstram níveis mais altos de confiança no retorno da IA do que outros executivos, especialmente aqueles fora das áreas de tecnologia. Enquanto 62% dos CEOs afirmam estar confiantes de que a IA trará retorno, esse percentual cai para 48% entre executivos não técnicos. A diferença sugere uma combinação de maior familiaridade dos CEOs com processos de mudança e uma possível subestimação da complexidade de execução.

A principal aposta para converter investimento em retorno em 2026 são os agentes de IA. Diferentemente de aplicações anteriores, agentes operam fluxos de trabalho de múltiplas etapas, interagem com sistemas corporativos e executam decisões com intervenção humana limitada. Cerca de 90% dos CEOs acreditam que agentes permitirão reportar ROI mensurável já em 2026.

Essa expectativa se reflete na alocação de capital. Entre os CEOs classificados como pioneiros, aproximadamente 60% do orçamento de IA para 2026 está direcionado a soluções baseadas em agentes. Essas organizações têm probabilidade duas vezes maior de implantar agentes de ponta a ponta em processos críticos, em vez de aplicações isoladas.

A expansão da autonomia traz riscos técnicos adicionais. Mais de metade dos executivos continua apontando privacidade de dados e cibersegurança como as principais preocupações relacionadas à IA. No caso dos agentes, o risco é amplificado pela capacidade de acesso a sistemas, escala de ação e aprendizado contínuo. A maioria dos líderes avalia os agentes simultaneamente como ameaça e oportunidade no domínio da segurança digital.

À medida que sistemas passam a operar com maior independência, estruturas tradicionais de governança tornam-se insuficientes. O relatório indica que organizações líderes já antecipam mudanças em direitos decisórios e modelos de controle, sinalizando a necessidade de governança adaptativa, com monitoramento contínuo e redefinição clara de responsabilidades humanas.

As diferenças regionais reforçam que a adoção da IA não é apenas técnica, mas econômica e institucional. CEOs na Índia e na Grande China apresentam níveis de confiança no ROI significativamente superiores aos observados nos Estados Unidos e na Europa. Nos mercados ocidentais, uma parcela maior dos CEOs declara investir por pressão competitiva, enquanto no Oriente predomina a percepção de criação direta de valor.

Para operacionalizar essa heterogeneidade, o BCG segmenta os CEOs em três arquétipos. Seguidores avançam de forma cautelosa e fragmentada. Pragmáticos investem de maneira consistente, mas sem ruptura. Pioneiros combinam investimento em escala, capacitação acelerada e disposição para redesenhar fluxos de trabalho de ponta a ponta.

Os dados empíricos sugerem que esse último grupo já captura ganhos mensuráveis. Casos relatados incluem economias de centenas de milhões de dólares e reduções expressivas de atividades rotineiras após a reconfiguração de processos com IA. Esses resultados reforçam a associação entre execução end-to-end e retorno.

Um efeito estrutural menos visível é a reorganização do trabalho. O relatório projeta que agentes evoluirão de ferramentas de apoio para papéis de colega, mentor e, em alguns casos, instâncias decisórias. Essa transição tende a achatar hierarquias, acelerar ciclos de decisão e redefinir accountability organizacional.

Nesse cenário, o capital humano emerge como variável explicativa central. Os CEOs pioneiros alocam uma parcela significativamente maior de seus orçamentos de IA para capacitação e já upskillaram a maior parte de suas forças de trabalho. O retorno da IA aparece, de forma consistente, associado à gestão da mudança e não apenas à maturidade tecnológica.

Para conselhos de administração e investidores, os dados indicam que a IA passou a operar como infraestrutura permanente de gestão, com impactos diretos sobre alocação de capital, governança e perfil de risco. O teste de 2026 não será a ambição declarada, mas a capacidade de converter investimento, agentes e pessoas em resultados mensuráveis e sustentáveis.

A IA deixa, assim, de ser uma agenda delegável. Ao assumir diretamente essa responsabilidade, os CEOs internalizam o risco — e o potencial retorno — da transformação.

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Metodologia: Em seu terceiro ano, o estudo “AI Radar 2026” baseia-se em uma pesquisa conduzida pelo Boston Consulting Group entre executivos seniores de 2.360 empresas em 16 mercados, incluindo 640 CEOs. A coleta combina pesquisa quantitativa e análise comparativa longitudinal. Os dados refletem percepções declaradas dos executivos sobre investimentos, governança, uso e expectativas de retorno da IA.