Com 16 anos de Red Hat, nove deles dedicados ao setor público, Jason Corey conhece o ponto de partida da transformação digital de quase todo governo ou entidade pública: o peso do legado. “No governo, você tem anos e anos de tecnologias diferentes, organizações e agências em silos e, em muitos casos, também desafios de competências”, afirma o vice-presidente do Americas Office of Technology da Red Hat. Para ele, esse é justamente o terreno de maior retorno: “Não há lugar onde a dívida técnica, os ambientes em silos e as lacunas de competências sejam maiores. Mas isso também significa que é ali que o maior retorno pode ser entregue.”
Considerada a maior empresa de capital aberto com foco corporativo a desenvolver soluções em código aberto (open source), a Red Hat se destacou no Brasil com a estreia do Pix, cuja engrenagem roda sobre tecnologias de código aberto da Red Hat. Com a integração de Inteligência Artificial (IA) caminhando também na esfera pública, a empresa enxerga um mercado de enormes possibilidades no Brasil.
“As pessoas normalmente pensam que quanto mais aberto é algo, maior o risco. Mas o que vimos ao longo de mais de 20 anos e verificado por muitas empresas e instituições, é que trabalhar com o código aberto é justamente o que entrega segurança adicional, porque todos conseguem ver os problemas e todos podem trabalhar para corrigi-los.”
O papel da Red Hat nesse ecossistema, explica, não é inventar cada tecnologia, mas selecionar, dentro das comunidades, o que tem aplicação real para grandes organizações e “empacotar” isso em plataformas. São quatro pilares: o Linux, o OpenShift (sua plataforma de Kubernetes para nuvem), a automação e, mais recentemente, a IA. Em vez de tentar “ter cada ideia por conta própria”, a Red Hat rastreia as comunidades de open source em busca do que pode funcionar melhor para cada caso, cada cliente.
Soberania, governança e o “renascimento” do Linux
Para clientes de governo, que lidam com dados de cidadãos, a soberania e a confiança são inegociáveis. A entrada em campo da IA levanta discussões. “De longe, a maior preocupação dos nossos clientes é com governança, transparência e rastreabilidade em torno da IA” A resposta da empresa é oferecer uma segurança “em camadas”. Começa no silício, com o que Corey chama de “computação confidencial”, em parceria com Intel, AMD e Nvidia, e sobe pela pilha de software. “Suas cargas de trabalho de IA vão rodar sobre Linux em algum lugar. Elas serão escaladas e orquestradas com Kubernetes”, explica o executivo.
Recursos como o SELinux e os controles avançados de rede do Kubernetes, ganharam vida nova diante da chegada dos agentes de IA. “Há uma espécie de renascimento em torno da segurança básica do Linux e do Kubernetes, e de repente todo mundo acha isso valioso de novo. Está aí há 20 anos no Linux, mais de 10 no Kubernetes.” O motivo, diz, é prático: com agentes potencialmente acessando vários sistemas, “como você vai prover governança sobre isso?”
Mesmo um caso simples como um chatbot expõe o desafio. A própria empresa criou o Ask Red Hat, que resume duas décadas de informações de suporte. “É um conteúdo muito valioso para o cliente, mas também economiza milhões de dólares para a Red Hat em atendimento”, afirma.
IA no governo: dois grandes baldes
O potencial da IA Agêntica para o setor público é um tema que ganhou força nos últimos dois anos, quando as instituições públicas passaram a ser demandadas a operar na velocidade do setor privado. Jason Corey resume em duas frentes a abordagem da Red Hat. A primeira é a integração de serviços ao cidadão. “Uma das coisas que observamos é que esses agentes e a IA são muito bons em olhar através dos silos”, diz, referindo-se a iniciativas que se concentram mais em áreas como Educação, Saúde e Impostos. A promessa é “modernizar e criar sistemas interoperáveis” para que o cidadão acesse tudo num só lugar. A segunda, que diz ser sua favorita, é apoiar decisões: “Como você começa a usar essa tecnologia para melhorar as decisões que são tomadas?”, questiona. “Estamos falando de gestores eleitos que precisam tomar medidas concretas como onde colocar a próxima escola.”
No enfrentamento ao legado, o uso que mais avançou é a geração de código. A chave, segundo Corey, é não derrubar o que já funciona. “Você pode criar um sistema paralelo com agentes de codificação a custos muito mais baixos, sem precisar tirar o sistema antigo do ar, sem impactar os serviços ao cidadão”, diz. E, se isso é feito com código aberto, a capacidade de multiplicação aumenta. “O que construímos, compartilhamos”, afirma. Isso significa levar uma solução que funcionou para uma cidade para outros municípios e instituições.
Por que o Brasil
A escolha do Brasil como vitrine não é acaso. Com mais de 200 milhões de habitantes e figurando entre os maiores mercados do mundo, o país combina escala, talento e apetite por inovação. “Algumas das inovações mais ousadas estão saindo do Brasil”, diz o executivo, lembrando que a América Latina abriga a maior presença de equipes técnicas da Red Hat. O Pix e as urnas eletrônicas são citados, no material da empresa, como símbolos dessa vanguarda.
Olhando para 2027 e 2028, ele aposta em mais mudanças. “No nível mais alto, acredito que vamos ver como os governos operacionalizam a tecnologia de IA, como a colocam em produção e a usam de fato em casos reais que tocam a vida do cidadão”, prevê. O diferencial das empresas será a confiança que os clientes vão depositar em sua capacidade de construir a transformação com segurança, governança e transparência. Isso inclui assinar pacotes de software, oferecer um “”software bill of materials” e instalar guardrails para um mundo em que “os pontos de interface são agentes e não humanos”. Sem isso, e sem resolver a economia dos tokens, lembra, a conta não fecha: “Pelo menos 85% dos sistemas de IA em produção rodando na Red Hat estão em modelos de código aberto. Ninguém tem dinheiro ilimitado; temos de fazer isso de forma responsável.”