The Shift

Quem realmente ganha dinheiro em VC

Levantamento mostra que VCs de sucesso possuem MBA de elite e fundaram startups que deram certo, entre outros pontos (Crédito: Magnific)

O venture capital costuma ser descrito como um negócio de outliers: o sucesso de poucas startups paga a conta de todas as outras investidas. Um novo estudo de Ilya Strebulaev, professor de Finanças da Stanford Graduate School of Business, e Blake Jackson, da Ohio State University, mostra que a mesma lógica vale para o sucesso financeiro de quem assina os cheques: 1% dos VCs (o topo) geram 57% de todo o lucro líquido do setor.

Após analisar o trabalho de mais de 103 mil profissionais ligados a gestoras norte-americanas entre 1996 e 2025, e usar modelos de linguagem, os dois pesquisadores apontam uma combinação de habilidade e oportunidade que acaba criando uma concentração enorme: apenas 5% dos fundos de capital de risco geram 90% dos lucros.

O estudo considera bem-sucedido um investimento cuja startup abriu capital, virou unicórnio (avaliação de pelo menos US$ 1 bilhão) ou foi vendida por pelo menos cinco vezes o capital levantado. Por esse critério, só 38% dos VCs com ao menos um investimento têm algum sucesso no currículo. Apenas 15% chegam a três ou mais, e 6% a seis ou mais.

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A discrepância é ainda maior quando se olha para o dinheiro. Em uma amostra de 12.151 VCs, com 143.096 investimentos em 46.372 startups, os autores estimam pouco mais de US$ 1,2 trilhão em lucro líquido (em dólares de 2024). O 1% do topo mencionado logo no início, que equivale a cerca de 120 pessoas da amostra, responde por 56,6% desse total, ou US$ 680 bilhões. Os 5% do topo, cerca de 600 pessoas, ficam com 90%. Os 95% restantes dividem US$ 120 bilhões. Dependendo do custo de oportunidade considerado, só entre 20% e 40% dos VCs têm lucro positivo ao longo da carreira.

Os dados sugerem que há habilidade e que ela persiste. Um aporte feito por um investidor de risco com um sucesso anterior tem 1,8% mais chance de dar certo. Com cinco ou mais sucessos prévios, a chance sobe 6,7%, um aumento equivalente a 47% da média da amostra. Como VCs costumam ser minoritários e não tocam a operação, os autores veem aí habilidades específicas do investidor, mas admitem não conseguir separar a capacidade de escolher boas empresas da capacidade de ajudá-las a crescer.

O perfil de quem está no topo

O retrato dos VCs com seis ou mais acertos é bem diferente do restante do setor:

Há também um dado incômodo sobre gênero. As mulheres somam 16,3% dos VCs com investimentos, mas só 5,4% entre os que têm seis ou mais acertos. Em média, elas acumulam 37% menos investimentos bem-sucedidos que colegas da mesma geração. A diferença de lucro bruto, de cerca de US$ 50 milhões, cai para US$ 18 milhões e perde significância estatística quando se ajusta pelo retorno do mercado no período. Os autores não identificam a causa, citam hipóteses como acesso desigual a redes ou atribuição de negócios a colegas homens, e apontam o tema para pesquisas futuras.

O efeito Midas

Para testar se a condição de superestrela retroalimenta o sucesso, Strebulaev e Jackson usaram The Midas List, o ranking anual da Forbes com os 100 melhores VCs. Eles replicaram a metodologia da lista e compararam quem entrou “por pouco” com quem ficou de fora “por pouco”. O resultado contraria os estudos sobre CEOs-celebridade, em que a posição de estrela tende a prejudicar o desempenho das empresas:

Como os investimentos antigos não melhoraram, os autores concluem que o canal é o acesso: a visibilidade abre portas para as rodadas mais disputadas.

Há um porém importante para os limited partners. No nível dos fundos, ter VCs com esses perfis na equipe prevê mais empresas bem-sucedidas no portfólio, mas não prevê retornos líquidos maiores (TIR ou TVPI). Uma explicação possível, segundo os autores, é que os VCs mais talentosos capturam esse valor via taxas e carried interest maiores. A outra é que as bases comerciais de retorno de fundos não têm dados suficientes para detectar o efeito.

E do outro lado da mesa?

Strebulaev diz que as descobertas apresentadas no paper servem a LPs, aos próprios VCs e a founders que estão escolhendo investidores. Mas o perfil dos fundadores também conta. Um estudo de Paul McCarthy e coautores, publicado na Scientific Reports em 2023, analisou 21.187 startups e 25.214 fundadores, com traços de personalidade inferidos a partir de posts no Twitter. Os pesquisadores conseguiram distinguir empreendedores de funcionários com 82,5% de acurácia apenas pela personalidade. Gosto por novidade e aventura, menos modéstia e alto nível de atividade foram os traços que mais pesaram.

Eles encontraram seis perfis ideais de founder. Startups com três ou mais fundadores tiveram mais que o dobro de chance de sucesso das startups fundadas por uma só pessoa. A amostra, alertam os autores, pende para empresas de tecnologia, com financiamento externo e fundadores homens.

Os dois estudos partem de dados digitais públicos e compartilham alguns pontos: no venture capital, as pessoas importam dos dois lados da mesa. Resta saber quanto disso é talento, quanto é rede e quanto é aparecer na lista certa.