The Shift

Carreira +100: crescer, envelhecer e aprender sempre

O número de pessoas com 60 anos ou mais deve praticamente dobrar até 2050, chegando a 2,1 bilhões, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. E estamos vivendo mais, com mais saúde. Isso mexe com o equilíbrio que existia antes, em que o modelo linear era “estudar, trabalhar, aposentar”. Hoje estudamos a vida inteira para nos mantermos relevantes. E o trabalho? Podemos investir em uma carreira por 30 anos e depois inventar outra. A longevidade, bem administrada, pode ser fonte de crescimento em vez de crise.

Mitchell Stevens, professor da Stanford Graduate School of Education e codiretor do Stanford Center on Longevity, argumenta que os investimentos em capital humano continuam concentrados nas duas primeiras décadas de vida, presumindo que a formação escolar de jovens garanta empregabilidade nas décadas seguintes. Em um mundo em que o tempo médio de vida quase dobrou no século XX e o mercado muda “quase a cada hora” no século XXI, essa lógica é, para ele, de curto prazo. Sua proposta é financiar e organizar a aprendizagem onde quer que ela ocorra, não apenas na escola. Como paralelo histórico, cita o Sputnik (1957), que em poucos meses gerou o National Defense Education Act (1958) nos EUA. Para ele, a ansiedade atual com a IA deveria provocar resposta semelhante, o que ainda não aconteceu.

Durante a Century Summit VI, conferência anual do Stanford Center on Longevity e do Longevity Project dedicada a “Longevidade, Aprendizagem e o Futuro do Trabalho”, Peter Cappelli (Wharton School) afirmou que a resistência a contratar trabalhadores mais velhos é, em boa parte, discriminação etária, apesar da escassez de talentos e da queda da natalidade. Martha Deevy, do Stanford Center on Longevity, resumiu: “A aprendizagem contínua se torna obrigatória”, já que as pessoas precisarão financiar vidas mais longas.”

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Aprendizagem, prevenção e empregos mais flexíveis

“Adaptar-se a vidas mais longas é tão crucial quanto se adaptar à IA ou às mudanças climáticas”, afirma Andrew Scott,professor de Economia da London Business School. Coautor de “The 100-Year Life” e autor de “The Longevity Imperative” Para ele, comportamentos, políticas, culturas e instituições não acompanharam o novo tempo de vida esperado. Scott defende que o “dividendo da longevidade” só se realiza investindo no capital humano das pessoas mais velhas: aprendizagem ao longo da vida, sistemas de saúde voltados à prevenção e empregos mais flexíveis e adequados à idade. Ele nota que o emprego começa a cair a partir dos 50 anos por causa de saúde, defasagem de competências e etarismo. Reverter essa queda é essencial para sustentar o crescimento. Como exemplo, cita o Japão, que combina alta expectativa de vida e baixa natalidade com crescimento per capita resiliente, apoiando trabalhadores mais velhos com emprego flexível além da idade de aposentadoria e uso de robótica em funções fisicamente mais pesadas.

No campo financeiro, Scott argumenta que o maior desafio é ganhar mais ao longo de uma vida mais longa, o que exige trabalhar por mais tempo e abandonar o modelo de três estágios em favor de vidas multifásicas, com pausas de carreira, requalificação e padrões variados de trabalho e renda. Os sistemas previdenciários precisam de mais flexibilidade na acumulação e na retirada dos recursos e de maior integração entre gestão de patrimônio e de saúde. As empresas precisarão reduzir o viés etário e criar funções mais flexíveis e com menor exigência física. Por fim, como o envelhecimento é só parcialmente genético, o acesso desigual a hábitos saudáveis e prevenção pode ampliar desigualdades, por isso, elevar apenas a idade de aposentadoria não basta.

Lynda Gratton, colega de Scott na London Business School, coautora de “The 100-Year Life” e autora de “Living the 100-Year Life”, propõe abandonar a metáfora da “escada de carreira” pela ideia de “tecer” a própria vida. Subir uma escada exige energia, mas pouca agência: basta pôr uma mão no degrau seguinte. Tecer um tecido exige decisões constantes sobre o que fortalecer, envolvendo fios de “produtividade” (domínio de habilidades, cooperação e a “amplificação” via Inteligência Artificial) e fios de “nutrição” (relações, amizade, gestão de energia e descanso). Para ela, o modelo de três estágios – educação, trabalho, aposentadoria aos 60/65 anos – pressupõe uma relação de pai e filho entre organização e trabalhador.

A nova realidade exige uma relação “adulto-adulto”, com mais agência de ambos os lados. Em um programa-piloto com executivos de três grandes empresas, ao longo de dez semanas, Linda identificou esgotamento real entre profissionais na casa dos 40 anos (os “pivotais 40”), diante da perspectiva de mais vinte anos na mesma rotina. Seu conselho prático: preparar-se antes de precisar, comprometer-se com o que realmente dura (amizades, domínio de uma habilidade) e proteger tempo para julgamento e reflexão.

Sobre a disseminação da IA, Lynda Gratton observa que, para profissionais experientes e com bom julgamento, ela já pode multiplicar a produtividade em até seis vezes, o que levanta a questão do que fazer com o tempo liberado. Sua resposta está nos vínculos humanos, na sabedoria da experiência e no trabalho em equipes multigeracionais, que a tecnologia não substitui. A professora também associa a longevidade ao crescimento do trabalho freelance e das “vidas em portfólio”. A London Business School vai inaugurar um instituto dedicado à longevidade, trabalho e carreira.

Longevidade como motor de crescimento

Mas e se olharmos o envelhecimento por outro ângulo? E se, além de um desafio, o envelhecimento for apenas uma história de crescimento? Segundo Pedro Ros e Mike Fraser, da SilverEconomy.com, “não se trata de um nicho e sim de para onde vai a demanda”. Dados da plataforma indicam que 1,2 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais no mundo (cerca de 15% da população global) já respondem por aproximadamente 27% do consumo global. A “economia prateada” (Silver Economy) é estimada em US$ 4,5 trilhões em 2026, com crescimento anual projetado de 6,7% até 2031.

Entre os mercados que mais crescem estão: tecnologia voltada ao envelhecimento (AgeTech, com alta de 10,4% ao ano, US$ 286,4 bilhões em 2026), aprendizado contínuo (crescimento de 8,8% ao ano, US$ 149,9 bilhões) e medicina da longevidade (alta de 7,6% ao ano, US$ 162,3 bilhões). Regionalmente, os Estados Unidos concentram cerca de 39% do gasto global da economia prateada, a União Europeia 20% e a China apenas 8%, mas com o crescimento mais rápido entre as grandes regiões, próximo de 12% ao ano.

Os setores que mais crescem são os que integram ofertas voltadas a pessoas mais velhas aos sistemas financeiros, habitacionais, de turismo e educação já existentes, em vez de criar serviços segregados “para idosos”, de acordo com Ros. O valor está migrando do hospital para a casa, do produto para a plataforma e da propriedade para o acesso.

Exemplos citados incluem o Apple Watch, que integra detecção de quedas num dispositivo de uso cotidiano, e a britânica Tunstall Group, que distribui telessaúde por canais públicos e privados. A preocupação é que a inovação não seja apenas privilégio de quem já tem renda e acesso, aprofundando desigualdades, e que o uso de dados e IA nesse mercado venha com cuidado redobrado para ser um instrumento de transformação e não de disseminação de vieses.