Entre as tecnologias no centro das discussões do SAS Innovate 2026, a IA Agêntica ocupa uma posição única: está sendo adotada pelas empresas em vários projetos, mas quando se fala em produção e escala, a coisa muda de cenário. “Todas as grandes empresas estão avaliando, mas tem pouca coisa ainda colocada em produção”, resume André Novo, Country Leader Brazil da SAS. Para ele, o cenário é o de uma tecnologia que acumula discurso, mas ainda busca sua primeira geração de casos de uso realmente robustos. E ele não vê isso como problema, é o ciclo natural de adoção.
O que a SAS está entregando para preparar o terreno é uma camada de governança que Novo considera tão ou mais importante do que a própria tecnologia. “A SAS tem uma preocupação primeiro com governança. Nossa parte é garantir que a IA vai ter um resultado importante, mas que seja confiável. Essa palavra ‘confiável’ é mais importante ainda.”
Ele faz referência ao SAS AI Navigator, uma solução SaaS que auxilia as organizações a mapear e gerenciar o uso da IA lançada durante o evento. Trata-se de uma plataforma centralizada que permite às organizações integrar e monitorar seus modelos e agentes de IA de forma unificada. Com ela é possível criar um inventário abrangente de IA e a conectar as aplicações de IA às políticas internas, bem como às leis e regulamentações externas. E, ao mesmo tempo, evita o risco de “Shadow AI”, que traz riscos para compliance.
“É uma solução que permite às empresas integrarem os modelos de IA, os agentes de IA, para que consigam avaliar em conjunto, ver o comportamento e como extrair o máximo dessas soluções.” O conceito que ele usa para resumir o posicionamento da SAS é o de “Trustworthy AI”, uma IA confiável por design, não por acidente.
Na frente de Customer Service, o SAS Customer Intelligence 360 ganha novas capacidades de IA Agêntica. Essa nova geração de agentes de IA, desenvolvidos com propósitos específicos, opera dentro das diretrizes da empresa, olhando para público-alvo, jornada, tomada de decisão e execução, mantendo a governança e a transparência, e sempre com supervisão humana (human-in-the-loop). “Esses são pontos fundamentais para a SAS”, diz Novo.
Dados sintéticos: a revolução silenciosa que já começou
Se os agentes de IA ainda estão avançando na prática, há outra tecnologia que Novo considera uma realidade operacional no Brasil já faz alguns anos: a geração de dados sintéticos. “Há uns dois anos a gente teve um momento na SAS Brasil quando começamos a falar disso. Fui explorar no mercado, conversar com clientes. Principalmente os bancos já tinham investimento em soluções para geração de dados sintéticos.”
A lógica por trás da demanda é simples. Treinar modelos de Inteligência Artificial exige volumes crescentes de dados. Mas dados reais estão sujeitos a regulações severas – no Brasil, à LGPD – e muitas vezes não podem ser usados livremente para desenvolvimento e testes. Dados sintéticos resolvem esse dilema: geram bases estatisticamente semelhantes às reais, sem conter informações individuais identificáveis.
Novo usa uma analogia do dia a dia para explicar o problema que a tecnologia resolve. “Qualquer pessoa que já fez programação em algum momento fala: ‘Preciso testar esse negócio numa base de dados.’ Aí o que você fazia antes? Gerava uma base de dez linhas e copiava e colava, copiava e colava. Gerava uma base gigantesca, completamente viciada, porque você copiava os mesmos dados.”
A entrada de dados sintéticos muda isso. “Você consegue gerar uma base que é semelhante à sua base real sem ser igual aos dados que você tem. Você não vicia a base. E ao mesmo tempo não corre nenhum risco em relação à LGPD”, diz.
A SAS acompanhou essa curva de perto. Passou de soluções baseadas em código, adquiriu a britânica Hazy, uma empresa especializada na área em 2024 e, meses depois, lançou o SAS Data Maker, uma solução as-a-service que roda no Microsoft Azure e opera de forma point-and-click: o usuário seleciona o tipo de dado, insere uma amostra de referência, e a plataforma gera a base sintética com a quantidade de linhas necessária, cobrada por volume de geração.
“Para quem trabalha com IA, isso é fundamental. Você precisa de cada vez mais dados para treinar modelos, para fazer com que eles aprendam. Os agentes também. Ter a capacidade de gerar uma base grande sem ser simplesmente uma cópia dos dados que você já tem é indispensável.”, argumenta o executivo. A SAS está apostando alto nessa frente e Novo acredita que a demanda vai crescer de forma acelerada nos próximos anos.
Quatro pilares, dois protagonistas
No front das indústrias, a SAS organizou seu portfólio em quatro grandes grupos: Financial Services, Public Sector, Health and Life Sciences e Commercial (um guarda-chuva que abriga Telecomunicações, Óleo e Gás, Utilities, Manufatura e Varejo. Dois puxam realmente o crescimento. “Os mais relevantes em termos de resultado para a SAS são Finanças e o Setor Público”, afirma. Sobre a Saúde e Ciências da Vida, ele reconhece uma limitação no contexto regional. “É uma área que tem pouco foco no Brasil porque está muito concentrada em laboratórios, pesquisas farmacêuticas e alguns hospitais. Não temos uma atuação direta tão forte na América Latina.” O Setor Comercial continua sendo trabalhado, mas sem o peso estratégico das duas verticais principais.
No governo, Novo vê uma transformação em curso que considera mais relevante do que parece à primeira vista. “Eu acho que o Governo está começando a enxergar cada vez mais o uso de Inteligência Artificial”, diz ele, citando casos de reconhecimento facial já em uso no Brasil e um projeto em expansão na República Dominicana, onde a polícia local utiliza soluções da SAS e está ampliando o escopo. “Tem uma perspectiva bastante grande de crescer nossa atuação lá.”
Recentemente, a SAS reestruturou seu foco e reorganizou a atuação de seus executivos por áreas de expertise, como forma de concentrar seu foco em certas áreas. “Eu continuo tendo o papel de Country Leader, Country Manager do Brasil, mas minha atuação em Vendas vai estar mais focada em Serviços Financeiros, principalmente bancos e seguros. O que não quer dizer que eu não veja o número como um todo, mas minha responsabilidade maior é essa.”
O que muda de forma mais significativa é a dimensão geográfica do novo papel. “Além de ter essa responsabilidade para o Brasil, territorialmente ela foi expandida para a América Latina. Hoje eu enxergo Financial Services para o Brasil e todo o resto da América Latina.”
A mudança foi global. Toda a estrutura de vendas da SAS passou a ser organizada por indústria, com executivos dedicados a segmentos específicos em vez de territórios únicos. O resultado prático, segundo Novo, é uma troca muito mais rica de experiências entre regiões.
“Hoje eu me reporto para o Jack Thompson, que é o VP de Financial Services para Américas. Ele tem uma pessoa nos Estados Unidos, uma no Canadá e eu na América Latina. Isso criou uma capacidade de interação que antes era mais limitada.” Um exemplo concreto: em uma reunião recente em que o tema era concessão de empréstimos via WhatsApp, prática comum no Brasil, mas praticamente inexistente nos Estados Unidos, Thompson teve de baixar o WhatsApp na hora para entender o funcionamento. A América Latina tem particularidades de mercado que são, em muitos casos, laboratórios de inovação que o resto do mundo ainda não atingiu.
Gêmeos digitais: a aposta que vai além da manufatura
Na SAS Innovation 2026, os Gêmeos Digitais (Digital Twins) apareceram como uma das grandes apostas da empresa. A parceria da SAS com a Epic Games, que usa o motor Unreal Engine para criar réplicas digitais de alta fidelidade de ambientes industriais foi muito comentada após a apresentação. “É um negócio super interessante: você consegue simular várias coisas num ambiente idêntico ao produtivo, sem ter um custo gigantesco e sem romper a sua cadeia de produção”, diz Novo.
A lógica do Digital Twins é poderosa justamente porque elimina os riscos da experimentação real. Perguntas do tipo “O que aconteceria se dobrássemos o número de máquinas?” ou “Como a linha de produção reagiria a uma falha no fornecimento de matéria-prima?” passam a ter resposta sem que nenhum dos cenários precise ser testado no mundo físico, com todos os custos e riscos atrelados. Para Novo, essa tecnologia se conecta diretamente ao movimento de dados sintéticos, porque ambas se sustentam na ideia de criar ambientes de teste e aprendizado que não dependem da realidade e que, por isso, são mais rápidos, mais baratos e mais seguros para as organizações.
Computação Quântica: promissora, mas sem pressa no Brasil
O cenário muda quando se fala em Computação Quântica. Novo reconhece o potencial, acompanha os investimentos da SAS na área, incluindo o SAS Quantum Lab, ambiente de experimentação e testes anunciado para o quarto trimestre de 2026, mas recusa-se a inflar expectativas de curto prazo. “Sinceramente, não sei se é uma coisa que vai entrar no dia a dia das empresas em um período de, digamos, 24 meses. Talvez seja uma coisa um pouquinho mais para frente”, prevê o executivo. E completa: “Para ser bem sincero, eu acho que ainda leva um tempinho para a gente ter coisa prática em quantum.”
O critério que André Novo usa para avaliar qualquer tecnologia emergente é sempre o mesmo: viabilidade econômica. “A matemática é exatamente essa. Você tem que ver um caso de uso que te dê retorno e que justifique o investimento que vai fazer, tanto para IA, quanto para agentes de IA, quanto para Computação Quântica. Se você não tiver um caso de uso em que a tecnologia seja efetiva economicamente, não adianta investir em produção. Vale investir em estudo. Isso todo mundo tem que fazer.”
Esse raciocínio de “investir em estudo agora, em produção quando houver caso de uso” é o mesmo que ele aplicou há alguns anos à IA e que hoje se mostra correto. As empresas que começaram cedo a explorar a tecnologia sem pressionar por resultados imediatos estão em posição muito melhor do que aquelas que aguardaram o mercado amadurecer para começar do zero.
No que se refere ao papel das empresas brasileiras no ecossistema quântico mais amplo, Novo é realista sobre o ponto de partida: “O que as empresas no Brasil precisam fazer é se informar e se atualizar”, diz. Não se trata de desenvolver hardware quântico ou criar algoritmos do zero, já que essa é a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia, como IBM e Google. “O cliente final – bancos, seguradoras, empresas no dia a dia – precisa estar próximo dessas empresas de tecnologia para entender o que estão fazendo e como vai se aplicar no negócio deles.”
É assim que ele enxerga maior relevância no papel da SAS junto a seus clientes. Com sua capacidade de traduzir de forma analítica o que essas tecnologias emergentes podem fazer e qual seu impacto no negócio, a SAS faz essa ponte. “No fundo, a gente tem que juntar esses conhecimentos. A conversa tem que acontecer para que a gente entenda como essa tecnologia vai influenciar no negócio deles.”
O contexto macroeconômico e político do Brasil
A conversa sobre estratégia de negócios não ignora o ambiente externo. Novo reconhece que 2026 é um ano de variáveis macroeconômicas e políticas relevantes, tanto no Brasil quanto na América Latina. A Copa do Mundo e as eleições presidenciais são dois eventos que historicamente geram algum grau de paralisia em decisões de investimento. “Expliquei para o pessoal dos Estados Unidos que, pelo menos nessa primeira fase da Copa do Mundo, muitos jogos serão à noite, então não teremos pessoas saindo meio-dia do trabalho. Mas de qualquer jeito, gera uma dispersão.”
No governo, a estratégia é antecipar o máximo possível os contratos. “Estamos tentando antecipar tudo para o setor público porque chega um momento em que já não é possível fechar negócios com o governo.” Nesse sentido, ele conta que o começo do ano foi bastante positivo nessa frente.
Para o setor financeiro, o tom é de normalidade, “sem grandes acelerações, sem grandes freadas”. “A impressão que me dá é que não vai ter uma interrupção ou um efeito muito grande sobre os negócios.”
O fator que mais preocupa é a polarização política, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. “Brasil, México e Colômbia têm governos mais à esquerda. Esses três países representam 80 a 90% da economia e da população da América Latina. Brasil e Colômbia têm eleições que podem mudar completamente o jogo.”
Essa incerteza política gera expectativa, e expectativa gera contenção de investimentos. “Algumas empresas podem segurar investimentos, temendo uma explosão do dólar. E há o efeito da guerra (no Oriente Médio), com o impacto em petróleo e combustível, que traz efeito direto na economia como um todo e pode afetar a capacidade de investimento das empresas ao longo do ano.”
Quando o horizonte se expande para cinco anos, Novo fica mais solto. “Eu sempre quero ver crescimento. E a SAS vem crescendo nos últimos anos”, diz. Ele reconhece que 2024 foi “um ano espetacular para o Brasil”, especialmente nos dois pilares de Setor Público e Serviços Financeiros. Em 2025, algumas áreas enfrentaram dificuldades, mas o crescimento seguiu em frente. Para ele, a durabilidade da SAS no mercado não é acidente. É consequência de uma escolha de foco que poucas empresas conseguem manter. “Já vi várias empresas surgindo, investindo e saindo do negócio de inteligência analítica. Empresas grandes falaram: ‘isso aqui está dando negócio’. Mas para essas empresas, aquilo não era o core. Para a SAS é core, é fundamental.”
O ponto central da visão de Novo para os próximos anos é a continuidade de uma trajetória que a SAS vem construindo há cinco décadas. “Quando a gente fala de Inteligência Artificial, IA Generativa, tudo isso tem um berço que é a Inteligência Analítica. É o que a SAS faz há 50 anos. E eu costumo dizer que é a nossa sina: eu faço isso e só faço isso. A tecnologia vem junto com essa inteligência.”